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Então você quebrou a maldição dos podcasters: sobreviveu ao quinto episódio sem dar a desculpa “já tão gravados, só falta editar” e ultrapassou a Grande Barreira de Um Ano Fazendo Podcasts (nove de cada dez podcasts não completa um ano. Parabéns!) e, o mais importante, continua empolgado com podcasting porque nunca lançou o amaldiçoado “papo de boteco”, um episódio que, quando o podcast solta, você sabe que ele já morreu, só não foi enterrado ainda.

Agora você quer investir um pouquinho mais no seu podcast. Comprar algum equipamento pra melhorar seu áudio, aprender a usar programas além dos básicos, etc. e andou guardado alguma graninha pra isso. Ótimo! 

Em primeiro lugar, eu preciso dizer que você não precisa de um monte de equipamento pra ser podcaster. Eu literalmente passei os primeiros cinco anos de podcasting gravando no quintal, com dois microfones de R$25 e Audacity. A barreira tecnológica pra se fazer muita coisa hoje baixou pra caramba (veja este vídeo do The Verge). Eu sempre me lembro da Paloma Cipriano do canal Repara Sim no YouTube: hoje ela é um sucesso reconhecido e uma grande capacidade de produção (graças, provavelmente, a seu sucesso), mas começou fazendo seus vídeos de reforma com literalmente uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. 

Só que você agora está levando o passatempo a sério o suficiente para querer gastar algum dinheiro e sair do time do improviso. E aí começa a pesquisar na internet sobre equipamento e descobre que existe um universo de opções. Dá pra ficar completamente perdido, dá pra achar que a coisa não é pra você com as tais das interfaces de áudio firewire de 1,500 Reais e os seis tipos diferentes de microfones de 800 Reais e os mixers e os cabos e os fones de ouvido meldels!

Calma. É por isso que estou escrevendo esta série sobre podcasting.

A primeira coisa que eu recomendo que você compre é um microfone melhor. Ou, quiçá, seu primeiro microfone! Melhorar a qualidade do seu som acaba sendo muito importante graças à diversidade de ambientes em que seus ouvintes ouvem seu show. Muita gente, talvez até a maioria, não ouve podcasts sentados numa sala silenciosa com um par de fones de ouvido da Bose nas orelhas. As pessoas ouvem podcasts pela TV no outro cômodo enquanto lavam louça, em pequenos fones de ouvido de camelô no ônibus, no carro na estrada e com ar condicionado, andando de bicicleta na avenida. Se o áudio que você entrega não for de qualidade, você até vai manter aquele pequeno grupo de ouvintes leais, mas muito ouvinte potencial vai parar de ouvir seu show e procurar outro com o mesmo tema mas com um áudio melhor.

O mínimo necessário para se começar um podcast, em termos de equipamento, é um microfone e um computador (ou um laptop; ou um celular). E a primeira coisa que você vai querer dar um upgrade é no microfone. Existem microfones de marca-referência que custam mais de 950 Reais. Não se assuste. É basicamente marca mesmo. Um Shure SM-58, talvez o microfone mais famoso do mundo, é excelente e muito resistente — pode ser chutado, molhado, levar choque, ser usado como um matelo e provavelmente ainda vai continuar funcionando. Deixe os Shures e os Behringers para os profissionais e para os estúdios que têm dinheiro para gastar. Se você souber o que escolher, um microfone de 70 Reais pode ser ideal pra você.

Foto por Lee Soo hyun no Unsplash.

A primeira coisa que você vai encontrar ao pesquisar microfones para captação de voz (porque há microfones que são feitos para captar instrumentos musicais) é que existem microfones dinâmicos e condensadores. Dá pra passar horas lendo sobre essas e outras diferentes tecnologias (tem link ao final deste artigo caso você se interesse), mas o mínimo que você precisa saber é que condensadores são microfones que requerem corrente elétrica externa para funcionar, alimentados por um mixer ou interface de áudio ou por uma pilha dentro deles. São microfones super-precisos que geram um áudio aveludado e brilhante, mas também são frágeis como o ego de um machista. Se você olhar pra eles muito forte, podem quebrar. Microfones condensadores são usados em ambientes controlados e nunca saem do lugar. Esqueça deles para seu podcast. Não só você vai certamente derrubar ou molhar um microfone de 600 Reais que não precisava ter comprado, mas também vai captar absolutamente toda reverberação no seu ambiente porque eu tenho certeza que onde você grava não é um cômodo desenhado para esse fim: você ainda não encheu suas paredes com rebatedores e abafadores acústicos e provavelmente grava perto da janela que dá direto pra rua ou pra quadra de futebol do condomínio. E um microfone condensador vai. Capturar. Tudinho.

