Homens de fé

Quando pensamos em mundos de fantasia medieval, fora a magia propriamente dita, o elemento da fé e dos milagres por ela operada são sempre muito importantes para o andamento das aventuras, afinal cabe justamente aos personagens clérigos o poder de curar e auxiliar seus companheiros. Porém, normalmente quando temos um personagem que de alguma forma possui tais habilidades, é comum o jogador esquecer que suas incríveis habilidades provêm de uma fé inabalável, calcada em anos de estudo, oração e dedicação à sua religião, igreja e deus ou deuses. Sendo este um personagem com muita fé, é certo que ele segue os preceitos de sua religião de uma forma bem consistente, e como na maioria dos mundos onde os milagres operados pela fé são constantes (as magias de fé dos mundos de high magic) nós podemos considerar que os deuses que permitem tais milagres estão bem próximos, ao ponto de poderem auxiliar diretamente aos pedidos de seus seguidores, o que significa que este nunca irá questionar os ensinamentos que recebeu.  Essa afirmação lança uma luz diferente sobre o clericato e a religião. Porém, antes de desenvolver esse tema, eu gostaria de falar um pouco sobre os personagens que têm suas histórias ligadas à fé: o clérigo, o paladino e por que não, o monge.

O clérigo

A palavra clérigo define toda e qualquer pessoa que tenha tomado os votos de uma ordem eclesiástica, seja ela qual for, a palavra vem do latim e isso explica, pelo menos em parte, o porque nossa primeira reação ao pensarmos num clérigo é pensarmos em um padre católico. Mas um monge chinês taoísta, um pastor evangélico ou o próprio papa são todos em sua essência, clérigos. Dentro do RPG o clérigo é por definição um personagem que encarna as características do que nós normalmente chamamos de baixo clero, quando nos referimos à Igreja Católica, ou seja os padres, mas esses personagens podem ter sua inspiração proveniente de outros tipos de homens de fé, que dediquem sua vida a manutenção de suas crenças e que sobretudo estejam diretamente em contato com o mundo laico ao seu redor. O clérigo não obrigatoriamente precisa ser um doutor na fé, mas dependendo das características do cenário em questão um personagem clérigo que possua profundos conhecimentos religiosos, sendo mais um “teólogo” que um “padre” pode vir a ser um personagem mais interessante, com um background mais complexo e denso.

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© 2014 Jian Guo

O paladino

A palavra paladino originalmente surgiu na canção de gesta chamada de “A canção de Rolando” e se referia aos doze cavaleiros que eram a nata da aristocracia franca, conhecidos como os pares de França, e que acompanhavam o rei Carlos Magno em suas batalhas, sendo que nesta canção os feitos de Rolando, um destes cavaleiros míticos, é exaltado por sua coragem, fé inabalável e lealdade. Os paladinos entraram para a cultura do RPG quando essa idéia de um cavaleiro justo e honrado acabou por se mesclar com a imagem do monge-soldado das ordens guerreiras, como os templários, hospitalários, teutônicos, sendo que essa imagem acabou por suplantar praticamente qualquer resquício dessa origem mais antiga. O paladino, portanto, tem muito mais ligação com a figura do monge guerreiro, um homem de fé inabalável que se joga na batalha com o mesmo entusiasmo que levanta cedo para rezar ao seu deus/deuses. Esse personagem não obrigatoriamente precisa ser um grande conhecedor a fé, apenas precisa estar disposto a seguir as ordens do templo com o mesmo entusiasmo, sejam elas ajudar os pobres ou entrar numa batalha em nome de sua fé.

O monge

O termo monge se refere, em primeira instância, a qualquer asceta que escolha viver afastado da vida mundana, em contemplação e prece. Originalmente a palavra era usada para se referir a pessoas ou pequenos grupos no inicio da era cristã que optaram por uma vida longe da sociedade romana; esses homens costumavam se esconder no deserto ou em cavernas, em busca de um retiro solitário que os levaria a alcançar uma vida mais contemplativa. Com o tempo esses homens descobriram que era mais seguro, fácil e surpreendentemente melhor, quando estes se juntavam em um mesmo lugar e seguindo uma regra (um código de conduta eclesiástico) cooperavam para viverem afastados do mundo. Com o tempo a palavra monge passou a se referir a qualquer grupo de ascetas e em algum momento, através do RPG novamente, nossa imagem do monge acabou caindo no oriental de cabeça raspada que usa cores espalhafatosas e luta kung fu. Em comum todos os monges, ocidentais ou orientais, têm a escolha de uma vida regrada, dedicada à fé e geralmente afastada dos centros de população, seja no alto de uma montanha, numa floresta densa ou apenas numa construção murada e isolada dos arredores.

Xamãs, Druidas e outros tipos de clérigos

Existem, ainda, aqueles grupos de pessoas que possuem uma relação especial com as divindades, mas que não são exatamente clérigos como normalmente imaginamos. Este é o caso dos xamãs, druidas e witch doctors, em culturas com religiões onde não existe uma “igreja” instituída. Esses personagens não deixam de ser, em algum grau, também clérigos, porém diferentemente dos demais exemplos que foram citados acima muito do que os define vai além da parte puramente espiritual. Os druidas, por exemplo, eram também legisladores e conselheiros dentro da sociedade celta, e muitos xamãs desempenham funções de curandeiros ou outras atividades tidas como mágicas dentro de suas sociedades, com especial ênfase em atividades ligadas ao trabalho com metais (sobretudo o ferro) e normalmente suas relações com divindades e espíritos são muito mais diretas do que nos demais casos. Outra característica e que nem sempre esses “clérigos naturais” possuem um treinamento formal, por exemplo na cultura dos antigos húngaros (magiares) os xamãs já nasciam sabendo tudo o que precisavam para se comunicar com os espíritos. É claro que isso varia de cultura para cultura. Os druidas estão justamente no outro lado desta equação, sendo que sua formação passava por um treinamento tão extenso e rigoroso, ou talvez mais, quanto o de um padre.

Fé, clericato e religião

Imaginemos um mundo onde realmente ocorram “milagres” com a frequência dos operados numa aventura dentro da maioria dos cenários de fantasia medieval, qualquer clérigo de um templo menor já ressuscitou meia dúzia de pessoas, e nas cidades maiores devem haver templos que já operaram mais milagres que todos os santos do mundo real juntos nos últimos mil anos. Com demonstrações tão sólidas do poder dos deuses é certo que as Igrejas constituídas seriam muito poderosas, as heresias seriam muito mais incomuns e, por mais estanho que possa parecer, as religiões tenderiam a viver em uma ordem mais pacífica entre si, afinal existem provas de que todos os deuses existem, certo?

E é ai justamente que, na minha opinião, entram alguns poréns que podem ser usados de forma a dar um tempero diferente ao cenário, tudo dependendo de qual abordagem for escolhida pelos jogadores e pelo narrador.

 Os deuses existem e estão mais perto do que imaginamos

Adequada a cenários de high magic ou a campanhas de tom épico nesse tipo de história os deuses além de vivos estão presentes e interferem constantemente no destinos dos humanos moldando a realidade a sua volta de acordo com os seus desígnios. Nesse tipo de campanha, nada impediria os personagens terem ligações diretas com as divindades, sendo estes seus parentes, tutores ou apenas mostrando um especial apreço pelos mesmos, considerando os personagens como seus protegidos. Fora isso não é impossível aos jogadores se encontrarem com os deuses acidentalmente ou de propósito; talvez eles cruzem com um velho grisalho e sem um olho pelas estradas, ou talvez Zeus corteje abertamente a elfa do grupo. O importante é que os jogadores saibam que os deuses estão próximos. A presença tão clara dos deuses provavelmente evitaria a existência de “clérigos caídos” — afinal, sendo os deuses oniscientes, provavelmente cuidariam eles próprios de se livrarem da maçã podre antes que ela estragasse o resto do cesto. Em contrapartida, a divindades malignas seriam claramente mais poderosas, e provavelmente a guerra entre estas seria muito mais aberta do que na maioria dos cenários. Ambos os lados teriam as mesmas armas para convencer novos fiéis, assim como para lutar entre si, o que reduziria a grande maioria dos jogadores a simples marionetes, pelo menos até que estes alcançassem eles mesmos o patamar de deuses ou pelo menos de semi-divindades.

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© 2014 Jian Guo

Os deuses existem, mas são distantes

Adequado para a maioria dos cenários low magic, nesse tipo de ambientação, apesar da existência dos deuses ser confirmada, sua presença no mundo físico é muito menos sentida pelos personagens. Pequenos milagres podem ser operados esparsamente, mas raramente eles serão tão “espalhafatosos” quanto um milagre operado num cenário high magic, de forma que nunca fique muito claro se o que aconteceu foi ou não um milagre. Por exemplo, o clérigo até pode ressuscitar um membro do grupo que foi enforcado mas seria incapaz de fazer o mesmo com um decapitado (aí surgiria a dúvida: será que realmente o primeiro personagem estava morto ou apenas inconsciente?), ou talvez apesar de evitar que o personagem morra de ferimentos fatais sofridos durante o combate esse se recuperaria lentamente, e não de uma hora para a outra como num cenário high magic. Em certas ocasiões, os deuses até podem interferir na história, mas devido a algum motivo, que pode caber ao próprio narrador escolher, essa interferência nunca pode ser direta. Zeus não poderia chegar lançando raios sobre os inimigos do grupo, mas talvez eles pudessem ser ajudados a encontrar aquele item mágico fundamental pela profetisa de Apolo ou talvez pudessem encontrar Morrigan lavando as mortalhas de seus adversários na beira do rio antes do dia daquela batalha decisiva, mostrando que a deusa estava a seu lado. As igrejas e sacerdotes provavelmente serão ainda fortes e suas crenças serão bem sólidas, mas já existe a possibilidade de que hajam “maçãs podres” escondidas em seu interior, assim como “heresias” e grupos que pensem diferentemente da ortodoxia religiosa vigente.

