Eu já comentei do maravilhoso trabalho que a autora Martha Wells anda fazendo com ficção científica na série de novelas Murderbot Diaries. Como ainda vão quase dois meses até sair o próximo e último capítulo da saga do Murderbot, eu saí atrás de outros livros dela pra ler. E por que não começar do começo?

Os primeiros livros da Martha Wells foram no gênero fantasia: The Element of Fire em 1993, City of Bones em 1995 e The Death of the Necromancer em 1998. The Death of the Necromancer é meio que continuação de The Element of Fire, então foi pra esse livro que eu pulei quando terminei The Element of Fire e é dos dois que vou comentar neste texto. Começando…

Agora.

 The Element of Fire

Eu não decidi ainda exatamente o que pensar deste livro. Por um lado, é a típica história de intriga de corte num reino pseudo-europeu genérico de fantasia, com magia e fadas, entupido de gente branca. Por outro lado, foi escrito por uma mulher, o que permite uma narrativa refrescantemente não convencional. A diferença no texto é sutil, mas inequívoca: não é um mundo inventado por um cara para satisfazer nossas (demasiadamente familiares) fantasias de poder.

Tanto o enredo quanto a escrita é boa — muito boa, na verdade — só que é o seu super-comum livro de fantasia ocidental que chega e sai a rodo das livrarias e dos alfarrábios. Reis e rainhas de pele alva no seu castelinho, com seus cavaleiros, magos da corte, bruxas, fadas e bicho que voa. Wells tenta emular uma França mais renascentista que medieval com o reino de Ile-Rien, então nosso protagonista carrega uma pistola acionada por pederneira e a infantaria do castelo usa mosquetes. Há duelos com rapieiras e o segmento aristocrático da sociedade (onde praticamente toda a ação se passa) é altamente ritualizado. Boa parte do enredo envolve intriga palacial — e nessa hora a autora, que é antropóloga, nada de braçadas, apresentando um mundo crível e fascinante de se ler, mesmo que não acrescente muita coisa de novo ao gênero de fantasia. A mágica existe na forma de feitiçaria feita por mortais e a mágica inerente a fadas que povoam os ermos e têm sua própria sociedade. Wells trouxe para o mundo de The Element of Fire as fadas do folclore escocês, divididas entre Cortes Seelie e Unseelie.

Tudo isso contribui para que o enredo e o cenário não seja exatamente uma típica história de fantasia ocidental. Mas outra coisa se destaca e é bem óbvia no livro para quem tem olhos para ver: The Element of Fire foi escrito por uma pessoa com um ponto de vista completamente diferente de um homem. Foi escrito por uma mulher, e isso transparece no texto. Não tem mulher indefesa aqui: Kade Carrion, a co-protagonista ao lado do guarda-costas da rainha-mãe Thomas Boniface, é poderosa, astuta, independente e freqüentemente dá um totó nos homens que tentam subjugá-la ou manipulá-la. Kade é quem salva Thomas quando as coisa fica preta em vários momentos do livro, apesar de ser Thomas a personagem que mais acompanhamos durante o livro e, supostamente, nossa personagem de identificação heróica, honesta e abnegada. O rei, Roland Fontainon, é um moleque mimado, meio besta, e facilmente manipulado pelo vilão da história, seu primo Denzil. Roland é casado com a rainha Falaise, que a princípio se apresenta como uma donzela coitadinha, mas que se revela ciente e entendida do que acontece na corte. E a rainha-mãe, Ravenna, é de onde emana o real poder da nação de Ile-Rien e quem de fato governa e comanda as tropas reais quando o outro vilão da história, o feiticeiro louco Urbain Grandier, ataca a capital Vienne com seus monstros e criaturas mágicas.

Eu gostaria de ter lido um livro de fantasia menos estereotípico, mas acabei me divertindo muito com ele. Eu acho que, em seu primeiro livro, Martha Wells conseguiu por o pé bem firmemente na porta do clube do Bolinha que é a literatura de fantasia e dizer “ei, sabemos fazer esse tipo de porcaria também!”. Mais tarde na carreira ela iria nos presentear com jóias como a novela All System Red e suas continuações, mas a autora fez um trabalho esplêndido, mesmo sendo uma fantasia bem arquetípica, em seu livro de estréia. Tanto adorei o reino de Ile-Rien que parti pro livro seguinte no instante em que terminei este aqui.

The Death of the Necromancer

A história se passa um século depois dos eventos de The Element of Fire. A sociedade em Ile-Rien avançou até um nível pré-industrial, algo que é raro vermos em história de fantasia (outro notório exemplo são os livros pós-trilogia Mistborn do Brandon Sanderson). Eletricidade ainda é uma novidade, usada praticamente apenas em telégrafos. As ruas são iluminadas por lâmpadas a gás e algumas máquinas a vapor já são usadas — em particular, trens de ferro. As fadas, compreensivelmente, quase não aparecem em The Death of the Necromancer, um livro cuja ação se passa completamente numa cidade repleta de ferro pra tudo que é lado.

O tom desta história também muda em relação a The Element of Fire. Como eu já disse, aquele é o típico livro de fantasia épica que você acha de baciada por aí, com heróis e heroínas nobres e puros lutando conta o exército de monstros malvados e feiosos. The Death of the Necromancer é uma mistura de livro de assalto, em que as protagonistas são malandros que se passam por outras pessoas, enganam ricaços com planos complexo, com mistério de crime e também suspense policial, o que proporciona uma maravilhosa mudança de ritmo se você vem direto do livro anterior. Mas você não precisa ter lido The Element of Fire para apreciar The Death of the Necromancer: as referências ao livro anterior são pouquíssimas e auto-explicadas dentro deste livro. Arrisco a dizer que é uma história completamente independente, cujas referências à anterior são praticamente “Easter eggs” para quem leu. Nossos protagonistas neste livro são Nicholas, um nobre que secretamente é o maior ladrão de Ile-Rien, Madeline, uma atriz de teatro e mestre dos disfarces, e Reynard, ex-capitão de cavalaria que caiu em desgraça por um crime que não cometeu. Eles e mais um amável grupo de criminosos honrados roubam dos ricos e corruptos de Vienne, evitando captura pelo Inspetor Ronsarde, o nobre adversário de Nicholas e cia. Enquanto rouba e engana, Nicholas se prepara para se vingar do execrável Conde Montesq, que orquestrou a execução do pai adotivo de Nicholas, falsamente acusado de necromancia. A história começa no mais recente esquema de nossos heróis, quando eles trombam com uma conspiração mágica que sugere a presença de um poderoso mago sombrio na cidade, auxiliando um charlatão que se incide à alta sociedade Viennense fingindo se comunicar com espíritos. É uma trama inteligente, envolvente e é difícil de largar este livro!

Dá pra notar como a autora cresceu profissionalmente de um livro para o outro. No primeiro livro, Martha Wells cria diálogos diretos, sem descrever trejeitos dos interlocutores. Ela raramente descreve gestos ou expressões das personagens, exceto quando absolutamente necessário, como quando alguém está fazendo uma magia. Já no segundo livro, ela demonstra muito mais entendimento do que faz um diálogo crível: personagens levantam as sobrancelhas, olham para os lados, limpam poeira das calças para ganhar tempo, dão de ombros… Outro elemento que exibe o maior controle narrativo por parte da autora: em The Element of Fire, a narrativa é direta, segue linearmente do começo ao fim. Já em The Death of the Necromancer, tanto as motivações do protagonista, Nicholas, quanto as circunstâncias de seu primeiro encontro com aliados e adversários são costuradas no meio da narração dos eventos tem tempo presente. Com isso, demonstrando o apreço de uma personagem pela outra, a motivação por detrás da busca por vingança ou os detalhes de como Nicholas se tornou a pessoa que é depois que já estamos nos acostumando com as personagens gera muito mais interesse nesses momentos de relembrança e memória, deixando as personagens profundas e críveis lenta e naturalmente ao longo do livro. Não é muito comum que eu note o desenvolvimento de um autor de um livro para o outro, e fiquei feliz de ter podido participar dessa jornada com a Martha Wells. Uma jornada que pretendo continuar.


Estes e praticamente todos os ouros livros, de fantasia e ficção científica, de Martha Wells não estão atualmente disponíveis na Amazon brasileira, mas eles são baratinhos na Amazon estadunidense. Clique aqui para The Element of Fire e aqui para The Death of the Necromancer. Eu li esses livros no Scribd, que é tipo um Netflix de livros. Você pode testar o serviço clicando aqui.