Fotos: Marcelo Dior.

Nos bons tempos do AD&D, e até durante a edição anterior do D&D, eu me orgulhava de saber o número da página de praticamente todas as tabelas ou parágrafos importantes para o jogo; recitava-as toda vez que surgia uma dúvida, “não, você só pode carregar X. Pode conferir, a tabela está na coluna da esquerda da página Y.” Eu me orgulhava, porque isso de algum modo me fazia um bom DM.

Agora, na atual edição do Dungeons & Dragons, a situação se inverteu! Eu não dou a menor mínima do mundo para onde alguma coisa está no livro. A “carga” de saber onde está uma regra e como usá-la está sobre os jogadores. O “bom DM”, hoje, é o cara que monta dungeons criativas, conta boas histórias e cria vilões autênticos. Meio como no tempo da caixa do D&D que a Grow lançou por aqui, lá nos anos 1990.

Acho que é a primeira vez que entendo o que os editores da Wizards of the Coast tanto martelam na nossa cabeça, que a 4ª. edição do jogo deixa o DM trabalhar. Eu custei a sacar isso e, obviamente, no começo do jogo tentava manter o hábito de conhecer as regras de cor. Mas o D&D contemporâneo é diferente, a editora adimite erros e publica revisões (ou atualizações, como a WotC prefere chamar as erratas). Até porque o lançamento de um livro com o acúmulo de anos de revisões gerou a famosa confusão entre 3ª. edição e «3.5» — poucos entenderam que era o mesmo jogo, a mesma versão (como quando a 2ª. edição do AD&D foi revisada), e até hoje muitos tratam a «3 e ½» como um edição separada.

Por um bom tempo eu não tive tempo de acompanhar a enorme quantidade de artigos produzidos e publicados no site oficial do Dungeons & Dragons (até hoje não consigo ler tudo, mas por outros motivos) e me pegava sem saber em que pé o jogo estava. E foi aí que me dei conta de que meus jogadores eram minha rede de proteção, pois ele sabiam o que «estava pegando» no mundo do Dungeons & Dragons.

Hoje, eu faço uso desse «recurso» corriqueiramente. Procuro me manter atualizado, mas meu foco é em criar aventuras interessantes, porque sei que meus jogadores irão me ajudar no que precisar. De fato, isso se tornou tão corriqueiro que eles me ajudam durante o jogo com tarefas que normalmente faziam parte da minha rotina, e talvez você, DM ou jogador possa dividir essas mesmas tarefas com seus amigos:

Um jogador fica responsável pelas condições.

• No começo de cada sessão, escolho um jogador para cuidar das marcas e condições que usamos nos encontros combativos (anéis de tampas de refrigerantes). Ele ou ela é quem escolhe quais cores representam o quê e tanto jogadores quanto DM se voltam a esse jogador para saber quais as condições estão em uso e quando elas acabam.

• Do mesmo modo, um outro jogador anota o dano sofrido pelos monstros. Desse modo não apenas os jogadores ficam sabendo quais monstros já tomaram dano (e quais ainda estão intocados) e se algum monstro parece particularmente resiliente, p.ex. tendo tomado mais do dobro da quantidade de dano que matou outro monstro, mas sem nem estar sangrando. Claro, esse jogador precisa estar particularmente atento ao jogo e, como o DM não está ele mesmo anotando os danos sofridos por seus monstros, esse jogador ou jogadora deve cantar o dano total que um monstro já sofreu toda vez que ele é atingido, para que o DM saiba se já está sangrando, morrendo ou já morreu.

• No caso de monstros com poderes recarregáveis, eu sempre peço para algum jogador escolhido ao acaso rolar o d6. E digo «você não quer tirar 6!» Assim, não apenas os jogadores sabem que algum monstro tem um poder recarregável, como é super-divertido vê-los torcendo para o colega não rolar alto.

• Tarefas fora do jogo também podem ser divididas. Talvez a cada semana um jogador possa responsável por trazer as bebidas ou faz a contabilidade de quem deve para o cara que pediu a pizza.

• E o mais importante de tudo: cada jogador é responsável por saber como os poderes e talentos de seu personagem funciona. Eu só vou pegar a ficha (ou consultar o Compendium) quando houver alguma dúvida entre DM e jogador. Eu não quero saber como os poderes funcionam, são muitos e mudam o tempo todo. De fato, nem consigo saber de cor todos os poderes do jogo. O tempo quando eu conhecia quase todas as magias do jogo já era. Claro, preciso confiar que meu jogador será honesto e claro ao usar um poder, mas a revisão pelos pares evita qualquer problema.

Faça isso você também, divida as tarefas com seus jogadores. Talvez você queira deixar as cartas de condições com um deles, ou a cada semana um jogador diferente poderia ficar responsável por atualizar o blog da campanha com o que se passou no último jogo. Talvez — se for particularmente cruel — você possa pedir que o jogador role o dano que ele tomou!

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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