Antes do advento da fotografia, o único jeito de se ter uma imagem da sua família era contratanto um pintor e posando para ele por horas e horas. Desnecessário dizer que saía caro — por isso hoje temos muito mais pinturas de reis e imagens sacras: quem tinha dinheiro para pagar pelo trabalho (e pelo tempo) de um artista eram nobres e altos membros do clero.

Popularizada, a fotografia permitiu que qualquer um tivesse imagens de si (ou de qualquer coisa, realmente) nas paredes de sua casa. E também forçou a arte da pintura para além da reprodução realista do que se vê para diversas formas de arte e expressão. Não é coincidência que os “movimentos” na pintura (cubismo, impressionismo, esteticismo, dadaísmo, etc.) são pós-fotografia.

Um movimento, porém, é relativamente recente: o fotorrealismo. Uma forma de arte tipicamente norte-americana cujo ápice foi nas décadas de 1960 e 1970, seu cerne é exatamente esse: reproduzir na tela o realismo de uma fotografia. De acordo com o livro Photorealism, de Louis. K. Meisel, a pintura fotorrealista não existe sem a fotografia. O artista primeiro fotografa seu objeto com uma câmera, revela o filme e  precisamente transfere a imagem para a tela, usando a técnica que melhor lhe convir, incluindo transferências mecânicas (como sobreposição luminosa ou cópia por “grids”). O objetivo final é ter uma obra que seja uma emulação direta da fotografia, se possível ao ponto de enganar o observador casual e fazê-lo pensar que aquilo é uma foto, não uma pintura.

O fotorrealismo nunca foi um movimento muito popular e hoje é quase desconhecido, com pouquíssimos artistas ainda se auto-denominando fotorrealistas — mesmo alguns dos fotorrealistas dos anos setenta hoje não se identificam com o movimento. Apesar disso, minha opinião é que o fotorrealismo marcou a cultura “pop” nos Estados Unidos para sempre. Neste texto, pretendo construir brevemente o caso dessa influência nas histórias em quadrinhos em específico.

Capa de "Tintin et les Picaros" de Hergé, cartunista belga.

Capa de “Tintin et les Picaros” de Hergé, cartunista belga.

Quando você ouve a palavra “fotorrealismo”, provavelmente pensa em Alex Ross ou Ariel Olivetti, mas não é disso que estou falando. A influência do fotorrealismo nos comics é tão prevalente que se torna um conceito difuso, difícil de identificar, exceto nos extremos. É como o ar à nossa volta: tão absolutamente presente que nos esquecemos dele. Ou seja, estou dizendo que o fotorrealismo (não como forma de arte consciente de si, mas como elementos de influência) está presente em praticamente toda história em quadrinhos. Para podermos ver isso, basta compararmos os comics norte-americanos com as histórias em quadrinhos européias e, para revelar ainda mais contraste, os mangás japoneses. Como forma de arte tipicamente norte-americana, o fotorrealismo teve pouca ou nenhuma influência fora dos EUA. Por isso o mangá é tão… mangá; o gibi europeu, também, é facilmente identificado como tal. Mesmo quando não apresentado a títulos menos obviamente cartunescos, como Corto Maltese, você imediatamente diz “ah! Isso é HQ européia.”

O fotorrealismo como forma de arte e, mais importante, como trabalho de um artista que propositalmente produz uma pintura fotorrealista, requer adesão a certos ditames: a imagem tem que ter existido primeiro como uma ou mais fotografias, precisa tentar enganar o observador, fazendo-o duvidar de estar olhando para o fruto do trabalho de pincel e tinta e não celulóide e nitrato de potássio, entre outras coisas. O trabalho de quadrinistas como Greg Land não deve ser considerado fotorrealismo:

Fonte: Lubbock Avalanche Journal

Fonte: Lubbock Avalanche Journal

Greg Land não é o autor da foto que originou a capa dessa Sports Illustrated e não se auto-intitula um artista fotorrealista. Nesse sentido, nem Alex Ross é um pintor fotorrealista: apesar de tirar as próprias fotos com o propósito explícito de usá-las para produzir telas, seus painéis são alterados se comparados com as fotos que os originaram. Estou falando aqui da influência fotorrealista nos quadrinhos e não de artistas fotorrealistas nos quadrinhos. Importante diferença.

Isso posto, volto a meu argumento. A arte dos comics é claramente inspirada pelo fotorrealismo porque, em minha opinião, usa a realidade como base sólida a partir de onde são produzidos, a ponto de ter se tornado um pré-requisito para ser considerado “um bom artista”. Veja exemplos de grandes nomes dos quadrinhos atuais como Stuart Immonen, Salvador Larroca, ou mesmo Jim Lee. Você não associaria levianamente Jim Lee ao fotorrealismo — e esse é o ponto. Jim Lee não é um artista fotorrealisma no sentido que defini, acima, de fotorrealismo como um movimento artístico. Meu ponto é que esses e tantos outros artistas desenham enormemente assentados na realidade fotográfica como desenvolvida primeiro por fotorrealistas como Charles Bell, Don Jacot, John Kacere e Franz Gertsch. De propósito? Talvez não. Mas, como o ar que nos cerca, a influência fotorrealista é tão consistente na cultura pop norte-americana, em geral, e nos comics, em particular, que se tornou praticamente inevitável. E você também está submergido nessa influência sem nem perceber. É bem provável que você, ao menos inicialmente, tenha torcido o nariz da primeira vez que viu um Judge Dredd desenhado por Mike McMahon ou o Wolverine do Sam Kieth. Isso porque esses caras têm muito pouca influência fotorrealista em sua arte, se alguma.