O grande amigo do podcaster é um microfone dinâmico bem austero e robusto, que não vai custar mais que 120 Reais — mas que provavelmente pode ser comprado por 75 Reais. Microfones dinâmicos não são tão frágeis quanto condensadores e não requerem fonte externa de energia para funcionar; eles literalmente operam com a energia da sua voz. Além disso, a não ser que você compre um muito vagabundo, eles são bem construídos e vão agüentar uma ou duas eventuais quedas de cima da mesa.

E não é certeza que o meu microfone favorito seja o melhor pra você, porque nossas vozes certamente são bem diferentes. A audição humana capta freqüências entre 20 e 20,000 Hertz (Hz) mais ou menos. Logo, os fabricantes de microfones concentram a captação do microfone (chamada de resposta de freqüência) entre 20 Hz e 20 kHz. Então essa é a amplitude dos gráficos que você vai achar nas páginas e na documentação de muitos microfones. Via de regra, você não precisa de nada abaixo de 100 Hz (e é onde a freqüência de ventiladores e o ruído distante da rua fica). Mas daí até os quase 20 kHz que microfones captam de som útil, há enormes variações de sensibilidade, e o microfone que elogia mais minha voz pode não ser o ideal pra sua voz. O problema com os microfones mais baratos é que raramente têm um gráfico com sua sensibilidade fácil de achar (ou existente). Checar que números um microfone tem como resposta de frequência, sensibilidade e impedância são importante, claro, mas de nada adianta se você quer comparar dois microfones de preço similar e nenhum deles divulga um gráfico com sua resposta de freqüência. Os microfones mais caros geralmente divulgam. Eles são assim: 

Estes são dois microfones produzidos pela Audio Technica. Muito parecidos, não? O AT2050 já começa a captar bem por volta de 70 Hz e tem dois picos em 4 kHz e 11 kHz, talvez 12 Hz; O AT4050 é um pouquinho melhor nas freqüências baixas e tem dois bons picos em 6 kHz e 12 kHz. As diferenças entre eles são sutis, e vai depender de como você prefere sua voz: você quer um tiquinho mais de graves e bons agudos, ou prefere mais agudos e graves mais delicados? Mas não é só uma questão de preferência em detalhes, porque o primeiro microfone custa R$ 450 e o segundo, R$ 3.500. Uma brutal diferença de preço para uma mínima diferença de captação. 

Qual é o melhor? Para seres humanos normais como eu e você, o microfone de R$3.500 não vai soar lá muito diferente do de 450 Reais. Só mesmo mega-artistas ultra-profissionais iriam discordar. Eles estão gravando álbuns de milhões de dólares. Você vai levar um ano para atingir cem ouvintes.

Por isso é frustrante não ter um gráfico com a curva de resposta de microfones acessíveis como o Tagima TM-584 e o Le Son LS-50. Ambos estão na faixa de 70–80 Reais e se comportam bem diferentes um do outro: o TM-584 é mais brilhante, enquanto que o LS-50 é mais aveludado. Servem pra coisas diferentes, mas como é que vamos saber se nenhum deles divulga sua resposta de freqüência?! 

Eu corri um risco quando precisei comprar um microfone meio que numa emergência uma vez. Não que o vendedor não quisesse que eu testasse o equipamento; muito pelo contrário, ele tinha uma caixa de som e cabo pra eu usar, mas como é que vou ver a qualidade de um microfone numa caixa de som, numa rua movimentada, se quando eu for usá-lo vai ser no meu estúdio acusticamente afinado, com um fone de ouvido de monitoramento? Daquela vez eu dei sorte e comprei um bom microfone, mas foi quase que sem querer.

A lição que quero passar aqui é: preço não determina, necessariamente, qualidade… acima de 70 Reais. Vamos colocar assim. Eu já usei cada microfone vagabundo nessa vida. A partir de 70 Reais (50 em época de promoção ou se for usado), um microfone mais caro não é necessariamente melhor. Nessas horas é que conversar com quem entende também ajuda bastante. Meus dois microfones mais antigos são dois Vokal KL-5. Não são mais produzidos, custaram R$ 42 cada e o corpo é feito de uma borracha que mela depois de algum tempo; o globo parece feito de algodão doce, já tive que trocar duas vezes. Mas esse cara que trabalha com som profissionalmente e que conheço faz tempo, me falou “não perca seu dinheiro com outro microfone pra seus co-apresentadores. Compre Vokal KL-5”. Ele não tem a melhor resposta de freqüência de todas, minha voz sempre fica um pouco embargada com ele e, como já falei, a qualidade dos materiais usados para construí-lo deixa muito a desejar, mas caramba! Consoantes plosivas (o som de explosãozinha de ar que letras como P e B fazem) praticamente não existem com ele, e quase não detecta som de respiração. Custou menos de R$ 50, de todos os meus microfones, só meu condensador TSI C3 de R$ 600 é melhor que ele.

