Ilustração: “Cybercat” por Lars Sowig (Artstation)

Bem-vinda à segunda parte desta lista com livros do gênero cyberpunk escritos e protagonizados, não por ultra-machos brancos e cis, mas por mulheres e pessoas LGBT! Como faltam só mais três livros na minha lista, está na hora de confessar que esta lista foi na verdade concepção de Jonathan McIntosh, o cara do excelente canal Pop Culture Detective. Em Junho de 2018 ele soltou essa lista no Twitter. Eu levei um ano e-mail pra ler todos os livros (alguns foram bem difíceis de achar), e por isso eu a divulgo, com um resuminho e opinião sobre os livros, nesta seqüência de dois textos.

Você poder ler a primeira parte neste link antes ou depois deste aqui.

Slow River de Nicola Griffith

Lore Van Oesterling acorda num beco chuvoso. Nua e com um corte enorme em suas costas, ainda sangrando, e seu implante de identidade faltando. Lore era a filha de uma das famílias mais poderosas do mundo… mas agora ela não é ninguém. E tem que se esconder…

Lore cruza eu novo caminho com um cara chamado Spanner, um ladrão profissional, que a deu abrigo e cuidou de seu ferimento. Spanner ensin Lore a se reinventar sempre que necessário, então ninguém conseguiria encontrar Lore agora: nem a polícia, nem sua família, e nem os seqüestradores que a arrebataram e a deixaram como morta num beco escuro. Grata por escapar da morte certa, Lore torna-se uma criminosa

Slow River ganhou o Nebula de melhor romance e o Lambda Literary Award em 1996.

Eventualmente Lore se torna desgostosa com quem se tornou, e escapa das nas sombras com Spanner depois de roubar o implante de identidade de uma mulher morta com o objetivo de retomar sua vida e movê-la para uma direção completamente nova. Mas, para garantir esse recomeço, Lore vai precisar dos talentos de Spanner, que a odeia mas também precisava dela. Spanner vai ajudá-la, claro, mas por um preço. Neste livro, Lore Van Oesterling descobre que há um custo para viver em quaisquer das avenidas que ela conhece agora, e terá que lidar com novos perigos externos e também com seus demônios internos. Conseguirá Lore assimilar quem ela foi, quem ela é, e quem ela deseja ser?

Slow River é um ótimo livro com uma protagonista lésbica num mundo pós-moderno em que sua identidade sexual não é uma questão. De fato, a protagonista passa mais tempo obsecando sobre seu cabelo que sobre o que a sociedade pensa de uma mulher lésbica. O foco do livro é tratar uma sexualidade “alternativa” como perfeitamente normal. E quem sabe lendo mais livros assim não ajudamos a construir esse futuro?

Prepare-se, porém, para um livro com narrativa frenética. A história pula para narrativas em três momentos diferentes na vida da protagonista, às vezes em primeira pessoa, às vezes em terceira pessoa. O suspense e a tensão de alguns momentos é palpável, e Nicola Griffith faz um bom trabalho em manter o autor interessado e virando as páginas. Não leia Slow River antes de dormir!

Moxyland de Lauren Beukes

Moxyland segue a história de quatro diferentes personagens vivendo numa versão futurista da Cidade do Cabo, África do Sul.

Kendra, uma ex-estudante de arte recebe uma marcação permanente de um programa de marketing de nanotecnologia; Lerato, que nasceu soro-positivo, planeja desertar da corporação que o emprega; Tendeka, um ativista de pavio curto, está se tornando cada vez mais errático; Toby, um blogger excêntrico, descobre que os video games que ele joga pra ganhar dinheiro são muito menos inocentes do que parecem. Todas estas histórias são tecidas num caminho inevitável de colisão que irá mudar as vidas de nossos protagonistas para sempre. O livro tem um governo dominado por mega-corporações, motivos ulteriores de criadores de video games insidiosos, mercenários biotecnológicos, identidades virtuais, vício de marcas, e até mesmo arte geneticamente modificada. Basicamente, Lauren Beukes pega nossa tendência consumista e hedonista e a leva às últimas conseqüências, num mundo que teoricamente se passa no futuro ou numa realidade alternativa, mas que se parece desconfortavelmente demais com o nosso, ao mesmo tempo que destrói nossos vagos conceitos de que progresso irá nos salvar.

vN de Madeline Ashby

Quando eu li este livro tinha acabado de sair sua continuação, iD. Hoje já temos a trilogia completa, com o terceiro livro ReV.  

Amy Peterson é um andróide que se auto-replica conhecido como  um VonNeumann, ou vN. Nos últimos cinco anos, ela tem crescido lentamente como parte de uma família mixta de gente orgânica e gente sintética. Seu pai humano e sua mãe vN restringem sua dieta para que ela cresça na velocidade de uma criança humana ao invés do crescimento acelerado de uma criança vN. Ela sabe muito pouco sobre o passado de sua mãe andróide, então quando sua avó chega e simplesmente ataca sua mãe, Amy não perde tempo e a come viva.

Agora Amy carrega sua avô avariada como parte de seu drive de memória, e com isso ela está descobrindo e aprendendo coisas que pareciam impossíveis sobre a história de seu clado, como por exemplo o fato de que ela não possui a trava de falha que a impediria de ferir ou matar humanos…

Este livro é rápido e não perde tempo, pulando de enredo para enredo, de motivação para motivação, de forma que chega a ser errática se você não está lendo prestando atenção. Também é cheio de ação até as bordas, um livro longe do conceito de tédio como eu jamais vi antes. Isso pode deixar você meio perdido se você acabou de sair de uma narrativa super-lenta como O Senhor dos Anéis (foi o meu caso), mas não se você já anda acostumado a ler literatura de ação. No meio disso tudo, a autora salpicou importantes discussões sobre consciência (humana e sintética), livre arbítrio versus programação, etc. Uma discussão que vai continuar nos dois livros seguintes, iD e ReV. que formam a série The Machine Dynasty

Mais três livros escritos e protagonizados mulheres e LGBTs! Já leu algum da seleção anterior? Me diga o que achou aí embaixo nos comentários! Qual a próxima seleção de gênero com (hehe) gêneros não-mainstream você quer ver aqui no blog?