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Copyright 2009 flickr por “Criss!”

Sábado, por volta das seis da tarde. Depois de toda uma semana de trabalho, um joguinho de RPG tinha vindo a calhar para descansar a cabeça. Já estávamos na nossa quinta hora de jogo. A comida estava acabando, o refrigerante também, e enfrentávamos um grupo de dríades e súcubos. Parecia que a partida ia demorar mais algumas horas. Mas ninguém estava ligando pra isso. O mestre era cativante, e o enredo estava ótimo. Era um das melhores partidas que já havia jogado. Era. Até eu ir ao banheiro, dar aquela “aliviada”. Uma pequena pausa no jogo e lá fui eu. Necessidades feitas, voltei a caminho da mesa na sala do apartamento, porém não sentei. Meu celular tocou. Uma olhada rápida nele, para ver se era importante. “Quem que quer falar comigo, justo agora?”, pensei com meus botões. A tela do aparelhinho, piscando colorida no ritmo do tema de “Star Wars”, mostrava um nome: Luísa. Atendi:

— Oi, amor! Tudo bem?

— …

— Eu também tava com saudades…

— …

— Se eu me esqueci do aniversário da Marta? Claro que não. Você quer que eu passe ai que horas para te pegar? As oito, oito e meia?

— …

— O que eu tô fazendo? Nada de muito interessante.

Os caras ao fundo estavam conversando alto, falando sobre a aventura. Acredito que ela podia ouvi-los.

— …

— Nada. É só uma partida de RPG na casa do Canjica. Nada de mais.

— Quem que é no telefone, Beto? Para de enrolar e volta logo pra cá!

Essa última voz era da Renata, que estava jogando na mesa. Sim, havia uma mulher na mesa e ela estava ficando impaciente. Se ela era bonita? Hum… Ela era a típica garota dos cursos de engenharia na faculdade: se elevar ao quadrado e somar com outra do mesmo curso, não dá uma. Enfim. Foi uma piada bem ruim essa, mas dá pra ter uma idéia do “naipe” da menina.

— …

— Não amor, não é o que você tá pensando! É só a Renata.

— Renata! Quem é Renata?

Essa última, todo mundo na mesa conseguiu ouvir, e eu quase fiquei surdo. Ela precisava ter gritado?

— É só uma amiga que ta jogando junto com a gente. Não precisa ficar preocupada.

— …

— Não, eu não tô te traindo.

Nisso, o pessoal já estava meio puto comigo. Como eu tinha a audácia de parar uma aventura daquela para discutir com a namorada? Era quase imperdoável. Foi aí que o Gordo resolveu gritar:

— Vai logo com isso! Vai, porque aquela dríade gostosinha tá quase no papo!

— O que você pensa que está fazendo, Alberto, seu filho da p…? Pensa que pode me trair assim? — a Luísa não estava preocupada em poupar meus ouvidos.

— Pera aí, amor. Eu posso explicar. Não é bem assim… — a voz já começava a falhar, e o desespero começava a bater. Eu não estava passando por uma situação dessas.

— Explicar o c… . Não precisa me explicar nada. Aliás, não precisa nem me liga mais. Vai se f… .

— Pera. Não desliga!

De repente, ouvi o som da linha sendo desligada e o típico som do telefone “P… que pariu”, pensei, “Não comigo”.

Voltei desolado para a mesa. Só me restava terminar o que havia começado. Depois, talvez, eu pensasse no que fazer e ligasse para a Luísa para me desculpar. Olhei para o pessoal da mesa e eles me fuzilavam com os olhos. Não importava o que acontecera comigo. Eu havia pedido uma pausa para mijar e havia paralisado o jogo por mais de 30 minutos. De fato, tinha sido imperdoável.

— Vamos acabar essa por…! — era a minha voz que cortava o silêncio — É a vez de quem?

O mestre continuou uma rápida descrição da situação de combate e rolamos a iniciativa. Quando o d20 caiu sobre a mesa mostrando um dezenove, pensei “Ótimo, ou começar e acabar com essas mer…”. Avancei, rolei o ataque e falhei. O contra— ataque da dríade era o próximo. Olhei minha ficha. Pouca vida. Rezei rapidamente. Não poderia acabar assim. O dado rolando sobre a mesa demorava uma eternidade para parar. Enfim parou. Crítico. O mestre engrossou a voz:

— O dano dela é 2d10+5. E vezes três…

Eu tinha nove pontos de vida apenas. E sim, poderia acabar assim.

William Miyazaki gosta de observar a mesa, seus paricipantes, a dinâmica, as idéias, as iditiotices e a grandes consagrações. Por que não dissertar sobre elas, ou inventar histórias malucas? Ou simplesmente deixar o jogo correr e a aventura continuar?

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