 

Foto por Fernando Lavin no Unsplash.

O que isso tudo quer dizer? Teste seu microfone se puder. Só compre na Internet se a loja ou o site der garantia de devolução (e tiver um bom histórico com isso). Se não tiver jeito e precisar comprar seu microfone sem testar, procure por vídeos em que YouTubers testam eles, preferencialmente comparados com outros microfones. Eu escapei de muita cilada e economizei muito dinheiro ao ver vídeos de testes que me mostraram que eu ia preferir o microfone mais ao invés do mais caro. E desconfie da qualidade do microfone se você não achar ninguém testando ele. Por que ninguém está usando aquele microfone? Aí tem. Passe longe. Agora vamos falar de cabos e onde seu microfone vai se espetar para você poder usá-lo.

Existem pequenas variações com grande diferenças na hora de escolher que cabo seu microfone vai usar pra se ligar ao seu mixer ou à sua interface de áudio (mais sobre esses aí em outro texto). Do lado do microfone em si, você vai ver uma entrada parecida com uma tomada redonda, com três pinos. Essa é uma conexão Cannon (nada a ver com a câmera fotográfica) mais comumente chamada de XLR. Na outra ponta desse cabo, a conexão pode ser XLR também, ou ¼”. A conexão ¼” (um quarto de polegada) também é conhecida, particularmente no Brasil, como P10. Mais raramente, como 6.35 mm. Eu vou usar ¼” neste texto porque não parece que nenhum país língua inglesa (a língua da Internet) use P10, mas é algo que você tem que saber quando for comprar cabos e plugues na sua loja de som do bairro.

A diferença é que um cabo XLR nas duas pontas é sempre, necessariamente, balanceado. Ou seja, ele carrega dois sinais, um invertido em relação ao outro, que são unidos na interface de áudio/mixer/computador/etc. Como o eventual ruído que esse cabo detectar existe nos dois sinais, ele é anulado, balanceando o sinal. Já o plugue ¼” pode ser balanceado ou não-balanceado. Você conhece plugues ¼”, eles são a coisa mais comum no mundo da música e da telefonia. O plugue balanceado tem duas bandas pretas e o plugue não-balanceado tem uma banda preta. Essa faixinha preta separa das diferentes conexões que o cabo tem. O plugue não-balanceado também é chamado de TS (tip-sleeve) porque tem um contato, a ponta (tip). Já o plugue balanceado é TRS (tip-ring-sleeve) porque ele tem dois contatos, a ponta (tip) e o anel (ring, a banda de metal entre as duas faixas pretas). Existem também plugues TRRS (tip-ring-ring-sleeve) ou até TRRRS, mas você vai encontrá-los mais comumente no formato de 3.5 mm (P2 no Brasil) em fones de ouvido de celulares.

Ilustração da Wikipedia sobre phone connecto (audio)

Foto da Wikipedia com plugues XLR fêmea e macho

Acima, temos uma ilustração da Wikipédia com os dois plugues de ¼” mais comuns, TRS (acima) e TS (abaixo). A legenda diz: 1. Sleeve (geralmente o terra); 2. Ring: Geralmente o canal de polaridade negativa ou linha de energia; também é o sinal stereo em cabos stereo. 3. Tip: Sinal de polaridade positiva ou sinal de linha (para conexões mono); sinal da esquerda em cabos stereo. 4. Anéis de isolamento.

Cabos XLR-XLR são mais caros mas tendem a ser um pouco melhores. Também são os cabos que você deve usar para microfones condensadores, que precisam de energia (chamada de phantom power). Cabos XLR-¼” são mais baratos eu tendo a usar sempre XLR-XLR para meus microfones. Além de serem de melhor qualidade, são mais comumente “blindados” e eu não tenho que pensar que cabo tá indo pra onde ao trocar um microfone condensador por um dinâmico. Quase todo microfone que você comprar vai vir com um cabo XLR-¼ meio vagabundo, mas que vai quebrar seu galho por talvez anos e anos. 

Ah, é. “Blindagem” é um tipo de isolamento extra colocado dentro do cabo. Pense assim: cabos com fios de metal dentro são basicamente antenas; você vai invariavelmente captar ruído ambiente gerado pelo planeta ao seu redor e, quanto mais longo for seu cabo, mais changes ele vai ter de capturar freqüências que aparecerão como ruído no sinal. Faça esse teste! Espete um microfone numa interface de áudio com um cabo de 1 metro e depois com um cabo, da mesma marca e qualidade, de 10 metros. Por isso cabos balanceados (XLR são necessariamente balanceados) são melhores. Veja este vídeo para entender melhor. Ou este vídeo aqui.

Agora você vai ter que decidir se esse cabo/microfone combo vai entrar num mixer ou numa interface de áudio. No próximo texto, semana que vem.

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