Uma das coisas mais deprimentes (dentre as inúmeras coisas deprimentes) sobre a cultura brasileira é o fervor quase religioso que este povinho tem de preferir ficar sentado esperando alguém agir que tomar as rédeas da própria vida.

© 2012 Thomas Hartnett

© 2012 Thomas Hartnett

Essa preferência por esperar cair do céu me acerta na cara toda vez que eu leio ou ouço sobre a provável tradução de algum livro de RPG para a língua portuguesa, que é quando sempre se ouve coisas como “finalmente!” ou “até que enfim esse jogo no Brasil!” ou “os brasileiros finalmente irão jogar esse jogo!”. Especialmente quando, na era atual das coisas, estamos falando de PDF — ou seja, nem há o empecilho (er… desculpa esfarrapada) de que o cidadão nunca jogou o tal jogo famoso porque não consegue comprar de lojas no exterior, não tem cartão internacional ou não confia em compras na Internet, porque hoje em dia acho que só a Wizards of the Coast não produz e vende PDFs de seus RPGs. Aí a produção de um PDF traduzido de qualquer joguinho é visto como maná.

É mais fácil aguardar intervenção divina (ou melhor: cair no colo), é preferível orar para os deuses da tradução do que se matricular num curso de férias numa escola de inglês, em que se aprende em um mês o equivalente a um semestre inteiro. Ou será que é só aqui onde moro que há uma escola de inglês por esquina, enquanto que no resto do país escolas de inglês são na verdade proibidas, com a polícia militar rotineiramente arrebentando “bocas de estudo” e prendendo todo mundo?

Por essas e outras voltei a investir na minha carreira acadêmica e, quando pegar o avião para fora desta Esbórnia pela última vez, não vou nem olhar para trás.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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