Capa de "Low"

Capa de Low

Quando a Image surgiu em 1992, seu sucesso foi tanto que brevemente passou a DC Comics em participação no mercado. Mas os super-heróis fotocopiados da Marvel, roteiros rasos, um foco grande demais na “imagem” (com o perdão do trocadilho) e constantes atrasos de publicação (provavelmente por falta de experiência empresarial de seus criadores, todos ex-desenhistas da Marvel Comics) logo minguaram o interesse do mercado na empresa. Hoje a Image tem redondos 8% do mercado, contra quase 64% de Marvel e DC combinadas, regularmente disputando a posição de terceira maior editora da indústria dos quadrinhos norte-americanos com Dark Horse e IDW.

Apesar dos tropeços iniciais da editora (que foram só iniciais), ela se consolidou no mercado como uma empresa de autor: exceto pelo logotipo e o nome, a Image Comics não é dona de nada, de nenhum personagem ou título; além disso, cada estúdio é independente um do outro e pode fazer o que quiser — algo sem precedentes quando da fundação da empresa. Esse tom de não haver um mega-universo coeso e um respeito quase sagrado ao mantra “creator-owned” se tornou ainda mais sólido após Jim Valentino assumir a posição de publisher em 1999, política mantida pelo seu sucessor, Erik Larsen, e o atual dono da cadeira, Eric Stephenson. Apesar do peso que o Spawn de Todd McFarlane, a Top Cow de Marc Silvestri e os títulos de Robert Kirkman têm na empresa, a maioria absoluta de revistas que a editora publica em qualquer mês não são produções de seus estúdios. E tudo é “creator-owned”. (Algo que até a DC anda fazendo com uma pequena parcela de suas revistas, tamanho foi o impacto no mercado dessa política.)

Logo, não é surpresa que a Image Expo 2014, que aconteceu no último dia 9 em San Francisco, Califórnia, tenha sido dominado por anúncios de títulos produzidos por gente grande da indústria:

    • Ed Brubaker e Sean Phillips assinaram um acordo “sem precedentes na publicação de histórias em quadrinhos” (de acordo com a própria Image) para um contrato de cinco anos em que eles podem fazer o que quiserem. Assim que Fatale, o atual projeto da dupla, se encerrar ao completar exatos dois anos de publicações mensais, eles começarão a usufruir dessa total liberdade num título chamado The Fade Out.
Pôster promocional de Airboy

Pôster promocional de Airboy

    • James Robinson e Greg Hinkle irão usar a IP Airboy, atualmente em domínio público, de um jeito diferente: contarão a história de dois quadrinhistas (eles mesmos), tentando reavivar o gibi do Airboy, que era tremendamente popular nos anos quarenta mas que hoje é praticamente desconhecido. Este será o primeiro trabalho de Hinkle com a Image.
    • Kelly Sue DeConnick e Valentine De Landro vão produzir Bitch Planet, a história de um grupo de mulheres presidiárias tentando fugir do planeta-prisão para mulheres usando uma oportunidade única: lutas gladiatoriais contra prisioneiros do sexo masculino de outro planeta-prisão.
    • Matt Fraction e os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá irão trabalhar com o romancista Michael Chabon para um novo volume de Casanova, uma série de Fraction, Moon e Bá que começou na Image, foi pra Marvel e agora volta à Image, fazendo um “zero hora” com o protagonista, Casanova Quinn, dando oportunidade a quem não conhece o personagem de ser introduzido a ele, pois de acordo com Fraction, “nosso protagonista também não faz idéia do que aconteceu nos outros livros de Casanova”. Ao que parece, o envolvimento de Chabon será trabalhar com Bá na produção de histórias de fundo, explorando outros personagens do universo de Casanova.
    • Brandon Graham (o ilustrador, não o linebacker do Philadelphia Eagles) vai trabalhar com ao menos quatro outros artistas em uma série de fantasia científica chamada 8House — um mundo governado por… bom, oito casas nobiliárias. Três volumes (cobrindo três das oito casas) já têm títulos e serão cobertos por minisséries individuais: Kleim (com arte de Xurxo Penalta), Arclight (com arte de Marian Churchland) e Mirror (escrita por Emma Ríos e com arte de Hwei Lim).
    • Rick Remender e Greg Tocchini irão novamente trabalhar juntos, desta vez em um título chamado Low. O enredo é de ação e ficção científica “de alta octanagem”, se passando nas cidades subterrâneas de um planeta Terra cuja superfície fora destruída pela radiação solar.
Capa de Bitch Planet

Capa de Bitch Planet

    • Joshua Williamson e Mike Henderson irão produzir a série de triller policial Nailbiter envolvendo o agente do FBI Charles Kohl e sua investigação de Buckaroo, cidade no Oregon que produziu nada menos que dezesseis serial killers desde 1969.
    • Grant “gosminha prateada” Morrison e Chris Burnham vão trabalhar num título chamado Nameless (trocadilho?). De início uma minissérie em seis edições, Nameless será a oportunidade da dupla que fez Batman, Inc. de trabalhar com o típico gênio perturbado, na mesma senda dos protagonistas das séries de TV House, Sherlock e Elementary (ou seja, versões modernas de Sherlock Holmes, reinterpretações do personagem como alguém absolutamente genial mas também irremediavelmente falho). Como tudo o que Morrison toca vira ouro, eu acho que Nameless é sucesso garantido. Mas não se surpreenda se o final for confuso e bagunçado.
    • Não satisfeitos com um título só, Nick Spencer vai trabalhar com três artistas diferentes em três revistas: o revista no gênero realismo mágico com estética de histórias de espionagem Paradigms (com Butch Guice), a ficção científica espacial/pós-apocalíptica Cerulean (com Frazer Irving) e o drama niilista Great Beyond (com  Morgan Jeske).
    • Bill Willingham e Barry Kitsonm (que trabalho com Willingham em Fables para a DC/Vertigo) irão produzir a série de realismo mágico Restoration. Deuses e outros seres mágicos não nos importunam mais porque a Sociedade do Caldeirão os aprisionou há muito… só que um acidente os liberta para gerar caos em nosso mundo moderno.
    • Joe Keatinge e Leila del Duca irão fazer Shutter, uma série de fantasia urbana protagonizada por Kate Kristopher, uma aventureira e exploradora no melhor estilo Indiana Jones. Será o primeiro trabalho de del Luca com a Image.
    • Joe Keatinge também vai fazer outra revista, desta vez com o artista Khary Randolph, para dar continuidade ao personagem Tech Jacket (criado por Robert Kirkman e EJ Su). Será uma minissérie em três edições exclusivamente digital.
wicked and divine promo

Pôster promocional de The Wicked and the Divine

  • Kieron Gillen e Jamie McKelvie (mais conhecidos por trabalhos relativos a video games, como a tirinha Save Point) farão The Wicked and the Divine, em que os deuses mitológicos reencarnam a cada noventa anos. Gillen e McKelvie irão trabalhar com diversos artistas convidados ao longo dessa série.
  • Scott Snyder e Jock irão trabalhar numa série de horror chamada Wytches, que promete dar um ar bem mais sério e sombrio ao mito da bruxa. Programado para estrear em Setembro, Wytches irão voltar às raízes das histórias de folclore e, de acordo com Snyder, será de “puro horror, doentio e negro”.
  • Robert Kirkman irá fazer um “hero hora” com seu Invincible. Ele anunciou que o número 111 será “como três números 1 em uma [revista]”. Ele continuará trabalhando com o artista Ryan Ottley na revista do super-herói protetor do planeta Terra.
  • Nick Dragotta irá produzir Howtoons [re]ignition, uma série educacional para crianças inspirada na série animada Howtoons – Tools os Mass Construction. Dragotta, que será assistido no projeto por Fred Van Lente, Tom Fowler e Jordie Bellaire, tuitou que a série é “o que acontece quando um desenhista de quadrinhos, um projetista de brinquedos e um cientista produzem um gibi”.
  • Ted McKeever irá lançar Superannuated Man sob o selo Shadowline, de Jim Valentino. Não consegui descobrir mais nada sobre esse título.
  • Além disso, já em Maio teremos C.O.W.L., por Kyle Higgins, Alec Siegel e Rod Reis que eu já comentei ontem.

Tirando Nailbiter, cuja idéia eu acho “meh” (está com cara de serial killer porn), mal posso esperar para ver o que esses novos títulos vão virar. Como fã de ficção científica, estou particularmente interessado em Bitch Planet, Low e Cerulean, e curioso a respeito de 8House, que parece que será no gênero espada e planeta — além de, é claro, o drama histórico C.O.W.L., sobre o qual eu já babei ovo o suficiente no texto de ontem.

Vida longa à Image Comics!

Fontes:

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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