Dark Avengers (vol.1) #11 por Mike Deodato Jr.

Dark Avengers (vol.1) #11 por Mike Deodato Jr.

Então o trabalho da maioria dos artistas de comics é fotorrealista? Sim e não. Não porque eles não são membros auto-declarados do movimento artístico chamado fotorrealismo. Sim porque sua arte é obviamente inspirada numa realidade fotográfica; uma arte que, primeiro, imagina a cena como ela seria numa foto ou num filme (freqüentemente procurando fotos e filmes em que se inspirar), e depois pensa os elementos típicos e únicos de tinta-sobre-papel. É fotorrealista, no sentido amplo, porque tenta emular uma realidade fotográfica. E vou além, dizendo que essa tentativa de emulação é proposital, não acidental. Não acho que alguém se dê a todo esse trabalho sem estar tentando, conscientemente, imprimir algum nível de realismo à sua arte. O esforço dos quadrinistas dos comics em criar painel atrás de painel em poses, ângulos e iluminação fotográfica é por demais constante para ser acidental.

Se você estiver concordando comigo até aqui, há algo mais a se acrescentar a esta idéia: gradações. Obviamente Marcus To é mais realista que Mike Deodato Jr., mas você tem alguma dúvida de que Deodato não usou “stills” do ator Tommy Lee Jones para desenhar Norman Osborn no título Dark Avengers?

Stefano Caselli na última página de Secret Warriors #13.

Stefano Caselli na última página de Secret Warriors #13.

Levando-se em consideração essa gradação de fotorrealista para mais ou para menos, podemos discutir artistas que estejam mais para lá ou mais para cá do espectro.

Para o oposto diametral do fotorrealismo nesse sentido, proponho o uso do “cartum”, cuja origem está na caricatura, no exagero da figura humana e das coisas. Se o fotorrealismo em seu máximo grau é a reprodução fiel de uma fotografia, o cartum é a liberdade artística exagerada em seu absoluto. Com esse sistema, podemos não só usar o adjetivo fotorrealista para julgar e discutir trabalhos de vários artistas, como também períodos de seu trabalho que se inclinem mais para um lado que para o outro. Assim, portanto, consigo discutir o trabalho de Stefano Caselli como estando em algum lugar entre Skottie Young e Greg Horn usando adjetivos que todos entendemos e concordamos. Conseguimos, talvez, discutir, apreciar ou criticar o uso de referências fotográficas nos trabalhos dos artistas de histórias em quadrinhos. Eu acho que o entendimento do fotorrealismo como influência inescapável nos comics promoverá uma aceitação de algo que todo artista faz, meio com vergonha de admitir: o uso de fotografias como referências para seu trabalho.

Young (esquerda) e Horn (direita) como pontos diametralmente opostos na escala cartunesca-fotorrealista.

Young (esquerda) e Horn (direita) como pontos diametralmente opostos na escala cartunesca-fotorrealista.

Esse uso é inerentemente ruim? As opiniões que surgem na internet, como nos muitos ataques ao trabalho de Greg Land, parecem concluir que é algo péssimo e denigre a nona arte. Eu não posso discordar das críticas ao que Land faz (o uso excessivo de referências fotográficas e a escolha pobre do que referenciar limita seu trabalho e empobrece a revista que desenha; sem falar no infame “pornface” e nos muitos casos de plágio) mas, ao mesmo tempo, não acho que a referência fotográfica deva ser tratada como tabu. Afinal, como é que quadrinistas irão produzir a arte fotorrealista que se tanto elogia no meio? Parece que só se pode usar referências fotográficas à comparação do tratamento do homossexualismo nas forças armadas norte-americanas: “don’t ask, don’t tell”.

Uma vez que tenhamos aceitado que o fotorrealismo é intrínseco aos comics, podemos discutir momentos pontuais em que eles limitam ou estragam uma revista ou contribuem para a construção de verdadeiras obras-primas da arte sequencial. Como está hoje, o asco ao adjetivo fotorrealista promove, ao meu ver, desentendimentos a respeito das influências artísticas das histórias em quadrinhos e do que se pode fazer com e dentro dessa forma de arte. Sou, portanto, obrigado a discordar de Klaus Janson e Erik Larsen, que acham que realismo não tem vez nos quadrinhos. Tem, se você quiser que tenha.

Fontes:

  • “Photorealism” (Wikipedia.org) [link]
  • “Why Greg Land is a Rotten Excuse for an Artist” (lubbockonline.com) [link]
  • “Possibly the Most Harmful Art I’ve Seen in a Comic” (Comic Book Resources) [link]
  • “ECCC: ‘Comics aren’t real’ panel wages war on realism” (Comic Book Resources) [link]
  • “Preview: Hacktivist #2” (Comic Book Resources) [link]
  • Maison Immonen [link]
  • Comic Art Community [link]
  • DeviantArt, Jim Lee [link]
  • Tugging your coat [link]
  • Marvel Comics Database [link]
  • Glass House Graphics [link]
  • SkottieYoung.com [link]
  • GregHornJudge.com [link]

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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