Ano: 1995 (paperback). Autor: Ed Greenwood. Editora: TSR, Inc. 331 páginas (paperback)

Há quase três anos eu adquiri alguns pocket books de um sujeito que estava se desfazendo de sua pequena coleção. Entre eles estava «Elminster: The Making of a Mage», de Ed Greenwook. Intacto, o livro nunca havia sido lido, e apenas as bordas amareladas das páginas denunciavam sua idade. E ele ficou em minha estante por mais dois anos, até eu resolver conhecer a gênese do maior mago de Forgotten Realms.

Confesso que fiquei bem hesitante. Primeiro porque parte da história já me havia sido contada à época do lançamento do livro nos EUA por um amigo (apesar de me lembrar de realmente muito pouco), segundo porque era texto de Ed Greenwook, conhecido por ser… léxico, e terceiro porque não sabia o que esperar de histórias cujos protagonistas são magos. Esta objeção é justificável no fato de que a absoluta maioria dos protagonistas de histórias de fantasia são espadachins — mesmo empunhando algum tipo de artefato mágico, ou mesmo algum feitiço, são sempre em essência guerreiros. Acho que é muito mais fácil o leitor se conectar com uma pessoa capaz de feitos teoricamente possíveis a qualquer ser humano, deixando a magia para algum personagem secundário, aliado do herói. Mas, ao fim e ao cabo, foi justamente ter em mãos uma história em que o protagonista era mágico, não guerreiro, me atraiu ao texto.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que Elminster começa como espadachim!

A narrativa não foge da de qualquer origem de herói de fantasia: garoto de origem humilde, tem a família morta pelo rei opressor, descobre que ele é o legítimo herdeiro do trono, alia-se a rebeldes, fica sabendo de sua origem, renega sua origem, é convencido por algum poder misterioso que ele é o Escolhido, rejeita esse destino, vê pessoas próximas morrendo porque ele não aceitou seu destino, aceita seu destino, treina bastante, acha que está pronto e se dá mal, treina mais ainda, confronta o vilão, tem alguma perda grande ao enfrentar o vilão, vence o vilão, descobre que a vingança tem sabor acre-doce.

Como a história é bem típica, o bom do livro está em como ela é contada. E Greenwood faz um trabalho decente nesse quesito. Primeiro porque cria um personagem crível, fácil de simpatizar — Elminster é um adolescente como qualquer outro, vivendo no campo mas aspirando a uma vida de aventuras, mas é forçado naquele caminho por sede de vigança. Também temos inúmeros personagens secundários (um dos pontos fortes do livro), todos eles bem construídos, profundos e pouco previsíveis. Greenwood sabe como construir personagens e situações que saltam aos olhos, fazem o leitor ver a cena claramente em sua mente. Não é fácil construir interações e diálogos sem parecer que são forçados, planejados, mas Greenwood (ao menos neste livro) conseguiu.

Como já disse, Elminster tem origem humilde. Começa como um pastor, no reino de Athalantar, por volta do ano 224 DR; é forçado a fugir quando escapa da destruição de sua família e se une a um grupo de bandidos de estrada. Mas logo se dá conta de que precisa conhecer mais de perto o inimigo, e parte para a capital da nação, Hastarl, para se tornar um gatuno. Eventualmente decide que precisa fazer algo com o poder mágico latente que tem (revelado nas primeiras páginas do livro), mas não se torna um mago ainda! Elminster vira clérigo (mais ou menos… não vou estragar a surpresa) de Mystra e parte para aprender magia com os elfos. Esse é o trecho mais curto e talvez a fase mais fraca do livro (para mim, a melhor parte foi ele como ladrão, e eu poderia ler um livro inteiro só com as aventuras dessa fase). Antes da metade da obra, porém, Elminster faz o que todo mundo espera desde a página 1 e torna um aprendiz de mago. E, desse ponto em diante, a narrativa toma proporções épicas, com grandes batalhas no ar, castelos destruídos em duelos mágicos, monstros gigantescos, gente virando dragão — e muita, mas muita morte nojenta que poderia muito tem ter saído dos filmes «Premonição»; Ed Greenwood sabe como matar feiticeiros malignos de jeitos criativamente sangrentos.

Quem jogou AD&D irá reconhecer muitas das magias, divinas e arcanas, usadas por Elminster, seus aliados e inimigos, ao longo do texto. O modo como Elminster aprende a «queimar» magias divinas para usá-las como cura é muito legal, assim como a passagem em que ele descobre que magias arcanas precisam ser memorizadas. Greenwood também respeita a regra do jogo que fala que elfos podem apenas se especializar nas classes especialistas Advinho e Encantador — mas torna essas escolas de magia as únicas que elfos de fato conhecem, tornando o Belo Povo das florestas do norte incapazes de derrotar os Magelords (os vilões da história); magias de adivinhação, encantamento e conjuração são, em sua maioria, defensivas, não ofensivas.

Ao fim e ao cabo, «Elminster: The Making of a Mage» é uma leitura satisfatória, e uma gostosa jornada por uma aventura mais ou menos previsível e que todo mundo que jogou RPG no cenário de Forgotten Realms meio que já conhece — o que não deixa a história menos interessante. Ed Greenwood consegue produzir uma narrativa que prova que saber o desfecho não diminui de modo algum a qualidade (e as emoções) da leitura.

Qualificação: ★★★☆☆ (3 estrelas: bom!)


Meu sistema de qualificação: 1 estrela: ruim, 2 estrelas: fraco, 3 estrelas: bom, 4 estrelas: muito bom, 5 estrelas: excelente. Reservo as 5 estrelas para apenas um livro de cada gênero, porque considero somente uma obra de cada vez como tendo atingido a excelência naquele gênero. Qualquer livro a partir de 3 estrelas recompensa o tempo que se leva para lê-lo.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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