Dia 13 de Dezembro estreou na Netflix o filme 6 Underground, dirigido por Michael Bay, roteiro de Paul Wernick e Rhett Reese (responsáveis por Deadpool e Zombieland e suas continuações) e estrelado por Ryan Reynolds (você sabe quem é), Mélanie Laurent (a Shosanna de Bastardos Inglórios), Manuel Garcia-Rulfo (Assassinato no Expresso do Oriente), Ben Hardy (o Anjo de X-Men: Apocalipse) Adria Arjona (a Anathema de Good Omens) e Corey Hawkins (Dr. Dre em Straight Outta Compton: A História do N.W.A.).

O impressionante pra mim com este filme é a solidificação da Netflix como parte significativa da produção de filmes em Hollywood. Este é o primeiro filme do Michael Bay para um serviço de streaming, algo pra mim inimaginável quando assinei o serviço anos atrás para assistir Supernatural.

6 Underground é a história de um bilionário que fez sua fortuna com tecnologia no estilo Steve Jobs e Elon Musk que testemunha um ataque a gás contra a população refugiada no país do Turgistão promovida pelo seu próprio ditador. Ele simula a própria morte e recruta cinco outros indivíduos para formar um esquadrão de “fantasmas” para eliminar terroristas e ditadores que as nações do mundo deixam existir. Suas regras são que eles não têm absolutamente laço algum com os vivos, não podem operar em países em que trabalharam quando “vivos” e nem eles mesmos sabem seus nomes. Ryan Reynolds é o Um, líder e “tech nerd”, Mélanie Laurent é a Dois, uma ex-espiã, Manual Garcia-Rulfo é Três, um ex-assassino da máfia, Ben Hardy é Quatro, um ladrão e profissional de parkour, etc.

A narrativa do filme alterna entre a prepraração para a atual missão, derrubar o maligno ditador do Turgistão, e diferentes momentos no passado, revelando como Um se tornou um justiceiro internacional e como ele recrutou os outros fantasmas. Por causa desse vai-e-vem, misturado com a ação desenfreada típica do Michael Bay, o fio da meada pode se perder de vez em quando, se você não estiver prestando atenção. E aí é que entra uma crítica ou um elogio ao Michael Bay: ele não faz filmes em que você precisa prestar atenção. Ou melhor, as histórias às quais ele se interessa não são as coisas mais complicadas do mundo. Ao mesmo tempo, tem sempre tanta coisa acontecendo na tela que se você piscar na hora errada pode perder um momento crucial do enredo ou não notar uma reviravolta de dois frames. É o que ele faz como diretor e tem quem adore isso, tem quem deteste.

Se você não passa mal com os cortes frenéticos do Michael Bay, vai poder apreciar um filme incrivelmente bem feito, com mais cenas de ação uma atrás da outra do que existe atualmente no cinema, e — sem brincadeira — ótimas atuações de todos os atores misturadas na lambança de explosões, brigas, tiroteios e perseguições automobilísticas com os quais este filme está coalhado.

As persongens não são complexas e é meio surpreendente que tenhamos momentos mais calmos em que aprendemos algo sobre algumas delas, porque ao fim e ao cabo suas vicissitudes não são importantes para o filme; suas competências são. Há um ou dois momentos piegas de “não vamos deixar ninguém para trás” típico do pro-militar Michael Bay, mas são momentos pedantes que, estranhamente, se encaixam neste filme, que é a coisa mais “massavéio” que a Netflix tem a oferecer ultimamente. E bota “massavéio” nisso. Pense em 6 Underground como a evolução de Michael Bay, ou sua redenção depois de nos fazer sofrer com a série Transformers. Parece que a Skydance e a Netflix deram um cheque em branco pro diretor, com o recado “faz tudo o que você quiser, sem censura”. Sabe as típicas cenas de Jason Bourne, 007 ou Velozes e Furiosos, com perseguições automobilísticas em que miraculosamente ninguém é atropelado? Esqueça. Em 6 Underground tem dublê e boneco de borracha sendo atirado pra tudo que é lado, passando por cima e por baixo de carros, sendo prensado contra a parede, saindo voando e quicando em postes… a violência do filme é a mais realista que eu já vi num filme de ação desde Rambo 4, e isso é dizer muita coisa. É o tipo de filme em que a ação é uma carnifissina em UHD — você não quer olhar praquilo mas também não consegue tirar os olhos. Eu meio que fiquei satisfeito com a forma explícita como capangas e pedestres igualmente são fuzilados ou ceifados nas cenas de ação e caos: nós ficamos muito confortáveis com cenas de ação em filmes e desenhos animados em que porções de uma cidade são destruídas mas ninguém morre e nunca vemos as conseqüências do pandemônio causado pelos heróis. 6 Underground não se furta de mostrar as conseqüências de fugir da máfia num Alfa Romeo Giulia verde-limão pelas ruas de Florença. 

Se você não gosta do Michael Bay em particular ou de filmes “burros” de ação em geral, passe longe de 6 Underground. Você não vai gostar. Este é um daqueles filmes de ação piegas em que os protagonistas praticamente têm super-poderes e os vilões são mais maus que o Pica-Pau, e você quer vê-los sofrer. É um filme feito sob-medida pra você se sentir liberação catártica quando o vilão se fode de verde e amarelo e os heróis caminham triunfantes em direção ao pôr-do-sol.

Eu gostei de 6 Underground particularmente por essa catarse: alguém com recursos e habilidades decide corrigir o mal do mundo e foder com um ditador que atira gás em sua própria população. É a coisa mais longe de nossa realidade cheia de Bolsonaros, Trumps, Putins e Erdoğans… mas como eu precisava ver um filme desses! Saí cansado de assisti-lo (todo filme do Michael Bay é exaustivo), mas saí vingado. Mesmo que seja apenas uma fantasia super-violenta. Vou torcer para que esse filme se torne uma franquia na Netflix e que tenhamos, a cada dois ou três anos, mais histórias desse povo causando destruição e violência através de cidades no mundo todo, matando gente rica das formas mais criativas e violentas possíveis.