@ 2012 Sarafiel

@ 2012 Sarafiel

Muitas vezes vejo jogadores (incluo aqui mestres e jogadores) em discussões calorosas sobre se um sistema de RPG é melhor do que outro. Essas opiniões também são vistas em muitos artigos, principalmente naqueles que o autor quer criar uma nova proposta de jogo para aquele sistema, e quase sempre dizendo que a forma dele é melhor. Mas a pergunta que eu sempre faço quando vejo esse tipo de assunto é: será que eles estão jogando o estilo de sistema adequado ao seus gostos?

Primeiramente, todo sistema é concebido com o objetivo de modelar o mundo para que a ação dos personagens nesse mundo possuam uma coerência, tendo verossimilhança ou que tenha uma suspensão de descrença compatível a história a ser contada. Veja bem, não estou colocando aqui coerência lógica, pois isso carateriza apenas um nicho de sistemas que são mais de caráter simulatório. Falar que “é lógico as pessoas não saberem voar” somente irá ser verdade em um jogo em que esse fato é definido como parte da realidade do jogo.

Muitos jogadores iniciantes normalmente começam a jogar atraídos pelo cenário em si e raramente pelo sistema em que irão jogar. Contudo, jogando por algum tempo, sempre um ou outro adora o sistema e outros já começam a achar problemas e se sentirem insatisfeitos. Analisando algumas discussões em que eu estive ou sobre as quais li, eu modelei dois extremos em que as pessoas se enquadram no meio deles, uns puxando mais para um lado, outros para o outro. Esses extremos são o caráter simulatório do sistema e o caráter ficcional.

Jogadores que puxam para o caráter simulatório são aqueles que normalmente gostam de balanço, realismo e determinismo no sistema. Para eles, é muito ruim as coisas não terem definição nas regras pois se sentem perdidos ou detestam o desbalanço que as ações podem ter. Frases como “cadê a regra de cavar com a pá na mão direita para eu criar essa armadilha de 3×3 metros” tem muita significância pois isso afetaria por exemplo o tempo para construir a armadilha e o tamanho da criatura a ser capturada. Além disso, tendem a gostar mais de uma análise tática de situações, o que requere uma perfeita definição de como as coisas são.

© 2007 namesjames

© 2007 namesjames

Na outra extremidade, temos jogadores que puxam mais para o caráter ficcional do jogo. Eles normalmente preferem que o jogo seja aberto a possibilidades e decisões. Que as regras sejam mais orientadas a direcionar a ficção, sem a necessidade aparente de um balanço ou determinismo nas coisas. A frase acima seria mais um “vou cavar ali uma armadilha”; como seria apenas caso fosse importante para a cena. Jogadores ficcionais detestam quando um sistema diz que não pode fazer só porque não está mapeado em suas regras.

Quando você joga num sistema tipo D&D ou GURPS, cheio de regras e definições e você é um jogador mais ficcional, sua tendência é sempre achar que o sistema poderia ser menos burocrático ou que é muito lento. Em contrapartida, um jogador de D&D pode se sentir perdido ao jogar um jogo de Storyteller, pois as regras são muito vagas e cheias de interpretações. Essa situação quase sempre acarreta no clássico sistema proprietário em que são feitos ajustes no sistema ou até um sistema inteiramente novo para atender os desejos. Isso é bom pois é a base da regra de ouro do RPG, mas as vezes é desnecessário pois consome tempo e quebram a dinâmica para qual o sistema foi criado, gerando mais problemas.

O que fazer então?

Para aqueles que só conhecem um sistema ou poucos sistemas do mesmo estilo, procurem outros que atendam mais suas expectativas. O sistema tem de auxiliar você a contar a história do grupo e não ser um entrave. Cada sistema tem sua filosofia e seu enfoque, e isso tem de estar de acordo com o seu tipo de diversão. Se você gosta de não se preocupar muito com as regras ou que elas sejam mais leves e abstratas, procure sistemas mais ficcionais como o Apocalypse Engine. Se você gosta de sistemas realistas e cheio de regras que definem e balanceiam o mundo, onde a tática é sua diversão, d20 ou GURPS são mais recomendados.

O que eu escrevo aqui é mais uma experiência das observações desses longos anos como jogador; já passei pelo dilema de estar jogando um sistema que não atendia minhas expectativas, mas gostava do cenário e vivia frustrado pois sempre tinha uma sensação de ter faltado algo.

Espero que tenham gostado do artigo e que essas experiências os guiem para aventuras mais divertidas.

Ícaro Clever

Um crítico que não se conforma com o como sem saber o porquê. Um filósofo que tenta expandir o abstrato e definir o concreto. Adora desbravar e degustar cenários e sistemas diferentes; sempre em busca de ganhar mais XP.

Facebook Twitter Skype 

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE
%d blogueiros gostam disto: