Lendo outro dia algumas matérias sobre a história do vinho acabei por me dar conta que uma coisa que nunca levamos em consideração nas mesas de fantasia medieval é a própria natureza das bebidas que são servidas nas tavernas, lugar onde a maioria dos grupos aventureiros em algum momento se encontra, note que este artigo não tem nenhuma intenção de dar parâmetros de quão bêbado o seu personagem fica com essa ou aquela bebida e sim apenas parâmetros para tornar o ambiente das mesas mais interessante. Como sempre, aqui cabe a regra de ouro do RPG: se não serve, deixe de lado e adapte à realidade de sua mesa.

Quando falamos da Idade Média real, a principal bebida consumida sempre foi o vinho, de maior ou menor qualidade, essa bebida esteve presente nas mesas de trabalhadores, monges e nobres; outras bebidas, como a cerveja e o hidromel, que para nós estão muito mais ligadas a um mundo medieval, tinham seu consumo muito menor; a cerveja, por exemplo, era mais consumida apenas nos países incapazes de produzirem vinho, como a Inglaterra e os países escandinavos, enquanto o hidromel era uma bebida bem mais exclusiva da Escandinávia. Apesar de se conhecerem métodos de destilação desde o século VIII, aparentemente não era tão comum o consumo de bebidas destiladas, talvez o processo rudimentar fosse muito pouco confiável ou considerado pouco rentável, mas de qualquer forma estas bebidas desempenharam um papel menor na Idade Média, quando comparadas ao vinho. Os principais tipos de vinhos consumidos durante a Era Medieval eram os chamados claretes e os brancos; o homem medieval tinha uma predileção pelo doce, tanto em suas bebidas quanto em seus alimentos. Algumas vezes misturadas com especiarias ou mel, os vinhos tintos suaves eram muito apreciados, mas aparentemente sua produção era menor e bem mais restrita.

© 2009 Valentina Kallias

Fosse qual fosse a bebida, com exceção aos destilados, sua durabilidade era muito menor do que as de hoje, facilmente explicada pela própria forma de produção da época: não haviam cuidados extensivos com a fermentação e para alguma coisa “dar errado” não era assim tão difícil, além disso o transporte e o armazenamento eram feitos de forma precária, normalmente em grandes barris, os quais permitem a troca de gases entre o ar e o interior do recipiente, o que acaba por azedar a bebida após algum tempo. A outra forma de transporte eram as ânforas, que apesar de barrarem melhor a troca de gases ainda o permitiam pelo bocal, que mesmo selado não era completamente vedado. O consumo também era feito de uma forma rápida, pois como não havia garrafas de vidro para quantidades menores, normalmente era necessário se consumir rapidamente o conteúdo de um barril após este ser aberto — ótima desculpa para encher a cara, não?

Outra informação bem interessante é que de uma forma geral bebia-se muito no período medieval. A média de copos de vinho para um nobre era de aproximadamente 25 por dia (algo em torno de dois litros e meio de vinho), os camponeses contentavam-se com “apenas” 9 copos diários (alguma coisa perto de 900 ml). A taverna era um ponto de fuga para os camponeses e outros de baixas extrações sociais; era lá que eles podiam descansar e terem alguma interação social diária. Estranhamente uma coisa tão comum em nossas mesas, as brigas de taverna eram bem raras. Apesar de crimes e violência serem muitas vezes instigadas pelo álcool, elas normalmente aconteciam fora da taverna (talvez todo taverneiro tivesse uma espada vorpal escondida sob o balcão).

Levando isso para a sessão de jogo

Esse tipo de informação pode ser facilmente adaptada a uma sessão de jogo. Levando-se em conta o tipo de cenário, como um cenário de alta magia podemos, por exemplo, não ter problemas com a conservação de bebidas, o que transformaria o consumo. Em contrapartida, talvez esse tipo de processo não exista em um mundo com baixa magia, ou seja, tão imperfeito que consiga piorar ainda mais o sabor dessas bebidas. Outra possibilidade é limitar a produção de certas bebidas, ou pelo menos as melhores versões destas, a algumas raças, ou povos, em especial. Por exemplo, poderia caber aos anões a produção de cervejas fortes, escuras ou muito douradas de sabor inconfundível (as nossas chamadas ales, que usam um processo um pouco diferente de fermentação). Aos elfos, licores fortes e adocicados, vinhos de frutas diversas ou versões refinadas do hidromel (os celtas adoravam hidromel produzido com frutas diversas, misturas como maçã, marmelo, peras, uvas ou combinações de especiarias), quem sabe até mesmo destilados ou fermentados especiais à partir destes produtos, como o conhaque ou o champagne. Essas bebidas podem então ganhar novas cores: imagine quão valiosa seria uma garrafa de vinho élfico para um nobre rico e poderoso, ou o tamanho da dor de cabeça que o bárbaro pode ter ao se encher com aquele licor adocicado que lhe foi servido na taverna.

© 2008 EPS Design

Certas culturas podem apresentar restrições ou incentivos ao consumo de bebidas, talvez estar bêbado possa ser considerado um sacrilégio em um lugar e uma forma de entrar em contato com os deuses em outra. Certas culturas podem considerar bebidas adocicadas apropriadas para mulheres e crianças (não se enganem, em mundo de fantasia é mais do que plausível que mesmo as crianças bebam em pequenas quantidades) e o simples ato do guerreiro do grupo ter entre seus pertences um odre de licor pode taxá-lo de afeminado.

As bebidas são apenas uma pequena parte da aventura, isso é a mais pura verdade, mas como todo DM sabe, não há nada melhor para criar ganchos para uma história do que detalhes. Essas pequenas idéias podem acabar rendendo boas side quests ou pelo menos momentos memoráveis e muitas gargalhadas.

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