« Foto: Simon Varsano © 2011 Lionsgate

Uma falácia permeia o cenário do RPG no Brasil. A falácia de que é mais importante interpretar que jogar — ou seja, quem não interpreta está jogando errado.

O raciocínio falso começa pela canhestra afirmação de que, quando começa o combate, a interpretação pára. Por conseqüência, no combate não há interpretação. Isso está atravessado em minha garganta faz tempo, e não consigo engolir. Como assim, não há “roleplay” no combate? Como disse Randall Walker, no episódio 26 do podcast Dungeon Master’s Round Table, respondendo a alguém que questionava a distinção entre combate e interpretação no Dungeons & Dragons, “não há distinção, realmente. Você pode interpretar em qualquer situação. Não importa se você está num Skill Challenge, combate… a qualquer hora que o jogador diz ‘eu me levanto, brando minha espada e o acerto com ela’ é um tipo de roleplay. Pode não ser sofisticado, mas ainda assim é interpretação”. E ele continua: “a 4e certamente tem muitas mecânicas, mas isso não quer dizer que você não possa interpretar nessas situações [em que há mecânicas em jogo]”.

Porém, essa discussão deve ser invalidada, pelo simples motivo de que, se não for, estamos assumindo que se deve interpretar para jogar direito! O perigo de um raciocínio assim é que, se há um jeito direito (certo) de jogar, há um jeito esquerdo (errado). Como canhoto de nascença, acho essa idéia muito ofensiva.

Há um jeito correto de jogar RPG? Jogar direito não seria “se divertir”? Jogar certo não seria, portanto, jogar de um jeito que fosse divertido, tanto para você como para todos que estiverem jogando? “Certo” não seria passar algumas horas agradáveis ao redor de uma mesa, participando de um jogo, seja com amigos, seja com total desconhecidos numa convenção? Posso estar sendo ousado aqui, mas duvido que haja alguém que discorde dessa afirmação. Portanto, desde que estejam todos se divertindo, não há realmente um jeito errado de jogar.

É muito bonito quando alguém se levanta da cadeira, chacoalha os braços, diz “meu warlock traça runas arcanas no ar, que brilham com energias místicas vindas de Shadowfell, enquanto brada ‘jamais ferirei vós nova criatura deste plano, biltre vilão!'” mas é igualmente válido e recompensador se o mesmo jogador rolar o d20 e dizer “acerto o mind flayer com 16 pontos de dano necrótico”. Quem há de dizer que não? Só porque ele não está “interpretando”? Isso não é interpretação, é teatrinho.

Portanto, sim, existe “roleplay” durante o combate (parte integral de tantos jogos). Mas, mais importante, interpretar não é essencial para se divertir. Divertir-se é essencial para se divertir! O resto é decoração — e algumas pessoas exageram nela.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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