(Ou: RPG tem que ser divertido, não difícil)

A primeira coisa que um jogador de RPG que acabou de conhecer o jogo faz é rolar dados. Adoramos atacar monstros, passar despercebidos por guardas, controlar naves espaciais e disparar uma saraivada (de flechas, balas ou laseres) nos vilões — e acertar.

Um tempo depois só o combate não basta. É quando começamos a criar personagens diferentes, às vezes até desafiadores, e procuramos por sistemas que favoreçam a interpretação; e vamos ficando cada vez mais dramáticos e forçosos em nossas escolhas interpretativas, passamos a procurar por sistemas com cada vez menos regras (porque elas atrapalham o interpretar, e regra é coisa de principiante) e, em certo ponto, chegamos mesmo a conjecturar sobre jogar RPG sem sistema algum.

Meu personagem é um klingon, não eu!  (© 2007 Brett Weinstein, Wikimedia Commons)

Meu personagem é um klingon, não eu! (© 2007 Brett Weinstein, Wikimedia Commons)

Aí, todos nós, mais dia menos dia, chegamos à conclusão de que RPG é um jogo, não um curso de teatro amador. Todo aquele papo de que o RPG estimula a criatividade, a socialização, faz bem às crianças, é um jogo saudável, bom para a mente… é conversa fiada, papo-furado para enrolarmos nossos pais e professores e tentarmos dissuadi-los de suas opiniões negativas quanto ao jogo que tira seus meninos dos campinhos de futebol. Se é tudo verdade ou não, não interessa para este texto.

O caso é que depois de aspirar a alturas “shakespearianas”, eventualmente nos damos conta que o RPG é um passatempo como qualquer outro. Toda e qualquer carga dramática, rigor interpretativo ou inteligência lúdica não passa de frescura.

Se eu sou naturalmente eloquente e de índole pacífica pode ser bem difícil para mim interpretar um bárbaro meio-orc, um pistoleiro fora-da-lei ou um guerreiro klingon. Mas pode ser bem divertido jogar com um personagem agressivo e de poucas palavras, se eu assim decidir; então por que eu preciso sofrer para tentar interpretar perfeitamente um modus operandi que me é totalmente estranho? RPG tem que ser divertido, não difícil. Logo, um bom RPG é aquele que me providencia mecânicas que me ajudem a interpretar o que quer que eu queira interpretar. No caso de eu ter escolhido jogar com um klingon, é chato ter que ficar me lembrando o tempo todo como um klingon age, ou melhor, ficar tentando adivinhar o que eu, enquanto klingon, deveria fazer e não fazer, baseado só na interpretação. Se, ao contrário, o jogo me providenciar uma mecânica para isso, eu terei muito menos trabalho tentando interpretar um klingon e terei muito mais tempo para jogar com um. Exemplificando: se eu tenho na minha ficha a desvantagem “pavio curto” que me pede para rolar contra INT para não resolver tudo no braço, o atributo “ofende-se facilmente” que me dá -2 em rolagens de “pavio curto”, e o sistema só me permite rolar contra INT para me acalmar duas vezes por sessão de jogo, está tudo pronto! Eu posso jogar a noite toda, me divertir bastante sendo um klingon de cabeça-quente e, quando surgir alguma dúvida de como eu deveria me comportar — bum! — entram as mecânicas, para eu não ter que me preocupar com isso.

RPG não é teatrinho (© 2006 Marília Almeida, Flickr)

RPG não é teatrinho (© 2006 Marília Almeida, Flickr)

Ao fim e ao cabo, interpretar, incorporar um personagem, explorar as dimensões dramáticas da psique humana, pode ser muito legal… desde que não fique no caminho de uma noite divertida. E a melhor maneira de evitar isso é se o sistema escolhido tiver mecânicas consistentes para isso. A moda do RPG dramático e sem regras já passou — porque era mesmo só uma moda, uma pela qual todo jogador de RPG precisa passar na sua vida para poder entender que um jogo sem regras é trabalhoso e nem um pouco divertido.

E RPG tem que ser divertido, não difícil.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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