Os deuses existem, mas não se importam com os mortais

Nessa situação, as divindades se encontram tão distantes do mundo mortal que qualquer prova de sua existência pode ser refutada com algum pensamento lógico, e caso o cenário comporte magia, algumas demonstrações destas pelas pessoas corretas. As igrejas provavelmente brigarão constantemente e volta e meia aparecerão “profetas” e “santos” se professando os verdadeiros vasos da única fé, já que a tolerância entre religiões tenderá a ser muito menor do que o normal em outro cenários. As heresias serão mais constantes e com certeza haverão pessoas inescrupulosas ligadas as próprias igrejas, que talvez até alcancem posições de destaque juntamente a estas.

Os deuses não existem

Nessa situação, não existe qualquer possibilidade de intervenção divina. Note que a inexistência de divindades não impede que outros conceitos, como a alma, possam existir, mas a existência dos deuses não pode ser provada de forma nenhuma, e o que sustenta o culto a essa ou aquela divindade é simplesmente a fé das pessoas que nela acreditam. Sem dúvida, neste tipo de cenário os embates entre igrejas e cultos diversos serão comuns, assim como a presença de pessoas cujos interesses pessoais não obrigatoriamente são iguais ou pelo menos semelhantes aos professados nos cânones de sua religião, podem ser muito comuns. Provavelmente clérigos de divindades “más” serão menos comuns já que estas pessoas poderão se associar a igrejas e assim obterem o mesmo tipo de poder que obteriam em um cenário onde os deuses são mais presentes e as divindades malignas distribuem poderes a seus adoradores.

Partindo de qualquer uma dessas situações, podemos ter abordagens bem diferentes quanto a fé. Antes porém, precisamos definir o que é fé. Segundo o dicionário, fé é: crença, crédito, convicção de algum fato ou da veracidade de uma asserção. Em outras palavras, é acreditar em algo que nem sempre pode ser provado ou verificado de alguma maneira. Desta forma, creio que é muito mais interessante sempre interpretarmos a fé de um determinado personagem de acordo com as determinações que demos para o cenário, por exemplo eu acredito que há uma tendência muito maior aos personagens terem muito mais fé em cenários onde não se tenham provas concretas ou até mesmo que não se tenham nenhuma prova sobre a existência de uma ou de todas as divindades, enquanto que cenários onde a intervenção divina é clara e direta a tendência é que os personagens tenham respeito, medo, admiração ou qualquer outro sentimento, mas é bem pouco provável que esse sentimento seja definido como fé, afinal os personagens sabem com certeza da existência dos deuses e de sua ação direta no plano material. Num mundo onde a presença divina seja tão forte, a fé daria lugar a debates filosóficos e/ou teóricos mas não haveriam dúvidas, logo a fé perde seu espaço em prol de outros tipos de relacionamento com forças maiores.

O clericato, portanto, estaria em muitos aspectos ligados com a forma como a fé está presente. Num mundo de presença forte de deuses, o clericato seria muito mais um grupo de filósofos e estudiosos do que realmente defensores teológicos da fé. Em cenários com menor presença divina, provavelmente o clericato poderia ser mais parecido com o que estamos mais acostumados ou serem até donos de crenças mais arraigadas com combates diretos entre opiniões divergentes (heresias).

Amarrando tudo e levando para a mesa de jogo.

Em qualquer cenário um ponto importante a ser levantado é o fato de que o clericato normalmente está fortemente relacionado a um certo status. Tanto o padre de uma paróquia, seja ela moderna ou medieval, quanto o monge chinês que vivem em uma montanha são identificados como pessoas que escolheram dedicar sua vida à fé e aos diversos aspectos da religião e, portanto, costumam ser respeitados e até temidos. Em qualquer tipo de cenário, não poderíamos negar a importância desses personagens em seu próprio meio social, e o narrador deve estar pronto para adequar a forma como estes personagens são vistos por sua sociedade e pelas demais de acordo com o background oferecido. Os personagens, tanto dos jogadores quanto do narrador,  também devem estar prontos a se adequarem às propostas do jogo. Ser um clérigo maquiavélico e sem muitos escrúpulos funcionaria excelentemente bem em cenários onde os deuses não são facilmente acessados, mas pareceria estranho num cenário onde os deuses estão continuamente próximos a seus fiéis — não que esta proposta não possa ser usada em hipótese nenhuma, inclusive tal exemplo poderia ser usado no sentido inverso a introdução de um personagem como este serviria excelentemente bem para um plot twist, mas dependeria de uma trama extremamente bem elaborada.

Por fim, creio que o ponto mais importante é entender que clérigos não são apenas mais um tipo de usuário de magia, nem simplesmente “curas ambulantes”. Eles são pessoas profundamente espiritualizadas, donas de um forte senso justiça e de honra de acordo com seus preceitos religiosos e que podem enriquecer o grupo tanto como ponto de discórdia, sobretudo se o clérigo estiver sozinho em suas convicções, quanto como ponto focal para as necessidades do grupo. O clérigo pode facilmente ocupar diversas funções dentro do grupo e é esta, sem dúvida, a sua maior qualidade.

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