Armas e armaduras: inspiração no real

Armas e armaduras: inspiração no real

Pertencente ao Rei Henrique VIII esse elmo é um bom exemplo do tipo de visual incomum que muitas vezes se buscava, não pela beleza, mas para mostrar a habilidade do artesão e a riqueza do dono da armadura

Normalmente quando jogamos uma mesa de RPG de fantasia medieval nos deparamos com as mais diversas espécies de armaduras e armas atribuídas ao período. Algumas vão do mais puro senso comum até o mais ridículo absurdo como, por exemplo, o famoso machado orc duplo de D&D, porém numa primeira avaliação que diferença faz se uma arma ou armadura de um simples jogo é ou não factível, no sentido literal da palavra, o de poder ser construída? Na verdade numa avaliação mais superficial a resposta seria nada, porém para aqueles que gostam de levar seu jogo um patamar acima se basear no que é real pode ser uma agradável surpresa (note bem que uso basear-se, não imitar) o poder da obra de Tolkien em parte está no longo processo de fazer seu mundo parecer real, através de línguas, povos, hábitos — e por que não armaduras? O mesmo, numa escala muito menor, pode ser feito em qualquer mesa ou sessão, e partindo do pressuposto que seus aventureiros se meterão em encrenca e provavelmente mais de uma vez terão que resolver as coisas pelo meio da força, as armas e armaduras representam um uma importante parte nessa história.

Nesse momento deve haver uma grande quantidade de jogadores e mestres torcendo o nariz e fazendo bico para tal observação, afinal estamos acostumados à estética que nos é oferecida pelos jogos e achamos que qualquer coisa muito fora disso acaba por tirar a graça do jogo, nessa hora é onde gostaria de mostrar alguns exemplos que podemos classificar como sendo (pelo senso comum) bizarras.

Antes, um pouco de história…

Um exemplo clássico de uma armadura milanesa

No século XII a Europa passou por uma “revolução industrial” impulsionada pelo desenvolvimento dos moinhos de água que, apesar de serem conhecidos desde a antigüidade, foram aprimorados durante este período, e das fornalhas de fundição, o que permitiu uma “automatização” dos processos que eram usados para produzir as chapas metálicas, martelos, foles e outras ferramentas ganharam versões mais potentes movidas à água. Isso barateou, melhorou a qualidade e aumentou a disponibilidade do aço; com mais metal à mão, os armeiros puderam se dar ao luxo de criarem armaduras cada vez mais complexas, substituindo grandes áreas da proteção pela malha de aço (muito mais antiga, diga-se de passagem — alguns creditam sua invenção aos celtas) ou das placas de metal menores unidas por coberturas de couro, como no caso das cotas de placas. Essas melhoras também afetaram as técnicas de produção das armaduras, de forma que as placas ficaram mais finas, porém mais resistentes, através de processos tanto mecânicos (os flutings, por exemplo) quanto físicos (como a têmpera). Às partir do séc. XIV as armaduras começaram a entrar em seu período de apogeu, as mudanças técnicas deram um novo vigor aos armeiros e suas criações, de forma que as armaduras puderam ser vistas no campo de batalha pelo menos até o século XVI, quando as novas armas de fogo, mais eficientes que suas predecessoras em termos de capacidade ao perfurar as placas, tornaram o uso de armaduras obsoleto devido ao peso e falta de mobilidade em relação à proteção oferecida fazendo com que as mesmas caíssem então lentamente em desuso, tendo no final se tornado apenas um símbolo de riqueza e poder para os seus portadores, que apenas usavam armaduras em paradas.

