Continuando o texto da semana restrasada, descrevo hoje mais seis jogos que, apesar de serem para “a partir de dois jogadores”, ou seja, serem para 2–4 ou 2–5 ou mesmo 1–8 jogadores, são boas aquisições para quem normalmente só tem mais uma outra pessoa com quem compartilhar longas e serenas noites de jogos de tabuleiro.

Nota: irei me referir à edição brasileira do jogo, quando ela existir, e à edição norte-americana do jogo, se não houver uma edição brasileira. Alguns dos jogos abaixo são originalmente italianos ou alemães, mas as editoras e datas de lançamento que usei são das edições em inglês ou, quando existentes, em português.

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Elder Sign (Fantasy Flight Games, 2011. 1–8 jogadores)

cc by-nc-sa 2012 Casey Lynn

cc by-nc-sa 2012 Casey Lynn

Pense em Elder Sign como “Arkham Horror light”. É um jogo mais fácil, com regras menos punitivas, peças menores e tempo de jogo mais curto. Apesar de tecnicamente poder ser jogado por até oito pessoas, o jogo simplesmente não funciona com mais de quatro jogadores. Veja só: cada turno de jogador move o relógio em um quarto; ao bater meia-noite, o efeito da segunda metade da Mythos Card acontece e uma nova Mythos Card é sacada em seu lugar. Com cinco jogadores, haverá sempre alguém que sofrerá todas as conseqüências ruins da meia-noite sem nem ter jogado!

Apesar do jogo ser mais rápido, as rodadas não têm suas etapas divididas como em Arkham Horror, logo é comum que um jogador se demore bastante na sua vez. Isso faz com que uma mesa muito grande invariavelmente degenere para conversas paralelas ou gente cutucando celulares. Por isso este jogo nunca deve ser jogado por mais de quatro pessoas ao mesmo tempo — duas pessoas é o ideal, pois cada um pode agir duas vezes a cada “dia” de jogo (entre duas meias-noites). A dois, Elder Sign se torna um jogo rápido, dinâmico, que requer muita conversa e coordenação entre os jogadores e partidas raramente passarão de hora e meia.

Domínio de Carcassonne (Grow Jogos e Brinquedos, 2012. 2–5 jogadores)

cc by-sa 2012 Marcin Niebudek

cc by-sa 2012 Marcin Niebudek

Este é talvez o jogo mais rápido de montar, jogar e desmontar que eu já vi. Em primeiro lugar, o conteúdo cabe num saquinho (são apenas algumas dúzias de tiles quadrados do tamanho de um biscoito e alguns meeples). Partidas com cinco pessoas podem durar uma hora, mas a dois o jogo toma ares de jogo de xadrez, com cada jogador já com sua peça em mãos apenas esperando a jogada do adversário. Já viu uma partida de speed chess? Depois de alguns dias jogando Carcassonne a dois, você vai se pegar jogador do mesmo jeito. Paf, paf, paf, paf, tile atrás de tile, dois jogadores se alternando em tentar exaurir o estoque de pecinhas ao mesmo tempo que tenta fazer mais pontos que o adversário. Uma delícia.

Jogar a quatro ou a cinco acrescenta caos no jogo, o que é muito bem vindo, mas eu acabei desenvolvendo um gosto por “speed Carcassone” que não é possível ter jogando-se com mais gente que a dois.

Sid Meier’s Civilization: The Board Game (Fantasy Flight Games, 2010. 2–4 jogadores)

cc by-nc 2011 Ann inva

cc by-nc 2011 Ann inva

Não importa com quantas pessoas você jogue Civ, este será o jogo da noite se você decidir começar por ele. Um jogo longo, envolvente, cheio de decisões para tomar e mais recursos à sua disposição do que tempo para usar todos.

Como o tabuleiro é modular, partidas a dois não implicam em maior (ou menos) contato entre as civilizações, já que o tabuleiro fica menor conforme o número de gente jogando. De fato, algumas decisões ficam mais fáceis jogando com apenas mais uma pessoa: se você ou seu adversário optam pela rota militar, fica bem claro quem é que será atacado constantemente e quem é que precisa reforçar suas defesas, por exemplo. Você só tem mais uma pessoa com quem negociar recursos, então conseqüênicas de ações de boa ou má fé são bem imediatas também.

