A prática esportiva acompanha a humanidade há muito tempo. Temos referências a esportes que perpassam séculos, aparecendo em vasos gregos, mosaicos romanos ou imagens provenientes do oriente. É certo que o homem pratica esportes para as mais diversas finalidades (preparação para suas funções adultas, preparação física ou simplesmente como diversão) há quase tanto tempo quanto somos capazes de imaginar. Sendo essa uma prática tão antiga quanto a humanidade, ela também mudou e se adaptou ao seu tempo, de forma que cada tempo teve seus próprios jogos e formas de divertimento, e é claro que a Idade Média não foi diferentes neste quesito.

Como praticamente tudo durante o medievo, as práticas esportivas estavam divididas de acordo com classe social e funções, e quase todas elas eram mal vistas, proibidas ou repreendidas pela Igreja. Mesmo assim a grande maioria destas práticas se manteve durante toda a Idade Média.

Foto por Kaja

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Os camponeses

Sendo uma sociedade essencialmente agrária, diferentemente do que se imagina, haviam longos períodos de inatividade, quando o serviço nos campos estava feito e não haviam outras demandas urgentes para prender a atenção do campesinato. Nestes momentos, é claro que haveriam jogos de toda a sorte. É praticamente impossível fazer uma lista completa (inclusive porque não sei se já foi feito um levantamento em documentos históricos para ver quais e quantas são as referências aos jogos dos camponeses) mas creio que podemos levantar alguns dos tipos mais comuns.

Os jogos de bola, alguns dos quais justamente ancestrais do futebol moderno, eram amplamente praticados nas cidades e vilas medievais, sendo que talvez estas práticas datassem de períodos ainda mais antigos. Aparentemente os celtas tinham jogos com bola e tanto romanos quanto gregos conheciam jogos que usavam bolas, respectivamente o harpastum romano e phaininda e episkyros gregos. Esse “futebol” era bastante diferente de sua contraparte contemporânea: não haviam quantidades máximas de jogadores (em alguns lugares na várzea essa regara ainda persiste), aparentemente era permitido carregar a bola tanto com os pés quanto com as mãos e praticamente tudo era permitido no intuito de evitar que os adversários avançassem com a bola em direção ao “gol”, que normalmente era a porta da igreja da paróquia adversária. Normalmente se usava uma bexiga de porco inflada como bola, algumas vezes reforçada externamente com couro.

Esses jogos podiam ser disputados entre paróquias de uma mesma cidade ou entre paróquias de vilas próximas e tudo em seu caminho era considerado “campo de jogo”. Desta forma, muita destruição advinha destes jogos, tanto de construções como dos ferimentos sofridos. Uma das poucas imagens do jogo de bola medieval mostra justamente um homem com o braço quebrado. Apesar do jogo em si ter sumido com o passar do tempo, ele de alguma forma sobreviveu no calcio storico fiorentino, jogado anualmente na cidade de Florença. Desta forma, pode-se supor que aparentemente o jogo não era bem quisto entre as hierarquias dominantes e existem relatos de tentativa de coibir sua prática durante toda a Idade Média. É provável também que as poucas referências que restaram sejam também uma consequência deste repúdio.

O futebol medieval não era o único esporte praticado com bola durante a Idade Média. Jogos como o Hurling, no qual se usa um bastão para levar uma bola até um gol, de forma até bem parecida com o hóquei, e diversas formas de caid, esportes com bola semelhantes ao rugby, eram praticados na Europa. Os dois exemplos aqui citados também são originários da Irlanda.

Outro tipo de prática esportiva, esta típica da Bretanha, era o arco e flecha. Sabe-se que os galeses atiravam com o arco longo há muito tempo, porém é apenas após o início da Guerra dos 100 anos que, através de um decreto real, todos os camponeses foram obrigados a praticar uma hora ao menos, após a missa de domingo. Desta forma o antigo esporte galês se tornou uma preparação lenta para os futuros recrutas que um dia comporiam os exércitos ingleses. O fato é que tal prática se arraigou tanto na cultura da Bretanha que até hoje existem grupos dedicados ao arco longo, ainda que não mais com seu caráter militar, sendo praticado apenas como um esporte.

A nobreza

Os esportes conhecidos da nobreza eram, em sua maioria, dedicados a um fim bem específico: a preparação para a guerra. Desta forma, desde relativamente jovens, por volta dos 7 anos, os garotos começavam a ser preparados para o que um dia seria seu “ofício”. Os principais “esportes” praticados pela nobreza eram a caça, a justa e o torneio.