Técnica mecânica de endurecimento da peça o "fluting", foi muito usado no gótico e no maximiliano e consiste em criar vária linhas onde o material é forçado e endurecido pelo constante martelar

Todas essas mudanças nas armaduras acabaram a gerar uma reação nas armas; ofensivamente os guerreiros precisavam de armas capazes de vencer as novas proteções que estavam se difundindo, estas mudanças foram tanto estruturais como, por exemplo, as espadas tenderam a se tornar mais estreitas na largura e mais espessas no centro (chamado ridge, em inglês) para que pudessem se opor às placas; As maças e machados se tornaram mais comuns quando o assunto é a adoção de novas armas, criadas para se oporem de diversas formas às armaduras. Outra solução adotada foi o da combinação de armas de fogo com outros tipos de armas brancas, como as armas de fogo só possuíam um disparo, tendo então que serem recarregadas, um processo lento e desajeitado, ainda mais para um homem protegido por uma armadura, combiná-las com armas brancas “tradicionais” dava uma vantagem para seu portador, que não ficava indefeso após o disparo, podendo assim esperar um momento mais apropriado para fazer a recarga, tornando a arma de fogo apenas uma arma secundária, menos importante do que a arma branca a qual estava acoplada.

Voltando para o RPG…

A maioria dos mundos de fantasia se coloca mais ou menos no equivalente à nossa baixa Idade Média, mantendo-se é claro as devidas proporções, e em alguns caso avançando Renascença adentro. O período perfeito para podermos abusar de referências reais do período ou de períodos próximos. Bem, vamos a alguns exemplos interessantes:

Armaduras góticas e milanesas

Considerada um dos melhores exemplos do gótico tardio a armadura de Sigmund Von Tyrol é uma ótima base para a criação da armadura do seu vilão

Apesar de serem um pouco mais conhecidas o visual tradicional de uma armadura gótica, sobretudo do gótico tardio (finais do século XV) ou mesmo das armaduras milanesas pode dar aquela incrementada no visual – pessoalmente sempre acho que as armaduras góticas têm um ar de vilão. Fora isso existem diversos exemplos de elmos do tipo sallet (o elmo tradicional do estilo gótico) com formas bastante peculiares, para não dizer bizarras.

Armaduras maximilianas

Essas armaduras, cujo estilo se desenvolveu no século XVI na Alemanha, podem ser consideradas “descendentes” do estilo gótico, já que alguns dos elementos deste estilo mais antigo se mantiveram. As principais diferenças dizem respeito ao visual geral da armadura, enquanto o gótico parece mais afilado, mais estreito, alto e pontiagudo, o maximiliano tem formas muito mais arredondadas, o que para mim ressalta uma idéia de força bruta. Sempre acabo imaginando o dono da armadura como alguém brutalmente forte e grande. Fora isso, o que realmente é o mais interessante, à época parece que se havia uma predileção por elmos com detalhes bizarros, como o exemplo que abriu a postagem e o que se encontra ao lado.

Outras inspirações de armaduras

Uma réplica de uma armadura dos hussardos poloneses

Não faltam possíveis inspirações quando olhamos em volta, ainda na Europa, mas um pouco mais para frente no tempo um dos modelos de armadura que eu acho mais interessante é o dos Hussardos Poloneses, conhecidos como a cavalaria alada — suas armaduras se diferenciavam de qualquer coisa comum à época pela presença de duas armações enormes de madeira recobertas com penas à semelhança de duas asas abertas. Aparentemente estas penas eram sempre de águia, mas tenho lá minhas dúvidas quanto à informação, apesar de só isso poder inspirar algo numa aventura, como o jovem cavaleiro ter de ir em buscar as penas certas para compor suas asas. As armaduras dos piqueiros alemães do século XVII, conhecidos como landsknecht, também podem ser uma inspiração válida, pelas combinações de cores (sempre branco e preto, mas com padrões mais ou menos complexos de acordo com a hierarquia do soldado) quanto pela sua própria forma (com chapas mais grossas no peito, para agüentarem os disparos das armas de fogo, e em geral se nenhuma espécie de proteção nas canelas e pés, menos visados num combate à pé).

E o machado orc duplo?

Um exemplo de espada e pistola

Outro bom exemplo do gosto pelo bizarro é esse elmo, também pertencente a Henrique VIII, conhecido como "The horned helmet"

Não faltam armas na Idade Média que extrapolam o senso comum que temos, daquela desenvolvidas para se oporem às novas tecnologias usadas nas armaduras, como o bec du corbin e o poleaxe (também chamado em português de acha d’armas) que era  tão popular que ganhou até um manual exclusivo, falando do seu uso (vale esclarecer que “manuais” eram livros sobre técnicas de combate, normalmente escritos por mestres importantes durante o fim da Idade Média e Renascença; geralmente esses manuscritos dedicavam-se muito mais às artes tidas como mais nobres, como a espada, a adaga e a luta corpo-a-corpo). Mas podemos ir além nas armas bizarras: um desses ramos são as armas baseadas em ferramentas agrícolas modificadas, normalmente usadas por soldados de origem camponesa. Entre elas temos o podão de guerra, o forcado de guerra e o mangual (originalmente desenvolvido à partir da ferramenta usada para bater os grãos de trigo). Uma das minhas preferidas dentre esse ramo é chamada de guttentag (“bom dia” em holandês — os medievais tinham um estranho senso de humor) que basicamente se resumia a uma longa haste de madeira,que ficava mais grossa e pesada na ponta recoberta com ferro, de onde se projetava um grande espigão também de ferro, uma arma barata de ser construída, simples de ser usada e capaz de arrebentar a maioria das armaduras do período. Num cenário onde a pólvora esteja disponível, ou outros elementos que tenham efeito semelhante, as armas que combinam poder de fogo com seu uso comum podem ser uma ótima idéia, dependendo do cenário até versões mais elaboradas destas, com cargas mágicas (bolas de fogo, relâmpagos, etc) ou com cargas múltiplas (não recomendo que sejam muitas cargas, afinal ainda é fantasia, uma machado-metralhadora é muito “munchkin”, mas vai detonar a graça do cenário) podem realmente surpreender seus jogadores. Outro detalhe importante quanto a estas armas combinadas é que seu projétil deve ter algum caráter de imprevisibilidade que extrapole as habilidades do dono da arma, de forma que nem sempre ele acerte, já que estas armas provavelmente terão danos bem consideráveis.

uma taiaha maori

Mas e quando queremos representar culturas presentes no cenário que não se encaixam no medieval? Não faltam influências que podem ser aproveitadas numa mesa, vindas das mais diversas culturas, povos e períodos, por exemplo, podemos usar como influência para um povo com baixo nível técnico (que não conheça a fundição ou a forja de metais duros) às armas dos povos maori, pré-colombianos ou até egípcios e gregos dos períodos mais antigos. Um grupo de bárbaros, sejam eles humanos ou não, poderiam ter seu equipamento bélico baseado nos visuais das culturas célticas do período La-Tene, escandinavas do período Transicional ou saxãs do período subsequente à invasão da Bretanha, ou quem sabe uma mistura disso tudo? É claro que isso vai depender da imaginação do DM e de um pouco de pesquisa, mas hoje em dia com a disponibilidade da internet essa parte ficou bem mais fácil.

Como disse no começo do artigo, o poder de contar histórias se encontra em saber usar as referências e influências que estão à nossa volta. Não hesite em misturar e criar a partir do que você acha pertinente, interessante ou exótico o suficiente para valer a pena ser incluso em seu cenário — e com certeza algo único e bem diferente irá se construir durante as sessões de jogo.

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3 Responsesto “Armas e armaduras: inspiração no real”

  1. Arquimago disse:

    Pesquisa histórica muito bem feita, e boas considerações sobre o \RPG, fazia tempo que não lia um artigo assim, para ser guardado!

    Parabéns!

  2. Marcelo Dior disse:

    Velhas enciclopédias e seus capítulos sobre guerras medievais são ótimas fontes de armas e armaduras verdadeiramente exóticas. Faz tempo que eu não usava essas coisas em meus jogos. Achamos que aquelas armaduras à lá anime do Wayne Reynolds são esquisitas, mas uma típica máscara-elmo saxã dá de dez a zero!

  3. Danielfo disse:

    Fazia tento que tentava encontrar esse helmo de chifres. Vi num documentário ele, junto com a armadura completa. Era um fantástico exemplo de armadura completa ornamentada.

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