Sanctum_vol1_pp27-8Na avalanche de descontos comemorando a San Diego Comic-Con no Comixology na semana passada, três graphic novels de 2014 da editora Humanoids quase passaram despercebidas. São elas Cape Horn (quatro edições), Sanctum (três edições) e Screaming Planet (duas edições). Screaming Planet é uma coletãnea de histórias curtas de ficção científica que não me interessaram; comprei SanctumCape Horn.

O preço regular delas já está de volta, $5.99, mas eu adquiri cada edição por ridículos 99¢. Cada edição de cada um desses gibis tem quase 60 páginas, o que é praticamente o triplo de um flop regular da Marvel ou da DC, o que significa que, mesmo pelo preço “cheio”, essas revistas valem a pena se você ler o que eu achei elas e se interessar. Também coloquei links para outros lugares em que essas graphic novels podem ser encontradas, tanto versões digitais quanto impressas.

Cape-Horn_HumanoidsCape Horn é uma saga histórica passada na Terra do Fogo, a pontinha mais sul da América do Sul. É realista, sem sobrenatural ou E.T.s, nada disso.  A história te 352 personagens. As vidas de dois mineradores, um norte-americano e o outro, italiano, se misturam com um navegador solitário inglês, um navio de pesquisas francês, oficiais da lei chilenos corruptos, um prussiano traidor sacana, militares argentinos, índios Yamana, missionários jesuítas… uma daquelas sagas de época meio O Tempo e o Vento, meio diário de viagem de Amyr Klink.

A narrativa é um pouco… encorpada: algumas páginas misturam trechos de diários ou cartas com quadrinhos sem balões que nem sempre têm a ver com o que está escrito, trazendo a idéia de que ou muito tempo se passou ou que aquele é um ponto de confluência das várias vidas que acompanhamos em Cape Horn. Às vezes funciona, às vezes o contraste entre texto e arte é muito grande e a idéia se perde. Mas páginas assim são poucas e espaçadas.

A riqueza da arte é assustadora. Fotorrealista, dá pra ver cada mínimo detalhe das roupas de época (de várias culturas), dos navios, dos animais, da paisagem… o tipo de revista em quadrinhos que você deve ler devagar para absorver cada página. Ou Enea Riboldi levou um ano para terminar essa graphic novel ou ele não é humano.

O texto é de Christian Perrissin e a arte, de Enea Riboldi. Disponível em quatro edições no Comixology por $5.99 cada ou completão por $5.95 (para Kindle) na Amazon. Também está disponível em edição única e capa dura por $37.72 no Book Depository (que tem frete grátis para o Brasil).

Sanctum_HumanoidsSancum é suspense/horror estilo Lovecraft ou Clive Barker. O super-submarino norte-americano USS Nebraska está investigando um sinal de socorro automatizado perto da costa síria quando descobre um submarino soviético afundado desde os anos 1950 a uma profundidade considerada impossível de se alcançar — supostamente, o Nebraska é o primeiro submarino do mundo capaz de descer tão fundo no oceano. Dentro do velho submarino russo encontram-se cadáveres que morreram de jeitos estranhos e uma carga arqueológica roubada dos nazistas ao fim da Segunda Guerra Mundial. Não demora para a tripulação do Nebraska começar a ter alucinações, adoecer misteriosamente, matar as pessoas com um machado…

A arte é regular; nada fantástico mas também não é amadora. O artista tem momentos altos e baixos, o que o nivela numa nota 7: alguns double spreads subaquáticos são de tirar o fôlego (com o perdão do trocadilho), mas algumas páginas de diálogo entre com mais de três persongens juntos ficam confusas e eu misturei alguns personagens várias vezes. Há uma tentativa de diferenciar os vários personagens através de óculos, barba, comprimento ou cor do cabelo… mas mesmo assim eu levei um tempão para entender quem era quem. Rostos e tipos corporais simplesmente não são muito distintos. Apesar disso, a narrativa que a arte proporciona é em cima da pinta; dificilmente eu leio histórias em quadrinhos de suspense que de fato contêm ambientação sinistra e a cadência que esse tipo de história requer.

A história se passa alguns anos no futuro, possivelmente para explicar a existência de um submarino gigante como o USS Nebraska e permitir a Christophe Bec desenhar espaços grandes dentro dele e dar uma sensação mais de estação espacial de filmes de Hollywood que submarino militar. O roteiro é muito bom, apesar da minha experiência ter sofrido um pouco graças à letrinha maldita que é difícil de ler na tela relativamente pequena do iPad Mini. Outra coisa que me cansou foram os balões que se alternam entre elípticos e retangulares, mas valeu a pena o cansaço visual porque a história é muito legal. Enigma do Horizonte encontra Esfera.

Texto de Xavier Dorison e arte de Christophe Bec. Disponível em três edições a $5.99 cada no Comixology ou capa dura por $31.13 no Book Depository (envio grátis para o Brasil).

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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