D&D 3e e 3.5 são uma edição só

D&D 3e e 3.5 são uma edição só

Acho que preciso esclarecer um engano no qual muitos jogadores de RPG (alguns dos quais eu até gosto um pouco) incorrem ao fazer as contas de quantos anos duraram cada edição do Dungeons & Dragons. Estou falando do disparate “três ponto cinco” ou “três e meio”. Não foi uma nova edição.

No ano 2000, a Wizards of the Coast lançou o Dungeons & Dragons, derrubando a palavra “Advanced” do título, mas dando prosseguimento na evolução do AD&D, ou seja, ignorando as muitas iterações de um jogo chamado “Dungeons & Dragons” que viveu concomitante ao AD&D de 1977 a 1999, e cuja 15ª. ou 16ª. edição de 1991 do Basic Set foi lançada no Brasil pela Grow. A terceira edição do D&D, já pela Wizards, portanto seguia a contagem de edições do AD&D.

Em 2003 a editora relançou os livros básicos com capas diferentes, introduzindo centenas de alterações nas regras, em sua maioria pontuais. Na prática, eles introduziram nos livros básicos (core rulebooks) regras que já haviam sido corrigidas ou expandidas nos artigos da Dragon e Dungeon Magazine, e por outras pessoas de modo semi-oficial ao longo dos anos, como a classe Ranger do Monte Cook. Não se tratou de uma nova edição, e tanto “3e” como “3.5″ devem ser consideradas a mesma edição — terceira do (Advanced) Dungeons & Dragons.

Talvez você tenha passado pela mesma experiência que eu, se não bem próxima: eu já possuia vários livros da terceira edição, tendo incluído neles, à lápis ou colando Post-Its em cima de parágrafos inteiros, as erratas que a editora lançava de tempos em tempos. Eu não comprei os livros básicos revisados quando eles saíram em 2003 porque, além de à época eu ganhar muito pouco dinheiro, também considerei que as diferenças entre o que eu já tinha de errata inserida em meus livros eram mínimas. De fato, continuei a adquirir livros novos sempre que podia, criando uma pequena ludoteca com livros misturados de ambas as “edições” — ou seja, livros e livretos que saíram entre 2001 e 2003 e livros que saíram após a revisão de 2003 — sem encontrar qualquer tipo de incompatibilidade entre eles. Dois de meus jogadores de então possuíam o Player’s Handbook revisado (“três ponto cinco”), tendo criado seus personagens com esse livro, e jogavam à minha mesa sem qualquer tipo de incompatibilidade. Era a mesma edição.

Dizer que os livros de 2003 configuram uma nova edição é o mesmo que dizer que a revisão de 1995 da segunda edição do AD&D (lançada no Brasil pela Abril Jovem) foi uma edição nova em relação ao AD&D 2nd. Edition de 1989. Não foi um novo AD&D, e todo mundo conta o período de vida do AD&D 2ª. edição como sendo entre 1989 e 2000. Então, por que contar três anos para o D&D 3ª. edição e cinco anos para a “três e meio”? Ou uma coisa, ou outra. De fato, muita gente que viveu o AD&D no Brasil nem se deu conta de que a edição lançada localmente pela Editora Abril era diferente dos livros pré-revisão de 1995 da TSR, usando livros nacionais com produtos pré- e pós-revisão sem qualquer problema; muitos cenários de campanha possuem caixas lançadas antes e depois da revisão e o único meio de saber disso é o logotipo do “AD&D”, branco e azul para a 2ª. edição e vermelho para a 2ª. edição revisada. Eu mesmo comparei os dois Player’s Handbook do AD&D 2nd. Edition sem e com revisão, tendo encontrado diferenças tão mínimas entre eles que as distinções que saltavam aos olhos eram a cor do texto e a qualidade das ilustrações (o livro pré-revisão era bem mais bonito).

Se a recém-anunciada próxima edição do Dungeons & Dragons (com o nome de trabalho e D&D Next) for lançada na GenCon do ano que vem, a 4ª. edição terá sido a mais breve de todas, tendo vivido por cinco anos — ao contrário do que se conta por aí, pois a 3ª. edição viveu de 2000 a 2008, sendo sua revisão apenas isso, uma revisão, exatamente como foi com o AD&D — e até podemos traçar um paralelo com o lançamento da linha Essentials, que também não é uma nova edição, “quatro e meio”.

Marcelo é um troll na internet e na vida real. Joga jogos de tabuleiro desde que tem memória e RPG desde 1994, nove de cada dez partidas como GM. Seu outro passatempo favorito é ler, e seus autores preferidos incluem David & Leigh Eddings, Larry Niven, Anne McCaffrey, Tom Clancy e John Scalzi. Recentemente abandonou a carreira de professor secundário para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP.

Facebook Twitter YouTube Vimeo Skype    

tabs-top

4 comments on “D&D 3e e 3.5 são uma edição só

  1. césar luz on said:

    Cara, vou discordar.
    A 3.5 alterou muitas coisas importanes para o sistema. Duas muito importantes que lembro de cabeça são:
    a) alterou muito o cálculo do CD das magias, alterando a forma como diversas classes, feats e habilidades funcionavam;

    b) ele alterou a forma de cálculo do XP individual, evitando um problema relacionado a criação de itens mágicos e um desequilíbrio que ele gerava.

    Eu não sei quanto o grupo de vocês se apegava as regras, mas na época eu estava num grupo que jogava pelo RAW. As diferenças foram suficientes para algumas pessoas pedirem pro Mestre para refazerem os personagens.

    Seria possível considerar que era a mesma coisa se as regras fossem retrocompatíveis, o que não acontecia. Principalmente no que se relacionava a material que tocasse no aspecto de mágica, havia várias alterações em como as magias, as classes relacionadas, os feats que interagiam com elas, passaram a funcionar.

    • Marcelo Dior on said:

      Cézar, eu sou o tipo de GM que joga o jogo com todas as regras e o mínimo possível de alteração, se alguma. Era daqueles que ficava checando carga dos PCs para ver se a AC e movimento mudou, no tempo da 3ª. edição.

      Na reedição de 2003 do D&D3, muitas magias trocaram de escola e algumas tiveram seu nível elevado ou reduzido. O jogador que citei ter o livro revisado (i.e. 3 e ½) era justamente o dono do personagem Wizard, que comprou o livro após o lançamento e me pediu para refazer o personagem. Continuamos jogando com total compatibilidade. Mudanças semelhantes às magias arcanas e divinas ocorreram na 4e.

      As mudanças que a 4e sofreu com as constantes erratas foram ou iguais ou maiores que a errata que foi a 3.5— magias e feats de classes inteiras, como o Cleric, foram mudados também; os DCs de Skill Challenges, HP e dano de ataque de monstros foram totalmente refeitos e skills inteiras como Stealth foram tão modificadas que meu PH1 tem duas folhas coladas sobre a original página 188.

      Tanto na 3e como na 4e essas mudanças começaram como erratas no website da WotC. Talvez pela internet de dez anos atrás não ser onipresente como é hoje, muita gente não sabia dessas mudanças, portanto a editora decidiu lançar o livros novamente (e um pouco de grana a mais com a venda dos livros também não faz mal a ninguém).

      O mesmo acabou, de certa forma, por acontecer com a 4e, na forma dos livros de jogador da linha Essentials, que lançou as classes do PH1 e 2 com todas as mudanças de então, assim como as regras já corrigidas por dois anos de errata na forma do Rules Compendium. E foi “pior” na 4e, pois as erratas continuaram a aparecer mesmo depois do lançamento dos livros da Essentials.

      Isto posto, a 4ª. edição do D&D quatro anos depois do lançamento está mais diferente do que a 3ª. edição, três anos depois de seu lançamento, mas ninguém diz que hoje jogamos 4.5 — quem diz, faz isso meio que de chacota.

  2. Arquimago on said:

    Eu ficava na dúvida sobre esse assunto, apesar que por ser 0,5 é para se saber que faz parte do mesmo bloco principal.

    Não tenho certeza, mas acho que todos os livros que saíram em português eu comprei, os de classes e regras eu os Azuis eu sei que comprei.
    Agora não tenho com quem usar, e nem sei se quero usar, huahuhua

  3. Mestre Walla on said:

    Bom, eu sempre estive ciente disso. Conheci o RPG na época da 3ª Edição, mas quando a revisão (3.5) da edição em Inglês já havia sido anunciada. Por isso decidi esperar até que a versão 3.5 saísse no Brasil.

    Nunca vi problemas em misturar material 3.0 e 3.5, com as devidas adaptações, claro.

    Não sei se uma revisão era realmente necessária, mas que ficou bem melhor, ficou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

HTML tags are not allowed.