A caça

Caçar era um dos esportes prediletos da nobreza e sua função ainda é discutida, mas com certeza ia muito além do simples ato de por comida à mesa. O nobre aprendia e treinava durante a caçada diversas habilidades, como a montaria, a utilização das armas e até mesmo o ato de matar, que depois lhe seriam úteis no campo de batalha. Porém existem alguns historiadores que acreditam que uma das principais funções da caça era criar uma unidade maior entre os guerreiros. Como os caçadores normalmente estavam montados e agiam em grupos (diferente da caça esportiva moderna e mais semelhante à perseguição à raposa inglesa) era importante a sincronia entre os caçadores, que deviam agir em grupo. Desta forma, sugere-se que os laços de amizade e camaradagem se estreitavam e ajudavam a criar um organismo mais funcional durante o calor do combate.

Foto por Mark Greenmantle

Foto por Mark Greenmantle

A justa

A justa, diferente do que se imagina, é um produto sobretudo do fim da Idade Média, apesar de existirem versões de combates a cavalo desde muito tempo. É só nos século XIV e adiante que a justa começa a tomar a forma que normalmente vemos nos filmes. Esse tipo de competição se caracteriza por ser disputado entre dois cavaleiros, invariavelmente montados, que dentro de um espaço controlado tentam derrubar um ao outro com uma lança especial. Desta forma, a justa não é tão “realista” na sua função de preparar o futuro cavaleiro para a guerra. Outro aspecto que também ajudou a distanciar cada vez mais a justa da sua função primariamente militar foi a evolução das armaduras, que à partir do século XV começaram a ser produzidas especificamente para este tipo de competição e que seriam inúteis num campo de batalha. Para se ter uma idéia, há um exemplar de uma armadura do século XV, especificamente criada para a justa, que pesa aproximadamente 50 kg (uma armadura usada no campo de batalha normalmente pesava algo em torno de 30 kg) na qual o elmo fica diretamente preso no peitoral, de forma que o cavaleiro, além de incapaz de olhar para os lados, não é sequer capaz de se vestir sozinho.

O torneio

Comumente agrupados sob o nome genérico de torneio estavam uma grande quantidade de tipos diferentes de combate. Tanto a justa quanto formas diversas de combate à pé estavam presentes. Haviam também outros tipos de combate à cavalo também. Por exemplo, no século XV um dos tipos mais comuns era um combate usando “maças” de madeira. Há boas imagens no tratado de Renè D’Anjou sobre torneios. Porém, um dos tipos mais interessantes desses torneios eram representações de combates “reais”, em que se formavam dois grandes grupos de combatentes, normalmente seguindo as afinidades pré-existentes. Esses combates se desenrolavam em campos enormes, algumas vezes agregando até mesmo pequenas vilas no seus espaços e algumas vezes duravam até alguns dias. Essas competições eram tão próximas ao combate real que entre as “regras” estava a possibilidade de se fazerem reféns e obterem resgates dos participantes. A idéia era realmente uma representação da guerra do período.

E na mesa de jogo

Quando pensamos numa mesa de RPG medieval, a imagem mais corrente do que era o esporte do período quase sempre é a da justa, facilmente explicável pela grande quantidade de filmes medievais ou de fantasia que fazem referência a elas, e não tem nada de errado com esta opção. Mas podemos aumentar a imersão, tanto no mundo dos nobres, quanto da grande maioria do povo (que dependendo do cenário e dos personagens é onde estes estarão mais inclusos). Um jogo de bola no qual os participantes sejam os próprios personagens dos jogadores e estes se vejam obrigados a fazerem testes que diferem dos testes de combate podem ser tão ou mais interessantes para eles do que colocá-los numa justa.

Da mesma forma, esses esportes, ou ao menos os eventos ao redor deles, podem ser ótimos momentos para a inclusão de ganchos diversos que podem dar outro teor à narrativa da aventura. Além de serem ótimos para incluir personagens dos mais diversos tipos, a cena onde Sor Loras entra nas liças para enfrentar a Montanha que Cavalga diz mais sobre a personalidade dele do que se ele fosse apresentado em outro momento da história. Esse mesmo artifício pode ser usado de muitas formas. Podemos, por exemplo, usar uma partida de hurling para apresentar aquele personagem fortão e meio burro que pode ajudar ou atrapalhar o grupo; Um torneio pode apresentar aquele cavaleiro misterioso que se sai bem em todas as provas (quiçá ele não pode, inclusive, ser uma mulher disfarçada…). A idéia por trás de todos os exemplos é mostrar pelo menos parcialmente as habilidades dos personagens em questão sem cairmos numa simples enumeração do que temos na ficha do personagem.

O esporte é uma extensão do que é o homem, seja apenas para divertir ou para preparar para alguma finalidade (normalmente a guerra) nós praticamos esportes a milênios, e com certeza não deixar esta faceta da nossa realidade do lado de fora dos nosso jogos é uma ótima ferramenta para torná-los mais interessantes e vívidos.

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