De tempos em tempos eu leio choramingos de DMs e jogadores sobre a chatice que são os níveis épicos, de como sentem falta dos problemas mundanos dos primeiros níveis, como sentem falta de serem aterrorizados por (ou aterrorizar com) orcs e aranhas gigantes. Particularmente, acho que, se você é um desses, está perdendo uma diversão e tanto.

A época de se preocupar se você tem comida suficiente para atravessar a Floresta Sombria ficou para trás. Abismos e desfiladeiros foram desafios, sim, e foi bom tê-los em seu caminho, mas isso é coisa do passado. Agora é hora de enfrentar desafios de heróis lendários, não de gente comum. O problema agora não é como atravessar o desfiladeiro, é como alcançar aquele castelo nas nuvens. Nem isso! O desafio é como alcançar o castelo nas nuvens antes dos djinns montados em pesadelos voadores gigantes em chamas!

Este é o tipo de At-Will dos Epic Destinies (©2003 Wizards.com/DnD)

O estágio épico não é uma época de enfrentar ladrões de estradas maltrapilhos, mas de invadir o lar do lich em busca de seu crânio cravejado de pedras preciosas. É hora de procurar pelo Martelo de Thor, não para devolver a ele, mas porque um dos personagens venceu uma competição de quem bebia mais contra o próprio Deus do Trovão. É um tempo em que os Primordiais estão invadindo a realidade e os personagens estão na linha de frente — melhor: são a linha de frente; e seguram, cada um, uma Dragonlance. E quanto mais épico o nível, mais épicos os inimigos: todo mundo já jogou aventuras e mais aventuras em que os heróis precisam impedir o retorno de um antigo deus do mal que está morto, preso, dormindo ou o quer que seja. A diferença é que em níveis épicos está tudo bem se vocês falharem e o Grande-Deus-Que-Pode-Destruir-o-Mundo acordar/voltar/ressuscitar: seu grupo resolve o problema enfiando porrada nele!

Agora, níveis épicos não significam que você não tem mais medo de nada. O que te mete medo é o tipo de coisa que congelaria, literalmente, a Criação. Mind flayers ficaram para trás; dragões anciões você derrota sem nem usar Encounter Powers, esqueça esse tipo de monstrinho vulgar. É hora de fugir e se esconder dos destruidores de mundos. À página 45 do Monster Manual 2, há um distinto cavalheiro chamado Dagon. Já ouviu falar? Então… quando o Abismo foi criado e os Lordes Demônios começaram a povoar o lugar, Dagon já estava lá! Os livros de lombada verde do Dungeons & Dragons estão repletos de monstros amedrontadores de nível 30 ou mais. E a melhor parte é que essas criaturas vêm acompanhadas de páginas de “lore” de onde o DM pode tirar inspiração e desenvolver histórias épicas, e a ficha em si do monstro se torna um mero detalhe. No mesmo Monster Manual 2, Demogorgon tem oito páginas sobre seus seguidores, tenentes, monstros relacionados… A primeira Dragon Magazine do D&D 4e, de número 364, abre com doze páginas sobre Yeenoghu e muita informação relacionada a ele (a mesma coisa: seguidores, tenentes, monstros relacionados, etc.) que permite que um DM pensando a longo prazo possa introduzir esse lorde demoônio como uma vaga ameaça por volta do nível 6 e seguir por todo o Paragon Path em volta daquelas doze páginas, culminando com vários níveis do Epic Tier gastos explorando a enorme e desolada camada governada pela Besta da Carnificina, encerrando com uma luta contra o Príncipe Demônio dos Gnolls em pessoa, no nível 26 ou 27.

Mas, até chegar nesse nível (digamos, durante o começo do Epic Tier), os personagens ainda estão bem longe de se entediarem ou de não encontrar desafios ou motivos para fugir: imagine uma aventura em que os heróis épicos não podem ir a nenhuma cidade que tenha gente com as quais eles se importam, porque se os inimigo que eles fizeram em Torog ou Kyuss descobrir onde estão, abre um buraco no chão e suga — não a cidade, mas a região inteira. Se isso não é épico, eu não sei o que é!

Todo mundo lê ou já leu gibis de super-heróis. No arco “A Vingança do Submundo”, de 1995, a Liga da Justiça vai pro inferno (literalmente) dar porrada em Neron, um dos principais lordes demônios. E nem vou tentar contar quantas vezes (às vezes numa formação de meia-dúzia de heróis) impediram uma invasão alienígena em escala global. Foi divertido ler isso… mas não é divertido fazer parte disso?

Outro exemplo mais no estilo fantasia é o final de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (filme ou livro, você escolhe) em que Passolargo, Gimly, Legolas e Gandalf enfrentam as forças de Sauron em frente a Morannon, na Batalha do Portão Negro, praticamente sozinhos. Nem vou citar Conan o Bárbaro e suas incontáveis batalhas, sozinho contra um exército inteiro, usando uma espada e sem camisa. Todo mundo se inspira em Aragorn e Conan, mas ninguém quer estar em batalhas como as deles? Em God of War 3, a luta de Kratos contra Cronos é uma das coisas mais legais que já vi: o titã deve ter uns cem metros de altura, mas você (controlando o protagonista) tira de letra, escalando o monstro e detonando ele sem nem suar. Por que isso não seria legal num RPG? Bom, muita gente pode chamar aquilo de absurdo — mas personagens épicos chamam isso de Sexta-Feira.

©2008 Alain Prem

Chega de choramingar que os níveis épicos não são mais interessantes, que não têm mais os desafios os primeiros níveis. Não é para ter mais os desafios dos primeiros níveis! Essa vida ficou para trás, é hora de usar artefatos mágicos que podem destruir o mundo — não estou falando de destruir esse artefatos ou impedir que o vilão os tenha, mas de arrancá-los das garras calcinadas do vilão e usá-los contra outros!

Se você e seu grupo não estão mais empolgados com o jogo, fale com seu DM, lembre-o dos exemplos que eu dei aqui, mostre-o uma daquelas cenas de página dupla da Espada Selvagem de Conan ou pegue a Dragon Magazine número 388, aponte para Draconic Form, a MINOR action que lhe deixa transformar num dragão, e diga “eu quero usar isto contra um monstro que dure mais de duas rodadas!”.

Agora, se você é aquele tipo de jogador que sente falta de pensar como fazer para descer desfiladeiros ou correr de tribos de kobolds… não faça isso. Curta o nível épico, enfrente imortais e exércitos inteiros de demônios. Depois que seu personagem se tornar um deus (ou lorde demônio, quem sabe) ao final do nível 30, você pode criar outro personagem de nível 1 e morrer com 4d4 + 4 pontos de dano de um troglodita.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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