Neste pequeno artigo eu aglutino os usos mais comuns de um dos elementos mais familiares da ficção científica: a avançadíssima tecnologia perdida séculos ou milênios atrás, o único traço restante Daqueles Que Vieram Antes de Nós — uma raça alienígena há muito extinta ou uma porção inteira da história humana que não sabíamos que existia. Estou falando de um clichê familiarmente conhecido como Os Antigos.

Obsolescência programada não existia no tempo dOs Antigos. Milhares de anos depois, os heróis (ou vilões) da ficção científica conseguem achar equipamentos, armas ou complexos inteiros funcionando perfeitamente bem. E o mais importante: esses super-cacarecos não precisam de manual de instruções! Os Antigos foram super-gente boa e previram que sua tecnologia iria ser encontrada no futuro distante por gente atrasadinha e fizeram tudo fácil de operar, de entender e até de consertar (ao menos, pelo engenheiro do time de heróis). E se por um acaso a linguagem dos antigos não é suspeitosamente parecida com o inglês, não tem problema: ali por perto os protagonistas da história vão achar algum outro artefato que dá conhecimento automático pra um deles, geralmente um capacete ou um par de óculos que vai automaticamente detectar a mente primitiva carente da informação técnica. Gente fina Os Antigos, hein?

Cuidado com tecnologia mais velha que você, Picard!

Exceto que geralmente (lá pelo livro dois ou no começo do terceiro ato do filme), os heróis descobrem porque Os Antigos não estão mais zanzando por aí: foi justamente sua super-tecnologia fantástica que os destruiu. Aí a salvação da lavoura vira o McGuffin que precisa ser destruído ou enterrado para evitar que o ciclo se repita. A série de livros Shannara de Terry Brooks é do gênero fantasia, mas tecnologia antiga é ocasionalmente encontrada e precisa ser perdida de novo ou o fim do mundo acontece uma segunda vez (ou terceira vez, dependendo de onde você está na cronologia da série). Jornada nas Estrelas tem alguns bons exemplos de tecnologia assim; talvez o mais icônico seja os Iconianos (ra-rá!) e sua tecnologia de teleporte instantâneo, que inevitavelmente precisa ser destruída pela Enterprise ou pela Defiant para que não caia na mão dos Romulanos ou dos Jem’Hadar. Outra menção que eu não posso deixar de fazer é a raça dos Caretakers de Voyager e sua tecnologia de cem mil anos de idade. Que bom que os engenheiros da Frota Estelar conseguem consertar tudo, até mesmo tecnologia perdida do tempo em que o Sahara era uma floresta tropical!

Ringworld/Halo

Ringworld de Larry Niven é um dos poucos exemplos de tecnologia perdida vista de fora: os artefatos fantásticos do ringworld não são entendidos pela população atual do lugar, e o ringworld está lentamente estragando porque ninguém sabe mais como usar ou reparar a tecnologia antiga — aí entram nossos heróis que, vindos de uma civilização galáctica que não sofreu nenhum cataclisma (ainda), têm o conhecimento necessário para atrasar a destruição do ringworld — ao menos por tempo o suficiente para eles darem o fora de lá.

As séries de TV Stargate merecem menção especial por terem dois níveis de tecnologia perdida: primeiro a super-tecnologia dos Goa’uld e dos Tok’ra do tempo dos egípcios antigos e a super-duper-tecnologia mais antiga ainda dos Ori e Antigos (eles são literalmente chamados Os Antigos em Stargate SG-1 e Stargate: Atlantis).

Ah é, não dá pra esquecer que Quanto Mais Velho, Melhor. Isso é muito comum em fantasia, mas dá pra achar vários exemplos em ficção científica desse clichê: Os Thundercats freqüentemente encontravam artefatos bem úteis deixados para trás por qualquer que fosse a civilização que habitou o Terceiro Mundo milênios atrás. Tecnologia Protean em Mass Effect guarda segredos que fazem a tecnologia deles parecerem mágica. O mesmo vale pra série Halo, com o adicional que a tecnologia dos Forerunners é tratada com devoção religiosa pelo Covenant, e aí boa parte do enredo de alguns dos jogos envolve justamente os aliens querendo matar os humanos sujos que ousaram por a mão na tecnologia dOs Antigos — a desculpa que precisamos pra meter tiro neles. 

Fading Suns: tecnologia antiga, mágica, demônios, psiquismo…

Também tem um subgrupo de tecnologia dOs Antigos que remete a tecnologia nativa que é simplesmente defasada para os padrões da história, mas perfeita pra derrotar A Grande Ameaça — ou, ao menos, manter a humanidade lutando e evitar a derrota por uma trilogia inteira de livros ou filmes. Na série reimaginada Battlestar Galactica, nossos heróis só sobrevivem ao ataque dos Cylons porque a Galactica e seus caças são velhos e, portanto, imunes ao ciberataque dos Cylons. Pacific Rim também usa esse clichê de forma super-desastrada quando o Yeager dos protagonistas, que é “analógico”, acaba sendo melhor que os Yeagers mais novos e “digitais” (certamente os roteiristas do filme não cursaram nenhum curso de exatas na faculdade; maldito povo de humanas). Nos videogames e RPGs da série BattleTech é a mesma coisa: a guerra sem fim foi matando quem sabia fazer boa tecnologia e destruindo as fábricas e centros de conhecimento, por isso equipamento e Mechas da era da Star League de 300 anos no passado de onde a maior parte das histórias se passa são muito melhores que a tecnologia atual — e tratados como grandes achados. O mesmo vale pra civilização humana na galáxia do RPG Fading Suns, exceto que nesse cenário caímos no mesmo problema da tecnologia antiga como heresia de Halo: a Igreja em Fading Suns considera pecado mortal usar ou pesquisar a tecnologia dOs Antigos, tecnologia essa que ironicamente pode ser a solução para os sóis se apagando no universo — talvez.

E assim o clichê se reinventa. Não tem nada de errado com ele! Eu mesmo dou automaticamente alguns pontos para o livro, filme, série de TV ou videogame que incorpora O Grande Mistério dOs Antigos à narrativa. Todo mundo adora um bom mistério.