A experiência de jogar Civ não é nem um pouco diminiuida jogando-se com três ou duas pessoas. Um ótimo jogo de estratégia pesada para se ter em casa se você joga bastante a dois.

Runebound (Fantasy Flight Games, 2004 [1st Edition] ou 2005 [2nd edition]. 2–6 jogadores)

cc by-nc-sa 2006 Manuel Pombeiro

cc by-nc-sa 2006 Manuel Pombeiro

O RPG para quem está de saco cheio de RPG. Basicamente, você escolhe (ou sorteia) um aventureiro, sai pelo mundo matando monstros e pilhando seus tesouros, acumulando XP para customizar seu personagem, comprando equipamento mágico e fazendo aliados. Não importa com quantas pessoas você jogue, é fácil evitar PvP em Runebound e seguir seu caminho no estilo “corrida armamentista” para ver quem é que fica forte o suficiente para começar a sacar do deque vermelho (o mais difícil) de desafios e vence o grande vilão do jogo.

Sem GMs, DMs ou Narradores, Runebound é o jogo de fantasia que toda casa deveria ter. Maldita Fantasy Flight que não reedita o jogo!

Last Night on Earth: The Zombie Game (Flying Frog Productions, 2007. 2–6 jogadores)

cc by-nc 2011 Cássio F. Lemos

cc by-nc 2011 Cássio F. Lemos

Este jogo é perfeito para um contra um. Seu típico apocalipse zumbi com uma pegadinha: metade dos jogadores controla os sobreviventes e a outra metade, os zumbis. A dois, o jogo fica simples, com um jogador tentando sobreviver pela duração do jogo (que varia conforme a missão) e o outro controlando a horda crescente de zumbis, tentando pegar os personagens do outro jogador antes que ele complete sua missão.

A vantagem de jogar Last Night on Earth a dois é que assim evita-se o típico procedimento de jogos cooperativos, em que um jogador mais proativo e dominante acaba por se tornar um tipo de líder, dando ordens e comandando o jogo de todos. Se só há um jogador controlando cada lado do jogo, você não vai ajudar o inimigo com sugestões, vai?

Van Helsing (Mayfair Games, 2010. 2–5 jogadores)

© 2011 Antony Hemme

© 2011 Antony Hemme

Como Last Night on Earth e Letters from Whitechapel, este jogo se beneficia de ter um jogador só controlando os caçadores e outro, naturalmente, controlando Drácula. Perfeito para suas pessoas, apesar de acomodar até quatro jogadores do lado dos heróis, Van Helsing é um jogo que você não vai querer jogar o tempo todo por conta de algumas idiosincrasias mecânicas, mas é um bom jogo para se jogar se vocês estão enjoados dos outros.

Este jogo lembra muito um Interpol com elementos sobrenaturais. Os quatro caçadores precisam antecipar os movimentos de Drácula e impedi-lo de alcançar suas noivas e mover para sua cripta. Os materiais são bem feitos e a arte é ótima. O tema combina muito bem com as regras do jogo, que é ideal para duas pessoas pelos mesmos motivos de Letters from Whitechapel e Last Night on Earth.

Existe um elemento aleatório no jogo que pode decidir quem começa (e termina) com vantagem: como os tiles de armadilhas, equipamentos e chaves de portas são aleatoriamente distribuídos sobre o tabuleiro, às vezes o jogador que controla os caçadores consegue econtrar armas muito rápido; às vezes, a distribuição dos tiles permite Drácula encontrar suas noivas muito antes dos caçadores se quer pensarem em ameaçá-lo. Ambas as situações podem levar a um jogo rápido e desequilibrado. Se você não se importar com esse tipo de coisa, Van Helsing é um jogo divertido, bonito e com grande “fator replay”.

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Há muitos outros jogos para duas pessoas por aí. Estes são meramente os que conheço. Eu nem toquei nos wargames, feitos tipicamente para duas pessoas. Nem preciso mencionar Magic: The Gathering ou outros jogos de cartas colecionáveis. Trate esta matéria e a anterior como uma iniciação, um ponto de partida de onde você e seu amigo, parente ou cônjuge podem começar a explorar esse mundo a dois.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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