A retórica dos críticos à 4e, que reclamam que ela não possui nenhum elemento mecânico que estimule «role-play» não deixa de ser um pouco hipócrita, em especial se o crítico é jogador da 3e.


Em 23 de Maio de 2010 eu gravei um episódio bem-humorado com o Goblin da Taverna do Golbin sobre a Guerra das Edições, em que discutíamos o sexo dos anjos. Felizmente a maior parte dos nossos ouvintes entendeu que estávamos fazendo troça com essa guerra das edições sem sentido que de tempos em tempos ressurge pela Internet.

Alguns ouvintes, porém, esperavam uma segunda parte daquela conversa, que eu desisti de gravar. Foi legal fazer a primeira parte, mas a piada gastou, e eu, sinceramente, estou cansado de gente comparando a 4ª. edição do D&D com a 3ª. edição ou mesmo com o AD&D.

b2.jpgA retórica dos críticos à 4e, que reclamam que ela não possui nenhum elemento mecânico que estimule o «role-play» não deixa de ser um pouco hipócrita, em especial se o crítico é jogador da 3ª. edição — a 4e possui um sistema de premiação de XP por história que é padrão, algo opcional na 3ª. edição. Esse samba do crioulo doido segue outro caminho, quando alguém argumenta que a 4e introduziu os Skill Challenges, XP por «quests» e por resolução de quebra-cabeças, e aí se critica que a 4e tornou a interpretação muito mecânica. O que vai ser, mecânica para «role-play» ou sem mecânica para «role-play»? Quem ouviu as sessões de jogo de AD&D que gravei podem ver que é possível fazer combates leves ou com poucas regras no AD&D, mas isso de modo algum estabelece que é algo inviável na 4e ou mesmo na 3ª. edição.

É realmente cansativo participar ou mesmo ouvir sobre a guerra das edições, porque quem discute não está interessado em jogar, mas em discutir para «causar». Não é possível agradar a gregos e troianos em qualquer tipo de assunto que se refira a um sistema comparado ao outro — portanto a discussão se torna um exercício de futilidade, gasto inútil de energia e atritos de ego.

Para quem não está interessado em provocar, mas de fato quer ver se é possível fazer sessões de D&D sem que se envolva combate ou Skill Challenge, ou mesmo envolvendo combate, não é necessário, se for um combate leve, colocar mapas e miniaturas na mesa, recomendo ouvir:

• Icosahedrophilia, episódios 92 a 95;
• RPPR Actual Play, episódio de 9/set/2010, “Rime of the Cursed Artifact”.

Quem ouvir a essas quase dez horas de sessões de jogo sem cinismo, irá notar que ambos os grupos estavam jogando o mais puro D&D, em sua 4ª. edição. Não estavam de repente jogando World of Darkness, Savage Worlds, Pathfinder ou mesmo AD&D só porque não estavam usando as regras de combate, Dungeon Tiles, Skill Challenges, ou porque houve pouca rolagem de dados. Como disse Christopher Heard, o DM do podcast Icosahedrophilia no fechamento do episódio 95 (de onde eu de fato eu me inspirei para escrever este texto), «D&D não seria D&D sem sua mecânica, mas o D&D é mais que sua mecânica».

Agora chega.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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