Após ouvir o excelente episódio sobre Glória no Great Pendragon Podcast comecei a pensar em outros usos, nem todos bons para o personagem, dos conceitos de glória, renome e consequentemente o reconhecimento dentro de mundos de fantasia medieval. Incialmente pensei até em escrever um artigo diretamente no fórum da Terceira Terra, mas achei que a discussão poderia ser até mais frutífera para aqueles que apreciam jogos ambientados em cenários medievais se eu conseguisse dedicar um pouco de tempo para botar minhas ideias num texto um pouco maior.

Creio que o primeiro ponto que deve ser levantado quando começamos a pensar nessas questões é sobre a dificuldade que as informações encontravam na Idade Média histórica para se difundirem. A maioria das pessoas vivia num mundo estreito, que abrangia apenas alguns quilômetros ao redor de suas aldeias. Seu conhecimento do mundo não ia muito longe e mesmo para um inglês ou francês do campo era quase impossível imaginar o que era viver numa cidade como Londres ou Paris, quanto mais viajar até um local como esse. A informação, portanto, viajava sobretudo de duas formas, ou através da oralidade, o que poderia significar que estas chegavam de uma forma quase caótica para seus ouvintes, já que dependiam da sorte de um viajante indo numa determinada direção escutar uma certa informação e ainda por cima achar que esta era relevante de ser passada a frente, ou então através de éditos oficiais. Essa segunda forma com certeza era mais eficiente, porém esbarrava num outro problema do período: com uma população majoritariamente analfabeta essas informações acabavam ficando restritas aos que sabiam ler, o que tornava o emprego de arautos um artificio comum para que as pessoas comuns soubessem do que estas se tratavam, pelo menos quando se acreditava que isso fosse relevante. Essas informações precisavam alcançar o maior número de pessoas, portanto costumavam ser lidas em voz alta em momentos que a cidade, vila ou aldeia estivesse mais cheia de pessoas, normalmente durante as feiras e aos domingos, quando ocorria a principal missa da semana, a única que obrigatoriamente todos os cristãos deveriam comparecer. Portanto, mesmo informações importantes, como por exemplo a coroação do novo rei,  podiam demorar vários meses até que viajassem e fossem finalmente divulgadas a todas as pessoas do reino, isso sem contar as dificuldades físicas que estavam envolvidas no ato de levar as informações para lugares mais afastados das grandes cidades, estradas que no geral não passavam de simples espaços abertos, já que poucas eram as estradas que haviam sobrevivido desde o período romano; um sistema pouco eficiente de navegação fluvial, que mesmo assim não podia ser empregado em todos os rios (pouco eram os barcos que tinham calado tão raso ao ponto de poderem sair dos rios maiores, como Loire, o Reno ou o Tâmisa) e a navegação por mar era feita costeando a terra, ou seja, não diminuía muito o tempo de viajem. Entender como as informações viajavam nos ajuda a entender o próximo ponto deste texto, a glória e como ela afeta o personagem.

