A 4e é uma edição moribunda, mas eu acho que esta minha opinião aqui ainda é pertinente, porque pode acontecer na próxima edição do Dungeons & Dragons.

A grande reclamação dos detratores da 4e, e também de muitos de seus amantes, é a falta de “fluff”, ou seja, a quantidade relativamente pequena de informações que não sejam estatisticamente relevantes, como dano, ataque, tamanho e alinhamento — a essas informações estatísticas damos o nome de “crunch”.

Para descobrir se, de fato, os livros da quarta edição do D&D têm pouco “fluff”, precisamos primeiro determinar o que é (ou melhor, quanto é) “fluff” o suficiente. Por isso a cuidadosa inserção da palavra “relativamente” no parágrafo anterior.

Vamos pegar apenas os primeiros livros da atual edição para comparar. Digamos… os livros lançados no primeiro ano, entre Maio e Dezembro de 2008. Esqueçamos a existência de livros posteriores, como Primal Power ou Threats of the Nentir Vale, porque esses produtos já são uma reposta da editora à crítica de que eles estavam lançando itens com pouco “fluff”. Portanto, vamos nos ater aos livros que, a priori, provocaram as reclamações: livros como Martial Power, Player’s Handbook e, obviamente, Monster Manual. Deste último podemos pegar um exemplo aleatório — e escolhi o troll, pois foi um monstro sobre o qual achar informações em livros e revistas antigas se mostrou fácil.

Precisamos de um método de comparação direta do “fluff” para prosseguir com este argumento. Uma análise qualitativa irá, invariavelmente, cair no juízo de valor, no gosto, no entendimento do que é bom “fluff”, então teremos que utilizar algum método quantitativo. Como número de parágrafos ou de linhas sempre será relativo ao layout de cada livro, usaremos quantidade de palavras por entrada (i.e. por texto de monstro). Obviamente, iremos ignorar o texto organizado em forma de bloco ou tabela que traz dados estatísticos e numéricos, mas incluiremos na contagem a área de texto em forma de prosa, com parágrafos e sentenças, mesmo que neles haja informação estatística, como magias que o monstro sabe ou táticas de combate. Podemos afirmar com segurança que é essa porção de texto que se entende como “fluff” na entrada de um monstro.

O troll tem 998 palavras sobre ele no Monstrous Manual da segunda edição do AD&D, incluindo combate, habitat/sociedade e ecologia, e excluindo os parágrafos sobre o Giant Two-Headed troll e os dos trolls aquáticos. O troll também aparece na edição revisada do Monster Manual do D&D, de 2003, com 306 palavras, não incluindo o Scrag nem o Troll Hunter — praticamente um terço da quantidade de “fluff” da edição anterior. Já no Monster Manual quarta edição do mesmo jogo, de 2008, o troll conta com 395 palavras em suas duas páginas (excluindo-se os parágrafos sobre as táticas do Fell Troll e o War Troll, e incluindo-se o parágrafo Encounter Groups, mas sem a lista de monstros por nível de encontro). Quase 30% a mais que a 3ª. edição. Aqui já derrubamos o mito de que a 3e tinha mais “fluff” que a 4e tem. Mas eu tergiverso, este é apenas um exemplo pontual. Provavelmente há monstros com muito mais texto no Monster Manual da 3e que em sua contra-parte de 2008.

© 2008 Devon Cady-Lee (via DeviantArt)

Agora, se me permitem, preciso chegar à moral da história deste texto. Um jogador ou jogadora de Dungeons & Dragons irá reclamar que os livros da 4e vêm com pouco “fluff” porque eles conhecem — e provavelmente possuem — material da edição anterior, muitas vezes mais de uma edição (A revista Dragon nr. 301, de 2002, traz uma matéria, Ecology of the Troll, com seis páginas de puro “fluff”, exceto por uma tabela de evolução de personagem na segunda metade da última página). “Fluff” não depende, e possui pouca influência, no “crunch”. Informações como hábitos alimentares, padrão de reprodução e organização social existem e são úteis independentemente de dados estatísticos como ataque, dano e resistências. Mesmo informações como táticas de combate e tipo de tesouro que a criatura acumula têm apenas influência tangencial do (e no) “crunch”. Portanto, a pessoa que está apontando a falta de “fluff” nos livros da atual edição já têm acesso a esse “fluff” — afinal, se está apontando essa diferença é porque possuiu o material necessário para comparar, ou seja, algum livro de alguma edição anterior. Em outras palavras, ele ou ela não precisa de “fluff” nos livros novos. E quanto ao jogador ou jogadora que não tem acesso aos livros de antigas edições, que não jogou ou não conheceu o AD&D e seus inúmeros suplementos? O jogador que é novo e acabou de chegar no passatempo, que conhece apenas o material da 4e? Ele não tem a base necessária para reclamar da pequena quantidade de informação sobre os hábitos alimentares do monstro em seu livro, porque não sabe que em algum outro lugar, no passado, havia mais. Essa informação só pode estar vindo de um veterano… que já tem acesso a esse “fluff” e não precisa dele!

Hora de derrubar o vernáculo pseudo-acadêmico e ser direto: a culpa é dos veteranos, que reclamam de barriga cheia e que influenciam injustificadamente os novatos. Eu sou um veterano, jogo esse jogo há praticamente vinte anos, e acumulei uma quantidade modesta de material antigo ao longo desses anos. Porém, quando, por exemplo, eu montei um encontro para meu jogo de 4e com gray trolls eu fui ao meu material antigo para determinar como seria o formato da caverna, como agiriam esses trolls e o que os jogadores encontrariam no covil depois de despacharem os monstros. Eu só fui no material da 4e na hora de pegar as estatísticas de combate das criaturas — e para isso eu usei o Compendium, onde peguei a ficha do Cave Troll Mangler, que se adequava ao nível do encontro. Eu fiz uso de um “fluff” que eu já tinha e já conhecia — tão bem que fui direto onde havia informação sobre gray trolls (a edição 199 da Dragon, de 1993, que contém a absurda quantidade de 4 347 palavras sobre trolls e dessas, 835 apenas sobre o gray troll).

Quem começou a jogar em 2008 com a quarta edição, e em especial aqueles que entraram no jogo graças aos esforços da editora com a linha Essentials, de 2010, não precisam conhecer o Dragon’s Bestiary sobre gray trolls ou fire trolls, ou a Ecology of the Troll e serem informados sobre o Savage Claw — a informação que eles desconhecem não faz a menor diferença para eles, do mesmo modo que a informação sobre trolls em algum livro obscuro de Kingdoms of Kalamar que eu nunca vi não me faz diferença.

Portanto, veteranos grognards fãs do Monte Cook, parem de cagar no meu jogo.


Agradecimentos a Rafael Bezerra e Rubens Padoveze pela contagem de palavras nos livros da 3e.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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