Ilustração: “Cybercat” por Lars Sowig (Artstation)

Eu tenho o hábito de ler um livro de fantasia atrás do outro, depois um livro de FC atrás do outro, depois se encaixar livros de horror em seqüência… você entendeu. Uma das coisas que me cansa em ler um gênero com freqüência desse jeito é que chega uma hora que parece que se você leu um, leu todos. Isso acontece em várias outras áreas também: uma vez um escritor de RPG que eu entrevistei para um podcast que não existe mais disse que ele abandonou resenhar discos de heavy metal para uma revista porque aquilo havia estragado o gosto dele pelo gênero; ele ouvia tanto heavy metal, tão constantemente, que “queimou o paladar” dele pro gênero, e todas as bandas pareciam iguais. 

Eu não sei se isso serve para música, mas eu descobri um jeito muito bom de manter meu interesse num gênero literário: ler gente diferente. Dá uma olhada na sua coleção de livros aí, ou se você faz listinhas do que leu no Skoob ou GoodReads, pega suas últimas leituras. Não são absolutamente coalhadas de homens brancos? Não parece que é só que lemos? A culpa não é de mulheres ou negros ou LGBTs que escrevem pouco. A culpa é das editoras e lojas, que optam por sempre te mostrar as mesmas pessoas. E o machismo e o racismo estrutural de nossa sociedade garante que o que eles vão sempre te mostrar, recomendar, promover, dar descontos, é homem branco hétero.

É onde entra esta listinha: uma seleção de livros no gênero cyberpunk que foram escritos exclusivamente por mulheres e por gente LGBT. Alterne sua regular leitura de homens cis e brancos com estas verdadeiras obras de arte e se torne uma pessoa melhor. Afinal, diversidade dá lucro! 

Synners, de Pat Cadigan 

Vencedora do prêmio Arthur C. Clarke de 1992, em Synners, a linha entre tecnologia e humanidade é inevitavelmente fina. Synners são pessoas que adentram um secto de hackers barra-pesada e ilegais. Com seus sintetizadores de realidade eles se conectam ao espaço virtual e criam sua própria realidade. E nesse futuro você pode modificar seu corpo para se adaptar às máquinas, não o contrário. O custo? Sua humanidade.

O livro exibe um mundo do futuro que é perigosamente parecido com o que o nosso está se tornando. O constante fluxo desenfreado de nova tecnologia gera novos tipos de crime, corporações e indivíduos sem escrúpulos invadem sua mente e transformam suas crenças e preconceitos em sua realidade pessoal — para lhe vender seus produtos e serviços, e a mente humana se fundiu com a paisagem virtual ao ponto que qualquer interação com a “realidade” é incidental. Synners é igualmente uma história que serve de alerta e uma montanha-russa de emoções. E de quebra você ganha uma espiadinha no que nosso mundo pode de fato se tornar.

Todo o corpo de obra da Pat Cadigan a coloca solidamente na cúspide do gênero cyberpunk, do qual ela é considerada uma das matriarcas.

The Girl Who Was Plugged In por James Tiptree Jr.

James Tiptree Jr. (nascido Alice Bradley Sheldon mas depois mudou) é um dos melhores autores de FC e livros que eu já li. Seu livro The Girl Who Was Plugged In foi publicado em 1973, o que antecede um pouco o gênero cyberpunk, mas de certo modo o prevê. Recebeu o Hugo de melhor “novella” em 1974. 

A história se passa num futuro distópico onde tudo é controlado por um regime capitalista (futuro, Mr. Tiptree?!). Apesar de propagandas serem ilegais (a própria palavra “propaganda” é uma palavra de baixo calão), mega-corporações são perfeitamente capazes de persuadir e controlar as pessoas através do uso de celebridades criadas pelas corporações para divulgação de seus produtos. Entra a nossa protagonista, uma garota de 17 anos de idade chamada Philadelphia Burke, que é recrutada para se tornar uma dessas celebridades depois de uma tentativa de suicídio provocada por ostracismo (ela tem Síndrome de Cushing). Enquanto convalesce no hospital, Burke é escolhida por um “head hunter” para se tornar uma Operadora Remota para Delphi, uma garota linda criada por uma corporação a partir de um embrião modificado num útero artificial, que por isso não possui um cérebro funcional e precisa de alguém para comandá-la remotamente. 

Uma das coisas mais legais desta história é o ponto de vista do narrador e sua audiência presumida. James Tiptree Jr. explicitamente dá o gênero do narrador da história como do masculino, e também foca a narrativa direcionando-a ao público masculino de FC, desse modo manipulando as expectativas desta audiência à medida que a história se desenvolve. Com isso, ele realça os problemas típicos que você encontra nas preferências literárias de homens cis.

O texto é curtinho (cerca de 35 páginas) mas é muito difícil encontrar uma cópia à venda. Eu consegui encontrar uma que vem junto com o livro Screwtop de Vonda McIntyre na Amazon estadunidense e no Abe Books

Trouble and Her Friends de Melissa Scott

A Barnes & Noble, editora do livro, o lista entre os baluartes da ficção especulativa queer e um livro vital para a imaginação gay.

A história é a seguinte: India Carless, conhecida como Trouble, conseguiu sempre ficar um passo à frente da polícia até se aposentar de sua vida de hacker. Ela então se estabelece com uma fonte de renda mais quieta, dirigindo uma pequena rede para uma cooperativa de artistas, e tem vivido uma vida calma pelos últimos três anos. Só que alguém roubou seu pseudônimo e começou a usá-lo para realizar ciber-atos ilícitos. Então a verdadeira Trouble retorna à senda para uma última missão, com a ajuda de sua ex-namorada Cerise, e viajam através do país atrás do falsário, num mundo cem anos no nosso futuro, em que os agentes da lei caíram sobre o mundo virtual com força, fechando o nosso conceito de que a internet é um velho oeste. Ainda assim, a competente Trouble é o gatilho mais rápido do mundo virtual. 

 Trouble and Her Friends se posiciona bem no centro do gênero cyberpunk, com vívidas descrições de realidade virtual, implantes neurais e uma narrativa que remete ao antigo gênero noir, mas é pouco usual neste universo porque sua narrativa é distintamente feminina e quase todas as personagens principais são gays ou lésbicas, uma raridade no ultra-macho cyberpunk.

O livro saiu originalmente em 1994 e ganhou o Lambda Literary Award for Gay & Lesbian Science Fiction and Fantasy em 1995.

Este são três dos livros escritos por mulheres e LGBTs que eu tenho para você de um total de seis. Na próxima postagem eu trago mais três recomendações. E vamos ler gente fora do regular!