Mesmo sem tantos motivos, tenho algum orgulho em afirmar que joguei e mestrei (no meu grupo não tínhamos esse verbo e falávamos “dar missão”) todas as edições do nosso querido D&D. Em todas as revisões e mudanças de edições, eu estava lá, com o D&D. Esse jogo, talvez por ser o meu primeiro nesse gênero, tornou-se o meu referencial para RPGs, em todas as suas “iterações”. Foi a cola que reuniu meu grupo e nos tornou amigos, da adolescência até hoje.

Não vou me ater tanto às famigeradas Edition Wars. Acreditem, elas aconteceram em todas as mudanças de edição que vi. Quando o meu grupo mudou do OD&D (aquele, do Basic, Expert, Companion, Master e Immortals) para o AD&D 1ª. Edição, eu testemunhei essas guerras. Na vez do AD&D 2ª. Edição, mais conflitos (e eu nem mencionarei a série Player’s Option). Até então, essas batalhas aconteciam dentro dos grupos, quando muito algum debate nas convenções. Na virada para a 3ª. Edição/3.5, a discussão tornou-se maior, algumas vacas sagradas foram sacrificadas — algumas para o bem, outras para o mal; não direi quais bovinas foram canonizadas. Veio a 4ª. Edição, com um enorme racha entre os fãs e uma Edition World War, travada em grande parte na internet (fóruns, blogs e afins) e os lados pareciam irreconciliáveis. O conflito mais recente se deu dentro da própria fanbase da 4ª. Edição devido à abordagem que a linha Essentials trouxe. Quando todos, inclusive eu, não queriam acreditar que outra edição viria, nossos amigos da Wizards of the Coast anunciam a 5ª encarnação de nosso jogo.

Recebi em minha mesa todos os rulesets do D&D, mas a adaptei todas as edições à minha ambientação, que continua a mesma desde que comecei a mestrar (ou “dar missão”). Deu trabalho, mas foi recompensador. Se no meu mundo não há monks, essa classe simplesmente não estava disponível em nossa campanha quando veio a 3ª. Edição, da mesma forma que não existem meio-orcs em Dragonlance. Na 4ª Edição, meu grupo e eu deixamos de fora várias classes e raças que não condiziam com a nosso mundo. Em nossa mesa, tínhamos sacerdotes de Thor, Apolo, Cristo. Nesse ponto, eu tinha o suporte do Legends & Lore do AD&D e na 3.5 do Gods and Demigods; no caso dos clérigos e paladinos cristãos, usei a imaginação, leitura e bom senso. Na 4ª. Edição, não tive esse suporte oficial, precisei adaptar. Todas as nossas vacas sagradas foram mantidas. Tive a certeza de que poderia ter o que queria do meu D&D quando li no Dungeon Master Guide (tanto da 3.5, quanto da 4ª. Edição) que o Dungeon Master poderia suprimir qualquer aspecto do jogo que não fizesse parte da sua ambientação ou campanha, fossem feats, classes ou raças. Lembro-me também que essa prerrogativa do DM que constrói o seu mundo constava dos Dungeon Master Guide das edições anteriores. O próprio Gary Gigax seguia esse procedimento.

© 2010 Strange-1

Eu queria acreditar que a 5ª. Edição demoraria a chegar, pois a 4ª. Edição ainda está longe de se esgotar. Com alguma criatividade, essa edição pode render muito mais do que atualmente nos oferece. Não precisamos esperar o suporte oficial de algum livro ou suplemento. As ferramentas já foram dadas, basta que os Dungeon Masters produzam seus materiais, como o pessoal do Fourthcore faz. Minha agenda “D&Dzística” até a chegada da próxima “iteração” em minhas mãos é fazer render o máximo que posso desta edição. Quando a edição nova chegar, sei que haverá aspectos que vou gostar muito, assim como coisas que simplesmente não vou gostar de ver em minha mesa, e que simplesmente não usarei, como sempre fiz em todas as manifestações do D&D. Rogo, para que a Wizards of The Coast cumpra duas promessas: sistema modular e inspiração em todo o legado do D&D.

No dia que recebi a notícia da transição, comentei com um amigo que joga na minha mesa que, independente da edição, eu jogo e jogarei Dungeons & Dragons, a minha referência do que é RPG.

Marcus Mortati

Marcus Mortati, tem 35 anos e joga RPG desde os 15 — quase sempre como DM, o Dungeons & Dragons é o seu jogo predileto. Trabalha como professor de História; é leitor compulsivo e gamer inveterado. Mora e trabalha no Rio de Janeiro.

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