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Agora que você tem um ou dois microfones de qualidade e já sabe usar sua placa de som ou sua interface de áudio, vamos conversar sobre fones de ouvido. A coisa que mais acontece, em minha experiência, é você achar que a gravação está ficando o máximo mas na hora de editar descobre que um microfone estava muito baixo (ou desligado!), seu gato ficou brincando com o fio ou alguém desligou o low cut no mixer e a gravação captou o ruído do ventilador. 

Isso é facilmente evitado monitorando a gravação.

Toda mesa de som e toda interface (e até alguns microfones) têm uma saída específica para fones de ouvido, com controle de volume e às vezes até panorama independente do main mix. Mas não é simplesmente espetar o microfone que você pegou no avião lá, você precisa de um fone de ouvido específico, um fone de monitoramento (também chamados de fones de estúdio, fones profissionais ou fones pra DJ). Ignore fones com bluetooth, cancelamento de ruído, wifi, luzinha, etc. Microfones de monitoramente são com fio. Na verdade, praticamente tudo em se tratando de som tem fio. Não confie em sinais de rádio com seu áudio. Eu tenho um par de AirPods caríssimo pra ouvir podcasts e música vindas do meu iPhone, computador e até da TV. Mas na hora de gravar, mixar e editar um podcast, fones de ouvido com fio. Sempre. 

Eu particularmente prefiro os que têm fio dum lado só, mas alguns ainda usam dois fiozinhos que saem um de cada alto-falante e se unem. Paciência. Isso não é importante. O que é importante é que fones de ouvido de monitoramento são um bicho diferente de fones pra música: você não quer fones que enfatizem certas freqüências. Todo fabricante tem esses: Beats aumentam os graves, Sony criam ilusão de 3-D… fones de monitoramento irão te dar o sinal mais “flat” que eles conseguirem naquela faixa de preço. Você quer ouvir o que foi gravado exatamente como foi gravado, não uma versão equalizada.

Portanto earphones estão fora. Você precisa de um par de fones com earcups que abracem a lateral da sua cabeça, cobrindo completamente (circum-aural) ou parcialmente (supra-aural) suas orelhas. Evite também os fones auriculares (aqueles com alto-falantes pequenos que pousam em cima das orelhas), porque você vai ouvir só o que o fone quiser te mostrar, então ele tem que cobrir toda sua orelha. E isso não significa cancelamento de ruído! Só o bom e velho isolamento através de materiais e do formato das almofadinhas. Cancelamento de ruído requer um chip no fone e faz dele um bicho muito caro. Tem gente que prefere earcups maiores que suas orelhas, de modo que as orelhas fiquem completamente envolvidas pelos earcups (são chamados de fones circum-aurais). Eu não me importo. Meus fones de ouvido pra podcasting pegam em cima da circumferência da minha orelha externa (são supra-aurais) e eu não me incomodo. Você precisa descobrir isso por si. Ao contrário, eu não gosto de earcups que não deixam suas orelhas “respirarem”. Eu detesto suar nas orelhas, então evito fones que usam plástico nos acolchoamento dos alto-falantes (eles mentem dizendo que é couro. Me engana que eu gosto) e uso fones que têm earcups de tecido ou algum outro material respirável. Pode não ser um problema pra muita gente, já que a maioria dos acolchoamentos é mesmo de plástico.

Fonte semi-aberto ou fechado?

Fones fechados ou “closed backs” isolam você um pouco do ambiente externo e são perfeitos para monitoramento. Se você estiver ouvindo algo neles, vai raramente ser distraído por ouvir sons externos. Por isso eles são os melhores quando você está gravando, e todo mundo gravando deveria estar usando fones fechados, mas no mínimo a engenheira de som deve ter um deles, obrigatoriamente, para monitorar a gravação. Já os fones semi-abertos (ou “semi-open back”) jogam um pouco do som para fora das suas orelhas para dar uma certa dimensionalidade no áudio, ou seja, fazer com que o som pareça estar vindo do ambiente e não de dois minúsculos transdutores elétricos encostados na sua cara. São melhores para editar podcasts.

Adendo: Muita gente acha que você tem que ter caixas de som de monitoramento pra editar. Isso é um mito velho. Já há vários anos o mercado está cheio de fones de ouvido excelentes pra editar, feitos especificamente pra isso. Dá pra usar os semi-abertos para monitoramento de gravação ou os fechados para edição? Dá, sem problema. Se você puder ter um pra cada coisa, tanto melhor. Mas se não puder, um serve para a outra coisa perfeitamente. A diferença entre eles é bem sutil. 

Marcas e preços

Você vai gastar R$ 120, com R$ 50 para mais ou para menos, num bom fone de ouvido novo ou metade disso num usado (três dos meus quatro fones para podcasting são usados). Marcas a se considerar são Philips (tão populares que são encontrados até no Walmart), AKG, Samson e Behringer (estes habitam lojas de música). Não vou recomendar marcas que só vendem fones de R$ 500, como Shure, Roland, Audio Technica, Beyerdynamic ou Sony. Eles são um sonho, mas são voltados para profissionais que de fato ganham dinheiro com isso, não pra nós, reles mortais. Claro, se eu encontrar um Senheiser HD280 Pro dando sopa na OLX pela metade dos 700 Reais que ele custa, pulo nele como se minha vida dependesse disso! Às vezes, certas oportunidades caem do céu. 

Ok, voltando. Fones de monitoramento são descritos exatamente assim, “monitoramento”. Às vezes são chamados de fones para estúdio e às vezes fones de referência, e às vezes fones para DJs, mas é mais comum serem chamados de fones de monitoramento. Especificamente, recomendo os seguintes fones de ouvido:

Philips SHL3300/00

Philips SHL3300: São a atual versão dos melhores fones que eu conheço nessa faixa de preço, o descontinuado Philips SHP2000. Existe a variação /00 e /28. Eu sinceramente não sei a diferença entre eles, me parecem iguaizinhos. São os fones mais baratos que eu recomendo, feitos de plástico e sem nenhuma frescurinha. A única coisa contra eles é que, por serem de plástico duro, são difíceis de serem colocados naquela posição em que uma orelha está coberta e a outra está livre, pra você conversar com quem está no cômodo. A Philips lançou recentemente o SHL3060, e tá difícil achar o SHL3300 atualmente (mas, se você achar, vai ser mais barato). O SHL3060 é supra-aural, algo que eu não gosto (prefiro circum-aural), mas você pode gostar, sei lá.  Você encontra ambos por R$ 70 a R$ 120.

Samson SR850

Samson SR850: O único fone sem-aberto desta lista, podem ser encontrados no Mercado Livre por R$ 150 ou no AliExpress por R$ 100. Se ajustam muito bem na cabeça mas algumas pessoas podem achá-lo pequeno. Para elas, tem o SR950, cerca de R$ 50 mais caro, mas tem earcups maiores (e é um fone  “closed back” ao invés de semi-aberto).

AKG K52

AKG K-52, K-72 ou K-92: As diferenças entre esses fones são estéticas. Custam em torno e R$ 200 (olhe também no Mercado Livre e na OLX por usados pela metade do preço, já que são fones muito populares). São os fones mais leves que já usei, além de confortáveis. Existe também o AKG K-414, por volta de R$ 100, mas eu acho os earcups desse muito pequenos, ficando em cima da minha orelha ao invés de“abraçá-las” (tecnicamente, são um fone supra-aural e não circum-aural, que é o que prefiro). Se você puder experimentar o K-414 e um dos outros da AKG numa loja, veja o que acha.

Behringer HPM1000

Behringer HPM1000: Esses são fones fechados (closed back) de R$ 120 que tentam ser de monitoramento, edição, festa, e música tudo ao mesmo tempo. Conseguem? Não exatamente, mas fazem um trabalho razoável em todas as frentes. Taí a vantagem deles: o Samson SR850 é ótimo, mas “cansa” as orelhas. Os da Philips são feinhos e têm cabos muito curtos. Os AKG são mais caros. O Behringer HPM1000, portanto, é um meio-do-caminho entre todos eles. O que eu gosto nos Behringer é que são confortáveis e grandões. Se você quiser gastar um pouquinho mais, eu sugiro o Behringer HPX2000, mais voltado para monitoramento, tem melhores componentes e faz aquele negócio de você tirar só um fone de uma orelha enquanto trabalha com a outra de forma natural.

Existem muitas outras marcas por aí, algumas bem famosas. Eu só pude recomendar os fones que já usei. Eu sei de vários blogs que revisam fones, mas são gringos e não necessariamente irão corresponder aos que vêm para o mercado brasileiro (ou os preços deles). E, no Brasil, a Arcano tem vários fones de monitoramento que infelizmente eu nunca testei; a Waldman (também brasileira) tem um curiosamente chamado PodStudio HP-1000 mas, novamente, ainda não usei então não posso opinar. Se conhecer esses fones brasileiros, me conta o que acha lá embaixo nos comentários!  

Fotos:
Syed Zaidivanleuven0 de Pixabay
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