Caros, respirem fundo e coloquem para tocar Heavy Riders da banda Crypt Sermon. Agora sim, podem iniciar a leitura dessa resenha.

Esqueçam as crianças felizes, vales encantados, elfos saltitantes, anões atrapalhados e esperanças trazidas ao raiar do sol. A trama de Elric é movida por um mix de dilemas morais, miséria urbana, magia corruptível, pactos demoníacos, traição e soco na cara!

Capa da versão nacional pela Editora Generale 2014

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A Traição ao Imperador, o primeiro volume da saga de Elric, foi trazido para o Brasil pela editora Generale ano passado, mas só agora comprei e li. Tenho até vergonha de dizer que demorei todos esses anos para colocar a mão nessa maravilha, pois já conhecia a importância do Michael Moorcock para a fantasia (mais especificamente para a ramificação sombria desse gênero), e as próprias referências que o Dungeons & Dragons incorporou da saga de Elric, alguns exemplos: eixo moral dos personagens, espadas mágicas com ego, jornadas extra-planares, entre outros. Com a empolgante enxurrada de fantasia medieval que o Brasil vem recebendo, seguem minhas razões para você colocar Elric no topo das prioridades:

1 – Elric é uma antítese personificada!

Eu ia falar que Elric é um anti-herói, mas lembrei que os anti-heróis estão na moda. O que acontece é que Elric é mais que isso. Ele é uma antítese personificada, ele é frágil e poderoso, sábio, mas tolo, nobre e xucro. Esses traços são lapidados de forma tão natural que dão a profundidade certa para o personagem, fazendo o leitor se importar com cada decisão tomada pelo protagonista atormentado. Posso dizer até mesmo, que ele é o herói e vilão da trama, somado claro, aos dilemas morais ao decorrer dos eventos e de seu maquiavélico primo que acredita que Elric não é o imperador ideal para governar Melniboné.

2 – Michael Moorcock é o “Anti-Tolkien”!

Eu adoro o Senhor dos Anéis, ok? O que aconteceu (e ainda acontece) é muito simples: quase todos os escritores de fantasia da noite para o dia desejam escrever sua “trilogia definitiva”. Isso acabou criando, uma geração de escritores de fantasia previsíveis, com o bem e mal claramente definidos, um grande senhor das trevas, orcs genéricos e elfos aguardando pacientemente nas florestas para distribuir conselhos. Todas as tramas giravam em torno do já batido “monomito” (ou “jornada do herói” se preferir). Michael Moorcock já inicia a história com seu protagonista sendo imperador, possuindo um grande exército e uma marinha invejável. Até dragões, Eric possui em seu poder! O autor também não perde tempo descrevendo as coisas ao redor nem os personagens, quando o escritor é bom, apenas com palavras claras e precisas, ele descreve o escopo principal e o leitor completa as nuances descritivas. Para falar a verdade, são poucos os escritores com esse talento, para citar dois mestres agora de cabeça: Bernard Cornwell e Stephen King.

3 – Elric é Heavy Metal!

Cada capítulo do livro parece uma animação saída das revistas Heavy Metal ou um clipe embalado por Blind Guardian, Crypt Sermom, Rhapsody, etc. Misture agora essa trilha sonora com cenas épicas, batalhas contra demônios, navios mágicos e voilá: o resultado é um filme de fantasia medieval “oitentista” diante dos seus olhos! A título de curiosidade (e bom gosto musical também), seguem algumas bandas com músicas baseadas diretamente na obra: Blind Guardian com “Tanelorn”, Grand Magus com o gutural “Triumph and Glory”, Dark Moor e a melódica “Fall of Melnibone” e Crypt Sermon com a destruidora “Heavy Riders”. Porra, é impossível não se empolgar!

© 2011 Israel Llona.

© 2011 Israel Llona.

4 – Elric é D&D de várzea!

Ler Elric é voltar no tempo. Elric de Melniboné é uma das tantas obras referenciais que compõem o famoso Apêndice N do antigo Dungeons & Dragons e se faz presente até mesmo no novo Apêndice da 5ª edição. Como mencionei, Elric trabalha o tempo todo com conceitos de moralidade. Cada escolha é pesada, se suas consequências serão egoístas, cruéis, corretas ou simplesmente honradas. Não só o protagonista, mas todos ao redor fazem escolhas, e isso é raro de se ver nos livros atuais, independente do gênero literário.

Por fim, Elric em suas poucas 182 páginas, é uma história rica, honesta e enxuta que vale a pena conferir. O autor através de seu blog, disse que a editora brasileira já comprou os direitos dos 4 primeiros livros. Agora, é aguardar pelo 2º volume ou comprar pela Amazon e ler em inglês mesmo. Um adendo: procurei a obra presencialmente nas livrarias e não encontrei, sugiro comprar pela Amazon brasileira.

Boa leitura a todos!

Trabalha com Cinema e TV desde 2005 e joga RPG desde 1994, ao qual mantém uma relação de amor e ódio com D&D. Dono do podcast de cultura pop Dimensão 7.

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