« Ilustração: Ride home por Dk-Raven (via DeviantArt)

Toda vez que ouço alguém discutindo combate versus interpretação (como se não houvesse interpretação no combate) eu fico me perguntando: e quanto à aventura?

Acho que preciso me explicar aqui. O que é aventura? É contracenar com cortesãos e cavalariços? É sair na porrada com eles? É contracenar com cavalariços e depois sair na porrada com eles? Não. Aventura é o ponto-focal de toda e qualquer história fantasia que existe, existiu e (provavelmente) existirá, dos video games à literatura, dos quadrinhos ao cinema. Shea Ohmsford não encontrou a Espada de Shannara no quintal de casa. Luke Skywalker não reconstruiu a fazenda de umidade dos tios depois que os Stormtroopers passaram a régua neles. Gandalf não ficou enchendo o saco de Bilbo para que ele ficasse no Condado.

Essas e tantas outras histórias de fantasia são aventuras porque elas são jornadas. Bilbo Baggins viajou por meia Terra-média, acumulando várias aventuras no currículo, até chegar a seu destino, roubar do dragão, testemunhar (?) a Batalha dos Cinco Exércitos e voltar para casa completamente mudado, e com muitas histórias para contar. Luke Skywalker juntou-se à Aliança Rebelde e se descobriu um grande (?) Mestre Jedi, redimiu seu pai e libertou a galáxia, para isso tendo viajado por tudo que foi lugar diferente, conhecendo muita gente e enfrentando muito perigo. Shea Ohmsford vagou pelas Quatro Terras, fazendo amigos e inimigos, descobrindo sobre seu passado enquanto procurava pela arma que lhe permitiria derrotar o Warlock Lord — descortinando toda uma multitude de sociedades, culturas e raças no caminho.

Mais cedo esta semana eu falei sobre combate e interpretação. Bem, esqueça interpretação; dane-se o combate. Um dos pontos fundamentais de qualquer jogo de RPG — em especial se estivermos falando de fantasia — é a aventura. Como começaram as melhores histórias que você já jogou? Provavelmente indo a outra cidade investigar um caso paranormal ou tendo que viajar pelos esgotos para encontrar um informante Nosferatu; talvez respondendo a um pedido de socorro num sistema solar não mapeado. E quais são as histórias mais chatas da saga de Conan o Bárbaro nos quadrinhos da Marvel? A fase Rei, em que ele fica no palácio de Tarântia — as histórias que se salvam desse período são as em que ele tem que sair da cidade para resolver algum problema ou enfrentar alguma ameaça. Tiveram que dar uma nave, a Defiant, para a tripulação de Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, logo no primeiro episódio da terceira temporada porque a série estava com pouca audiência — e por quê? Porque você só consegue contar um número finito de histórias dentro de uma estação espacial, mas com uma nave que pode ficar invisível a última fronteira é um poço inesgotável de aventuras.

Sem aventura seu melhor e mais bem preparado enredo não vale nada. Seus melhores NPCs não têm graça e suas maiores cenas de luta são mero pano de fundo para a mesma coisa de sempre, o mesmo cenário que todo mundo já viu. Seus jogadores precisam explorar algum lugar, mesmo que seja um andar previamente desconhecido do prédio onde vivem, para que seu jogo possa ser digno do nome aventura.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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