© 2008 Alon Chou

A visão do que era a glória na Idade Média era profundamente influenciada pelos valores tanto clássicos do herói greco-romano, quanto pelos valores dos povos ditos bárbaros, sobretudo celtas e germânicos (uma das principais figuras heróicas da Idade Média – O rei Arthur – vem de um substrato celta, assim como o herói do primeiro poema escrito em língua inglesa – Beowulf – tem uma origem claramente germânica) foi essa mistura de valores que criou o conceito medieval da glória. A glória estaria associada, não apenas aos atos de bravura extremada, de conduta exemplar, mas também ao conceito de proeza; um cavaleiro que deseja ser reconhecido deve ser dono de habilidades únicas, superiores à das pessoas comuns. Esse tema é recorrente em diversos romances e chansons medievais, e a uma ética única, que era partilhada apenas pela nobreza guerreira (isso aí, na Idade Média não havia glória para mercenários e outros soldados de baixa extração). Possuir glória ia além de ser um cavaleiro bondoso ou maligno, apesar é claro de ser mais facilmente alcançada por aqueles que compartilhavam os preceitos da fé cristã. De forma geral, creio que o episódio supracitado do podcast Great Pendragon desenvolva até mais esse assunto. O que eu realmente gostaria de tratar nesse texto é sobre o renome e uma consequência que muitas vezes é esquecida, o reconhecimento (no sentido mais estrito, de realmente as pessoas reconhecerem a figura do personagem): personagens gloriosos ou terrivelmente pérfidos acumularão renome com o passar da história; seus feitos serão recontados, suas façanhas viajarão para vilas e aldeias escondidas e, supondo que se trate de um personagem bom, seu nome logo virará sinônimo de bem-aventurança. É possível que rapidamente as pessoas comecem a contar histórias que nem sequer são verdade, mas que elas ouviram de viajantes de passagem pela taverna local (é a velha máxima do “quem conta um conto aumenta um ponto” de que nossas avós falavam); quem não se lembra da memorável cena de “Coração Valente” em que os soldados escoceses começam a dar a descrição de como seria William Wallace para ele mesmo? O renome vai trazer outras consequências, as pessoas fazem descrições de seus heróis; a questão é que com um sistema tão pouco confiável de fazer as informações viajarem, sempre existem alguns riscos, afinal não havia formas muito confiáveis de fazer a imagem retratada com exatidão de uma pessoa chegar de um lugar ao outro (a pintura, sobretudo a retratista, se desenvolve mais na segunda metade da Idade Média, e mesmo assim nada impediria um artista dar sua “interpretação” de uma certa pessoa, ou até ser obrigado a retratá-la de uma forma pouco fidedigna, como no caso histórico da terceira esposa de Henrique VIII, Anna de Cleves, que foi retratada por um pintor da época a pedido do próprio rei, mas que quando a conheceu pessoalmente chamou-a “carinhosamente” de égua de Flandres); uma cor pode ser trocada, o símbolo pode ser confundido (o escudo de Sir Gildefort é branco como a neve e nele se ergue um triunfante leão vermelho, mas a família de Gildefort é representada por um leopardo) assim como a própria descrição do nosso herói pode gerar várias confusões, que podem ir do engraçado ao trágico rapidamente. Descrições simplistas, sobretudo as que provavelmente seriam oferecidas pelas pessoas mais simples, podem dar uma grande margem para especulação; há muitos anos li uma história do rei Kull da Valúsia (um dos personagens criados por Robert E. Howard, que também habita o mesmo mundo de Conan, só que num período diferente); nessa história, um bandido se faz passar pelo rei para assaltar e cobrar impostos abusivos dos camponeses que vivam mais afastados da capital. Essas pessoas sabiam que seu rei era alto, de cabelos negros e que tinha uma cicatriz no rosto, as mesmas características que o bandido tinha, apesar de sua clara diferença física quanto ao personagem central, mas eram incapazes de contestar a figura pois sua descrição era a que eles esperavam do rei.

© 2009 nicadom

Acho que esse é o ponto que pode ser facilmente explorado em uma aventura ambientada num cenário medieval. Pergunte-se: os personagens já são famosos o suficiente para que seu renome se espalhe além da vila ou cidade onde moram? Faça com que apareçam situações onde esse renome traga boas e más consequências, talvez enquanto eles viagem descubram que um nobre local os procura e quando finalmente o encontram este os bonifica pois aquele orc / ladrão / dragão que eles mataram vinha assolando seus domínios e trazendo muitos problemas. Ou, em vez disso, eles descubram que existem rumores de que alguém com uma descrição igual a de um dos personagens ou de algum aliado fiel ao grupo vem roubando vilas distantes, matado gente inocente e pondo fogo em aldeias — com certeza os personagens vão querer investigar o que se trata (e caso não queiram num primeiro momento é só dar um “empurrãozinho” fazendo com que as pessoas passem a tratá-los com desconfiança, colocando a guarda da cidade contra eles e outros pequenos empecilhos) o que pode tanto ser uma aventura menor, como pode ser um gancho para uma nova fase da aventura.

Creio que esse ponto, se explorado de uma forma interessante, pode acrescentar diversas situações inusitadas, divertidas, trágicas ou heróicas a uma aventura; cabe ao narrador ter em mente sempre usar os ganchos quando eles aparecerem, mas também é bom que os próprios personagens, sobretudo aqueles que jogam com arquétipos cavaleirescos ou nobres, lembrem de buscar a glória e o renome, facilitando assim o trabalho do narrador.

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