Suspension of disbelief é uma expressão da língua inglesa cuja tradução, «suspensão da descrença», não é muito boa. Trata-se da capacidade de ver algo e acreditar que aquilo é muito mais do que o que realmente é, como quando o Homem-Aranha escala paredes na tela do cinema: é efeito especial de computador misturado a tomadas isoladas de um cara preso em cabos numa superfície inclinada, mas sua suspension of disbelief te faz acreditar «de mentirinha» que aquilo é real. Não importa o que realmente é, mas sim o que você acredita que é na sua mente.

Isto posto, vou contar da descoberta que fiz na última faxina: um gibi dos X-Men de mil novecentos e lá vai fumaça, com várias ilustrações de algum velho catálogo de brinquedos dentro. Eram recortes de pecinhas de Playmobil, de bonequinhos a castelos inteiros. Como na cena de «Ratatouille», em que o crítico gastronômico experimenta o prato-título, fui transportado para quando tinha oito anos de idade e brincava com aqueles recortes de papel como se fossem os bonequinhos de verdade. Dane-se proporção ou perspectiva!, aqueles recortes, das peças de Playmobil que eu não tinha, eram tão divertidos quando as peças reais que possuía, para dizer o mínimo!

Fui uma criança muito feliz. De jeito algum tive todos os brinquedos que queria (que criança tem?), mas tive muitos brinquedos, de caríssimos a extremamente vagabundos, e parece que isso não fazia diferença. Com nove anos eu tinha um Volanter dos Comandos em Ação repetido, mas um deles foi clone maligno feito pelo Dr. Mindbender apenas umas duas vezes — depois disso ele era um personagem completamente diferente (ser igualzinho ao «verdadeiro» Volanter era só um detalhe). Na minha cabeça, as batalhas entre Cobra e G.I. Joe no porão de casa eram épicas — o futuro do planeta estava sempre em jogo! Mas aparentemente eu não tinha preferência pelos brinquedos caros e bem-feitos: de acordo com minha mãe, eu amava de paixão aqueles carrinhos de plástico mole, de uma cor só e ocos; passava tantas horas fazendo rally sobre as camas com eles quanto brincando com os bonecos e máquinas dos Thundercats. Aparentemente, para uma criança o preço do brinquedo não entra no orçamento dos efeitos especiais da imaginação.

Duvido que exista um adulto lendo isto que não tenha se identificado imediatamente com o que escrevi. Esta foi sua infância também, não foi? Ilustrações recortadas, soldadinhos de plástico verde da Segunda Guerra Mundial, janelas que eram precipícios do Himalaia e vasos de plantas que eram selvas venusianas. Então, por que hoje, adulto e diplomado, você reclama com seu Dungeon Master que o combate fica menos crível quando ele monta os dungeon tiles e coloca as miniaturas em cima da mesa?

Uma criança de oito anos consegue fazer que você não consegue? Sério?

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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