O filme Shazam! é estrelado por Zachari Levi, um dos caras mais brancos de Hollywood. Sua contraparte criança também é um ator branquelo. Provavelmente porque o Dwayne Johnson quis tanto interpretar o Black Adam que ele assinou contrato para o segundo filme antes mesmo da Warner/DC sequer ter um roteiro para o primeiro filme. Mas imagine se The Rock tivesse desejado interpretar o Shazam. Como o ator é Maori, naturalmente iriam pegar um menino de semblante escuro para fazer o Billy Batson. E daí?

Bom, ninguém se importa do Shazam ser branco. Qualquer pessoa pode ler seus gibis, ver seus desenhos animados ou seu filmes e se corresponder com o fato de Billy Batson ser um garoto podre e órfão da inner city, de coração bom, que secretamente ganha os poderes de seis figuras mitológicas para defender o planeta dos sete pecados capitais, que criaram suas condições desumanas em primeiro lugar. Não faz a menor diferença se ele é caucasiano, judeu, mameluco, mulato ou cafuso.

Ó não! A cantora adolescente Halle Bailey foi escolhida como a nova Pequena Sereia. Que absurdo! Afinal, todo mundo sabe que sereias, que são reais, não são negras.

Exceto para os racistas. Se a Warner tivesse feito um Shazam Maori, ninguém se importaria. Teríamos ido ver o filme no cinema e sairíamos todos muito felizes com a linda e engraçada história de Shazam! e toparíamos na Internet com o mar de chorume dos racistas de plantão, choramingando que o mundo acabou porque o Shazam não é moreno, que aquilo é uma ofensa e uma violação do que tem de mais sagrado nesse super-herói que nem 10% deles sequer sabiam que existia antes de rolar um race-bending no cinema. Como se a cor da pele do /Shazam fosse essencial pra personagem.

É claro que não é. A essência da personagem é ela ser um menino órfão e puro que vira um mega-super-herói pra defender-nos dos vícios e da corrupção. Com o passar das décadas, escritores de suas histórias acrescentaram ainda mais elementos que se traduzem em Shazam como um arquétipo, ou um símbolo: ele vira um adulto forte, rápido e esperto, mas ainda cheio da inocência infantil; ele tem uma família cheia de meninos adotivos e de vida sofrida como ele que compartilham seu poder (e dividem o poder do mago Shazam entre si, fazendo-o um pouco mais fraco quanto mais membros da família Shazam estiverem transformados no momento). A cor da pele dele não é em absoluto relevante ou parte de sua origem, motivação, essência… como você quiser dizer.

Exceto para os racistas.

Quem se importa com cor da pele? Com gênero? Não nós, feministas e outros tipos de militantes de esquerda. Sinceramente, nenhum dos conservadores que eu conheço também (eu, afinal, só me relaciono com gente inteligente). Gênero, raça e identidade sexual só são importantes pros racistas, machistas, misóginos e homofóbicos. Você ouviu alguém reclamar que a atriz Gal Gadot, que interpreta a Mulher-Maravilha, não é grega como a personagem, mas judia? Não. Porque quando é conveniente pros fascistas, judeus são brancos. Já pensou se a Penélope Cruz tivesse sido escolhida pra ser a Princesa de Themyscira? Corram para as colinas!

E eu fico muito feliz quando os nazistinhas de Facebook dão piti porque o Falcão virou Capitão América ou o último Tocha Humana era preto. É importante para termos mais representação? Claro que é! Mas é mais importante ofendermos as sensibilidades de imbecis.

Três racistas acabaram de vomitar vendo esta foto de uma Mulher-Maravilha latino-americana.
Foto: Wonder Woman by Emma (Carma Cosplay)

Um mundo em que índios, pretos, orientais, mulheres e gente LGBT são tão comuns quanto caucasianos héteros na arte, na cultura, na política e nas classes sociais não seria notado por quase ninguém.

Exceto pelos racistas.