Faz tempo que meu irmão me pediu recomendações de jogos de tabuleiro que funcionem bem com dois jogadores, para que ele possa jogar com a mulher em casa. Decidi transformar as sugestões em um texto para o NTT.

Preciso deixar bem claro que esta lista não esgota todos os jogos que podem ser jogados por duas pessoas de modo algum; aqui listados estão jogos que eu conheço e que posso recomendar. Também devo dizer que as descrições estão inextricavelmente ligadas à minha opinião sobre cada jogo; os parágrafos aqui escritos não são e não devem ser considerados resenhas destes jogos. E, por fim, esta lista não inclui jogos que requerem adaptações para que sejam jogados por duas pessoas nem jogos feitos para dois ou mais jogadores (estes cobrirei num texto futuro, mas não tratarei daqueles).

Isso posto, vamos ao jogos criados pensando-se em dois jogadores (nem mais, nem menos) que recomendo:

Star Trek Fleet Captains (WizKids, 2011)

Star Trek Fleet CaptainsObviamente um jogo que vai agradar mais quem é fã de Jornada nas Estrelas, porém não requer familiaridade com a franquia de ficção científica para ser apreciado. A enorme caixa básica vem com duas facções: Federação e Império Klingon, com uma expansão já lançada que traz os Romulanos e outra prevista para o fim do ano, baseada no Dominion. Mistura exploração, política e combate, e a expansão do Império Estelar Romulano acrescenta espionagem às missões de cada facção.

O jogo tem duas fases informais: quando você começa, está do outro lado da mesa em relação a seu adversário, então cada um fica na sua, explorando os hexágonos que compõem o mapa de jogo, tirando a sorte contra eventos do deque de eventos e fazendo as missões das cartas-objetivo de ciência e algumas de intriga. Depois que o território entre vocês foi revelado, começa um corre-corre para ver quem atrapalha mais o adversário, e é quando as missões de combate começam a serem feitas, com pouca ou nenhuma interferência do deque de eventos. Obviamente o jogador controlando os Klingons terá muito mais missões de combate e muito poucas de ciência, ao passo que o jogador da Federação terá muito mais missões de ciência e política. Muitas das missões são secretas (ficam com a face para baixo para somente o jogador dono delas poder consultá-las) e é comum que missões requeiram interação com certas áreas controladas pelo inimigo; bases estelares e colônias podem ser construídas em planetas e até mesmo cargas de cerveja romulana pode ser roubada para se ganhar pontos. A duração de cada partida é definida por quantos pontos se precisa para ganhar, o tamanho da frota de cada jogador e o número de hexágonos que compõe o setor da galáxia a ser explorado (ou conquistado).

É um jogo caro por ter tantos componentes, e você não estaria errado em reclamar que os hexágonos (que criam o “tabuleiro”) e as mais de 300 cartas foram impressas em papel fininho: a WizKids fez de tudo para reduzir o preço deste monstro de jogo, já que boa parte dos custos de produção foram para as duas dúzias de naves espaciais cheias de detalhes e as bases HeroClix sobre as quais elas repousam. Para compensar um pouco, os componentes de papel possuem uma textura que acho que chama-se “linho”, que dá um certo ar luxuoso às cartas e hexágonos.

Star Trek Fleet Captains até vem com regras para quadro jogadores, mas é óbvio que essas regras são um “afterthought”; o jogo é claramente pensado para dois jogadores primeiro, com a versão para quatro sendo meio que uma gambiarra.

Dungeon Command (Wizards of the Coast, 2012)

Dungeon CommandO jogo para quem gosta de miniaturas e também de partidas de menos de uma hora de duração. Os componentes do jogo cabem numa caixa de sapatos, requerem meio metro quadrado de superfície plana e, como prescinde de rolagens de dados, prioriza estratégia e minimiza o fator sorte.

O jogo faz uso de versões bem pintadas das inúmeras séries de D&D Miniatures, além de Dungeon Tiles adaptados para serem encaixados como peças de quebra-cabeças. As regras de jogo podem parecer estranhas para quem está acostumado ou com o RPG ou com alguma das iterações anteriores do D&D Miniatures/Chainmail — mas esses são wargames; este aqui é claramente um “skirmish game” leve e rápido, fácil de ensinar e com um tema genérico o suficiente para agradar a qualquer pessoa.

Como cada caixa traz apenas uma facção (drow, mortos-vivos, orcs, humanos) o jogo pode ser ao mesmo tempo barato e caro: barato porque você só precisa comprar sua facção favorita, e caro se você for o único dono do jogo (e aí vai precisar comprar pelo menos duas facções, em essência comprando o jogo duas vezes).

Android: Netrunner (Fantasy Flight Games, 2012)

Android: NetrunnerBaseado numa licença do criador do Magic: the Gathering, este jogo de cartas carrega uma forte temática cyberpunk e tem estilo de regras assimétrico: as regras são diferentes para cada jogador. Uma pessoa escolhe para jogar um dos três hackers disponíveis na caixa básica e o outro, uma das quatro MegaCorps. O hacker ganha pontos roubando agendas (o termo em inglês para ordens, objetivos, interesses) da MegaCorp. A MegaCorp ganha pontos desenvolvendo essas agendas antes que sejam roubadas (as protegendo atrás de defesas virtuais em servidores de computador). O primeiro com um certo número de pontos, ganha.

Como tudo o que a Fantasy Flight faz, os componentes são de boa qualidade, a arte das cartas é linda e o livro de regras é confuso. O jogo possui expansões regulares (acho que saem duas por ano) que acrescentam mais cartas sem mudar nada nas regras. Diferente de jogos de cartas colecionáveis, você não precisa comprar todas as expansões, ou qualquer expansão, para manter seu deque competitivo — as expansões meramente acrescentam variedade ao seu jogo básico, se assim você desejar.

Martinique (Z-Man Games, 2009)

MartiniqueEste jogo tremendamente simples coloca cada jogador como líder de um bando de piratas tentando achar um tesouro enterrado numa ilha tropical.

O pequeno tabuleiro, poucas regras e componentes familiares para quem associa jogos de tabuleiro a Batalha Naval, Damas e Ludo podem ajudar na transição de seu amigo, parente ou cônjuge para o mundo dos jogos de tabuleiro modernos. Martinique é jogado em duas fases: na primeira, você basicamente brinca de pula-casas com seus peões (que representam sua trupe de marginais sangüinários), coletando pecinhas que formem certas combinações que dão pontos e pistas de onde o tesouro possa estar (o mapa é dividido em um “grid” de letras e números). Quando seu pirata não conseguir mais fazer um movimento válido, ele se senta um dos bancos do bar que fica no meio da ilha — isso cria a ordem em que cada jogador pode dar seus palpites sobre onde na ilha o tesouro se encontra.

Depois que todos os piratas estiverem no bar, cada jogador tem um tempo para consultar as pecinhas com letras e números que conseguiu capturar. Eles então colocam seus piratas nos setores da ilha em que acreditam que o tesouro está, na ordem em que seus piratas foram para o bar. Mas você deve tomar cuidado para não entregar o jogo ao colocar seus piratas de volta na ilha! O outro jogador pode inferir quais pistas do tesouro você possui por onde você deposita seus piratas. Nessa hora, o jogo se torna um divertido “ele está pensando que eu estou pensando que ele está pensando”.

Com todos os piratas posicionados, as peças com a verdadeira localização do tesouro são reveladas. Ganha quem acertou. Se ninguém acertou, contam-se os pontos das peças que foram capturadas nas combinações corretas e ganha quem fez mais pontos.

Cada partida não dura muito mais que meia-hora, e talvez o único ponto negativo do jogo é que, não sendo muito elaborado ou complexo, talvez sirva mais para partidas ocasionais que para noites inteiras de jogatina.

The Rivals for Catan (Mayfair Games, 2010)

The Rivals for Catan (box)Diferente de The Struggle for Catan, que não passa de uma transliteração mal-matada do clássico The Settlers of Catan para um jogo de cartas, The Rivals for Catan é um jogo propriamente desenvolvido, independente e diferente. Um dos grandes problemas do ótimo Settlers é não poder ser jogado por apenas duas pessoas, mas Rivals faz um ótimo trabalho em capturar a essência de Catan enquanto ao mesmo tempo oferece um jogo único e que se sustenta sobre regras elegantes e descomplicadas.

Cada jogador é um Príncipe de Catan que tenta desenvolver sua própria província, fundando aldeias e as interconectando com estradas (tudo representado por cartas que se parecem com bolachas de apoiar copo). Avanços tecnológicos e construções também podem ser acrescentados às suas aldeias, que podem ser desenvolvidas em cidades. Algumas cartas especiais podem ser usadas para atrapalhar a vida do adversário, mas Rivals é um jogo bem menos agressivo que Settlers, então interferências do outro jogador não são muito freqüentes ou mesmo devastadoras; ganha quem souber administrar melhor seus recursos — com um pouco de sorte no dado ao ganhar esses recursos.

Foto: Mayfair.com

Este jogo é ótimo para todo o tipo de jogador pois conta com uma versão introdutória, com regras simples, que usa poucas cartas e não dura nem meia-hora para terminar, e também três versões temáticas com maior complexidade, que usam diferentes cartas e levam mais tempo por partida. Além disso, há “regras de campeonato”, que transforma Rivals quase que num deck buikding game.


Estes são os jogos estritamente para duas pessoas que eu conheço e recomendo. No próximo texto, cobrirei os jogos que permitem vários jogadores que também podem ser jogados por duas pessoas sem diminuição da experiência e sem precisarem de adaptações.

Todas as fotos deste artigo foram tiradas por Marcelo Duarte Ferrari e são CC BY-SA, exceto pelas fotos do jogo The Rivals for Catan, retiradas do site Catan.com, propriedade de Mayfair Games, Inc. e usadas com caráter de divulgação.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

Facebook Twitter Google+ Flickr Vimeo Skype  

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE
%d blogueiros gostam disto: