Aproveitando a proximidade de um dos principais feriados nacionais — quiçá um dos mais importantes no mundo ocidental — e o gancho oferecido pelos dois últimos textos do Douglas Alves, achei pertinente escrever um texto a respeito não exatamente da data, mas de um mote que pode ser largamente explorado nesse tipo de festividade e que eu chamei nesse texto de “dar um tempo aos seus personagens”. Creio que o conceito funcione não apenas para os narradores, mas até mesmo para os jogadores, afinal cabe a eles interpretar o personagem e lhes dar alguma profundidade.

O que eu defino como “dar um tempo” basicamente seria levar os personagens para uma situação de inação, um momento que por algum motivo as coisas param, ou pelo menos se reduzem drasticamente de velocidade, em seu mundo; seria aquele momento em que os personagens forçosamente têm que “viver”, ou seja, levar o jogo para um lado mais interpretativo e menos combativo, sei que pode parecer uma grande bobagem, mas acredito que nesses momentos podemos extrair coisas muito interessantes, por exemplo em uma mesa de Call of Cthulhu que eu estou jogando uma das poucas formas de se recuperar sanidade é fazer coisas rotineiras, que dão prazer ao personagem no nível mais básico; nessa situação um investigador imerso num mundo bizarro parar para aproveitar um pouquinho as festividades de fim de ano, beber um eggnog com sua família ou simplesmente sentar num pub e contar junto com os demais presentes até zero no fim do ano pode ser um ótimo gancho para que ele recupere alguns pontos de sanidade. Essa situação pode ser usada de muitas outras formas, mais ou menos mecânicas, mas que podem trazer excelentes ganchos para a aventura e para as histórias pessoais dos personagens, quem sabe se aquele ladrão chato e sem respeito pelo grupo pode se mostrar um sincero doador de presentes na data da “ascensão de Pelor”? Afinal ele pode se lembrar de sua infância pobre e sofrida e querer dar, pelo menos uma vez ao ano, um pouco de conforto àqueles que compartilharam com ele suas desgraças passadas, num mundo moderno podemos ter diversas situações que, mesmo que os personagens não estejam imersos no mesmo substrato religioso do momento pode levá-los a outros níveis de relação entre si, por exemplo o que ocorreria com um grupo de magos que, presos devido a uma forte nevasca bem na época do Natal, não pudessem embarcar para aquela viagem onde enfrentariam o grande mal apocalíptico? Será que eles passariam todos os dias e noites enfiados num quarto de hotel planejando com mais detalhes o seu ataque? O será que em algum momento, por mais simples que fosse a motivação, eles acabariam sendo parcialmente imersos no clima do feriado? Não acho que seja interessante simplesmente jogar para o alto toda a tensão do momento, mas creio que seja interessante pensar no que passaria na cabeça dos personagens nessa situação, será que eles encarariam as pessoas com desdém, afinal elas não sabem o que está acontecendo naquele exato momento? Ou talvez surgisse uma forte vontade vencer, animada pela imagem das pessoas “normais” que nada sabem e que nada devem saber, pois o mundo é melhor quando mais simples? Talvez a noção de que o mundo ainda pode ser bom pode ser não apenas um alívio para os personagens, mas um “plot twist” interessante na trama até então desenvolvida, levando a aventura para uma nova direção.

© 2011 moni!

Outra possível abordagem é bem mais laica, afinal nem todos os feriados ou momentos importantes de um povo ou nação estão obrigatoriamente ligados à religião, vide o exemplo do dia de Ação de Graças americano ou nossos feriados cívicos (que, apesar das pessoas não se lembrarem deles como mais de um dia para ficar em casa, normalmente têm uma importância relevante para a nossa história oficial) nessa situação, apesar da possibilidade de que os personagens tenham uma nova inspiração para continuar com sua empreitada podemos apenas pensar como elas afetam o meio que cerca os personagens e por conseguinte como eles podem aproveitar o momento para agirem de formas diferentes do que normalmente é o seu modus operandi básico, talvez seja a chance para aquele personagem cyberpunk num feriado militar como o nosso 7 de Setembro ou o Dia do Veterano nos Estados Unidos se misturar com a turba para melhor avaliar aquele general do mal que vem atormentando o grupo. Quem sabe uma festividade como o carnaval, as grandes corridas de touro espanholas, o Mardi Gras (que apesar de terem um caráter religioso são famosas por seu lado profano), o boi bumbá do norte do país ou o dia de Los Muertos no México, quando as ruas estão normalmente lotadas de pessoas, não sirva para esconder os intentos de um grupo de personagens e ao mesmo tempo acabe se tornando ele mesmo um evento à parte na história, criando novas situações e interações entre eles. Nessas situações, a idéia da aventura não é sair por aí atacando a tudo e a todos, mas aproveitar a situação caótica e buscar novas soluções para resolver os problemas lançados contra eles (poderia até ser uma espécie de skill challenge, se mover no meio da multidão, se misturar a ela, achar informações importantes…), para quem jogava PS2 e talvez se lembre de Hitman, havia um dos assassinatos que o agente 47 executava justamente no meio de um Mardi Gras, tendo que tomar cuidado com o grande número de policiais presentes na festa, apesar deste exemplo fugir um pouco do rumo do texto acho que pode ajudar a esclarecer o conceito que estou aqui defendendo, não acho que os personagens obrigatoriamente precisam fazer algo claramente relevante para o desenrolar da história mas que possa ser utilizada de outras formas; aquele agente da CIA pode encontrar um antigo amor durante um carnaval brasileiro, um certo personagem pode se esconder no meio da multidão durante os festejos de máscaras em Veneza enquanto busca provas de sua inocência, os fogos de artifício do Ano Novo chinês podem esconder o barulho da serra que está sendo usada para cortar as barras que dão acesso ao sistema de ventilação daquele prédio supermoderno da corporação do mal, ou coisas mais mundanas, o grupo pode simplesmente se embebedar até cair durante um Dia de São Patrício para, no dia seguinte, apesar da terrível dor de cabeça, sentir-se revigorado para voltar às suas ações.

Creio que a idéia de aproveitar um feriado, seja ele de qualquer forma, pode ser tanto direta, como um sub-elemento da trama, como diretamente dando uma oportunidade interpretativa aos personagens para agirem como mais do que um simples grupo de parâmetros, ou máquinas de executar ordens. Todos precisam de férias, descontração e interação real, coisas muitas vezes sub-utilizadas em nossas aventuras, mas que podem acrescentar diversos níveis ao nosso jogo.

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