Eu sinto que estou abadonando RPGs em favor de jogos de tabuleiro. Pronto, falei.

Vem acontecendo gradativamente desde 2011. Em 2010 eu conheci um cara que constantemente viajava para a Europa e toda vez trazia uma mala cheia de jogos de tabuleiro. Eu sabia que no exterior as coisas eram bem diferentes daqui, onde praticamente só se produz os mesmos seis jogos da Hasbro ad nauseum. Mas saber e ver são duas coisas bem diferentes. Por um breve período, a Grow produziu jogos de autores nacionais e traduziu jogos hoje clássicos no exterior, como Contatos Cósmicos (Cosmic Encounter), Diplomacia (Diplomacy) ou Cartel (Acquire). Mas pouca gente tinha esses jogos. Quem tinha, tinha os de sempre: Banco Imobiliário (que eu nunca gostei), War, Jogo da Vida, Detetive e Scotland Yard.

Jogar board games está sendo um retorno às origens para mim, pra falar a verdade. Tendo passado os primeiros 15 anos da minha vida em cidades pequenas, eu tinha duas alternativas: ficar em casa jogando videogames ou ir para a praça (é, cidade pequena tem só uma, então é “a” praça) e participar de um ridículo ritual de ver e ser visto. Eu ficava em casa. Como dois dos meus três irmãos são de idade bem próxima à minha, acabávamos alternando entre videogames e jogos de tabuleiro. Quando o D&D e o HeroQuest apareceram por aqui nos anos 1990, descobrimos uns dois ou três amigos que também preferiam ir para a casa de alguém e jogar ao invés de ficar rodando em volta de uma praça feito Lemmings, cheia de gente desinteressante com suas caixas de som mais caras que seus carros, tocando música sertaneja.

© 2010 Cyril Van Der Haegen

D&D, HeroQuest e Classic Dungeon naturalmente nos levaram ao AD&D, GURPS, Tagmar, Vampiro, Lobisomem, WitchCraft… o resto é história.

Chegamos a 2011, em que a tempestade perfeita de internet, dólar barato e estável e um bom salário me permitiram redescobrir jogos de tabuleiro. Botei as mãos em clássicos virtualmente desconhecidos por aqui e descobri muita gente à minha volta que não se importa com RPGs mas adora jogos de tabuleiro. Esse é, de fato, um dos motivos de eu encerrar o podcast Vozes da Terceira Terra no número 200: quase não tenho jogado RPGs, mas tenho jogado muito board game. Eu poderia simplesmente continuar fazendo o que estou fazendo hoje, alternando conversas sobre RPG com conversas sobre jogos de tabuleiro ou qualquer outra coisa (até um episódio sobre livros já fiz), mas esse é não o Vozes. O VTT é um show sobre RPG, de GM para GM. Como não estou mestrando muito, não tenho mais assunto. Então o show precisa acabar enquanto está por cima. Ano que vem, estrearei outro show, com outro nome, no YouTube, para falar sobre jogos de tabuleiro. Se for para falar de outra coisa, prefiro criar outro podcast para isso (aguardem um show sobre livros de ficção especulativa!)

Evolution___a_bored_game_by_8025glome

© 2009 Rodney

Eu ainda jogo RPGs, especialmente jogos cult como Unhallowed Metropolis e CtulhuTech, mas Puerto Rico, RuneWars, Pirate Dice, Glory to Rome e outros acumulam muito mais quilometragem na minha mesa de jantar que qualquer RPG. Não me entenda mal: um cenário de Call of Cthulhu e uma partida de Elder Sign são experiências bem distintas, mas RPG toma tempo. Tempo para preparar, arrumar tudo, horas e horas de jogo propriamente dito para se alcançar o clímax. Por outro lado, posso abrir a caixa do Witch of Salem cinco minutos antes do pessoal chegar, jogar duas partidas na mesma noite e ainda mais dois outros jogos antes da noite acabar. Jogos de tabuleiro dão mais retorno por menos investimento da minha parte. Eu acabo jogando RPG uma vez por mês (se muito), mas eu e mulher jogamos uma partida de algum jogo noite sim, noite não, e sempre recebemos um ou outro casal todo fim-de-semana para jogar. Quando visito os sogros no sul do estado, há uma audiência bem maior para Forbidden Island ou Shadow Hunters que para Dragon Age RPG ou Savage Worlds — é mais fácil vender a idéia de jogos de tabuleiro para os primos, sobrinhos e irmãs da minha mulher. São jogos mais democráticos.

Ainda assim, uma vez por mês eu tenho uma sessão de algum RPG obscuro para dois ou três amigos, tarde da noite, num lugar quieto, distante e reservado. Mas se hoje é noite de jogo, provavelmente vai rolar Colonizadores de Catan, Carcassonne ou Dungeon Lords.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

Facebook Twitter Google+ Flickr Vimeo Skype  

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE
%d blogueiros gostam disto: