«Texto anterior: Fones de Ouvido.

Existe um enorme argumento  a ser feito a favor de hardware contra software para gravar o melhor áudio possível. Eu certamente acho que ter um equipamento que fica fisicamente entre seu microfone e o sinal digital que vai ser criado no seu computador gera melhores resultados. Só que a diferença de qualidade é sutil e o preço… é proibitivo. Então vamos falar de software.

Você já deve ter visto um rack desses aí do lado, com uma mesa de som enorme e um monte de extras empilhados, cheios de botões, chaves e luzinhas. Antigamente era o único jeito de tratar seu áudio. Hoje tudo existe como plug-in, e a diferença vai ser ouvida apenas pelos audiófilos com orelhas de ouro.

Tá, não é tanto assim, mas a diferença de preço mais que vale a pena.

Foto por Anton Ponomarev via Unsplash

Hoje em dia, você consegue cada pecinha de equipamento que, por décadas, bandas e programas de rádio precisavam encher uma sala pra reproduzir, no seu computador. Com isso, as únicas coisas essenciais que você precisas são um microfone razoável, ligado a uma interface de áudio, ligada ao seu computador. No seu computador (laptop, desktop, tablet) você vai capturar seu áudio numa Digital Audio Workstation (DAW). Existem inúmeras DAW por aí, para todos os gostos e com etiquetas de preço de todos os tamanhos. Eu desconfio que a maioria dos podcasters começa com o Audacity, uma DAW gratuita, cheio de recursos e mantido por uma comunidade de usuários. Se você usa um Mac ou um iPad, o GarageBand é mais voltado para música, mas é ótimo, intuitivo e é de graça. Sem falar que sua interface de áudio pode ter lhe dado uma DAW gratuitamente ao registrá-la no website deles (veja sua documentação!). É na DAW que você vai capturar o som do seus microfones, acrescentar músicas de abertura, efeitos especiais, recados gravados depois, etc. e, por fim, exportar seu podcast como mp3 (ou m4a, se você for chique) e mandar para o mundo afora.

E é também na DAW que você vai inevitavelmente melhorar seu áudio. 

Você agora está de frente à sua gravação crua. Pode ser um único sinal mono para seu podcast solo, podem ser várias gravações em faixas separadas suas e de três co-apresentadores, ou pode ser um misto de gente que gravou com você, usando seu equipamento e um ou dois convidados via Skype, Zencastr ou Cast. Talvez, por meses, só essa gravação bruta era o suficiente para seu podcast, mas quanto mais shows você ouve, mais óbvio fica que os outros podcasts têm algo que o seu não tem. Um certo tsuj, um je ne sais quoi. O editor do podcast está usando plug-ins para deixar o áudio melhor e você começou a notar. Parabéns, você ja pode se considerar um podcaster!

Os plug-ins mais comuns geralmente já vêm instalados nas DAW. Pode ser que alguém desenvolva um melhor e diferente do padrão daquela DAW, mas é o tipo de coisa que você descobre freqüentando fóruns e blogs de engenheiros de som e músicos amadores que gravam em seus home studios. Via de regra, você vai conseguir trabalhar razoavelmente bem com os plug-ins nativos da sua DAW.

A primeira coisa que você vai querer fazer com o áudio do seu futuro episódio é passar um low pass. Também chamado de noise gate em algumas DAW, vou usar low pass porque o noise gate é mais um aplicativo ou hardware que você ativa durante a gravação. O filtro low pass é para depois da gravação, mas a função de ambos é a mesma: matar quaisquer freqüências abaixo de um determinado limiar. Sua gravação pode ter um ruidinho de fundo, um white noise, oscilação elétrica ou algum microfone pode estar captando o tráfego da rua super-baixinho. Então você filtra com low pass determinando a partir de que ponto o filtro vai deixar o áudio passar. Aí depende de você: -60 dB FS, -40 db FS… procure por uma área sem som no seu áudio e dê uma olhada bem de perto. Alguns plug-ins de low pass podem analizar seu áudio e sugerir um nível, mas se você grava sempre no mesmo ambiente, vai acabar deixando o low pass configurado sempre do mesmo jeito.

(Se quer saber o que é esse tal de dB FS que eu usei, veja este ótimo vídeo de um engenheiro de som de Hollywood.) 

Foto por Bruno Araujo via Unsplash

Importante notar que o low pass ou noise gate vai eliminar ruídos onde não há sons mais altos. O ruído de fundo vai aparecer nos momentos em que alguém está falando.

Com o áudio limpo, você agora precisa nivelá-lo usando um compressor. Basicamente, esse plug-in pega as partes mais intensas do seu áudio e as suaviza, conforme as configurações que você inseriu, de modo que seu áudio todo soe com mais ou menos o mesmo volume. Existem todos os tipos de compressor por aí e a sua DAW certamente tem um. Eles podem ser ferramentas complicadinhas e cheias de opções, então veja alguns tutoriais na internet para se acostumar. Novamente, o Alex Knickerboker tem um excelente tutorial pra isso e para os outros plug-ins que vou citar mais abaixo.

Por último, você vai normalizar o áudio. O compressor provavelmente derrubou bem o volume das suas faixas, então um plug-in de normalize irá basicamente aumentar o volume de volta. Alguns lhe dão uma simples opção de até onde em dB FS eles devem ir; outros dão algumas outras opções, como amplitude média ao invés de pico. Via de regra, você nunca vai querer o som a 0 db FS: deixe sempre uma margem de -3, -6 ou -9 dB FS.

De bônus, se seu DAW tiver equalizadores (EQ), você pode ajustar a voz de cada participante de modo a fazê-la mais presente, menos sibilante, mais brilhante ou mais quente, etc. (tem um monte de adjetivo engraçado quando se fala de som). É o tipo de coisa que você vai fazer se estiver com cada voz num canal separado, não com todos juntos na mesma faixa. Dá pra ficar horas num EQ até achar aquele ajuste perfeito. Este aqui é um ótimo e curto tutorial. Este outro aqui fala de um plug-in específico mas as dicas são universais. Existem muitas outra ferramentas que você vai notar em sua DAW; DeEsser, Hi Pass, Limiter, Enveloper, De Clicker, Multipressor… procure por um tutorial na internet e divirta-se! Muitas dessas ferramentas podem te ajudar a ter um som melhor, mas sempre tenha uma coisa importantíssima em mente: você consegue melhorar uma boa gravação, mas não dá pra consertar uma gravação ruim. Tente capturar o melhor áudio que seu ambiente e seu equipamento conseguem lhe oferecer.

Foto por Sašo Tušar via Unsplash

Foto do cabeçalho: James Owen via Unsplash