Rasgar livros de Vampiro: O Réquiem por ordem da editora não é o fim do mundo.


Eu costumo me isolar bem dos memes locais (e internacionais), mas às vezes eu acabo esbarrando com eles sem querer. Um com o qual eu topei ontem — e que, como é de se esperar, se espalhou pela internet como fogo no milharal — é de um procedimento que a Devir está requisitando das livrarias que recolherem cópias da primeira edição nacional do livro Vampiro: O Réquiem. O texto-denúncia pode ser lido no blog 4nerds.com.br.

Burning book

Posso estar metendo o bedelho em conversa alheia, mas minha opinião é que isso é muito barulho por nada, semelhante à comoção por conta da linha de calçados de peles exóticas que a Arezzo lançou. Naquela, como nesta, eu vejo a reação popular como fruto da ignorância: assim como as pessoas descobriram, de repente, que couro é pele de animal, a internet está permitindo que qualquer tipo de informação corriqueira, mas antes relegada a certas áreas de ofício, sejam acessíveis a qualquer um — e, muitas vezes, sem a parte essencial da informação, que é o contexto.

E qualé o problema em destruir cópias de uma edicão que tem substituto e está, de acordo com a editora, com falhas? Não é como se a Devir fosse o nazismo ressuscitado ou estivesse invadindo as casas dos clientes para lhes roubar o livro ou estivesse querendo esconder alguma informação vergonhosa.

Pior ainda: esse procedimento é corriqueiro e acontece desde que existem casas editoriais. Se você, caro leitor, tem um pocket book em Inglês aí em sua estante, há uma boa chance de nele estar escrito, numa das primeiras páginas, algo como “se você adquiriu este livro sem a capa, ele estava agendado para destruição mas foi desviado. Por favor, devolva este exemplar e contate a editora imediatamente, pois você pode estar de posse de um artigo roubado.”

Sinceramente, falho em entender onde está o absurdo no procedimento. A Devir está trocando o livro com falhas editoriais (de acordo com ela) por desconto na compra de uma edição nova, somente se o cliente assim o quiser, pedindo às livrarias que recolherem essas cópias que já as destruam ou desfigurem o livro (ou partes do livro) logo de cara, provavelmente para evitar extravio — afinal, são objetos com um bocado de valor agregado. Ela não tem a obrigação de informar isso aos clientes, já que se trata de um procedimento interno, corriqueiro e não é exclusivo dela! Toda editora faz isso, há séculos. A Devir — ou qualquer editora — não tem a obrigação de revelar ou explicar cada minúcia do processo editorial ou comercial a pessoas físicas. De fato, fazê-lo pode lhe trazer prejuízos.

Mas, como ocorre na era da informação sem julgamento, a história caiu na rede, como se fosse algo inédito, e agora a Devir teve uma suástica pintada em sua reputação por conta de uma bobagem dessas. Se antes a revolta fosse por conta de todo aquele papel não estar indo para reciclagem, eu até entenderia.

Book tearingVocê, leitor, guarda cuidadosamente cada pedacinho de papel que chega às suas mãos? Não joga nada fora, nunca? Não rasga contas antigas, notas fiscais depois que o prazo de retenção já passou? Não destói fotocópias e apostilas da faculdade, não pica em pedaços bem pequenininhos versões anteriores de contratos? Isso tudo é informação, informação velha e defasada, que só ocupa espaço e pode até gerar confusão se deixada junto com outro papel que possua a versão corrente da mesma informação.

Livros são a mesma coisa. Adoro livros, são legais, bonitinhos, etc etc etc. Mas não são relíquias sagradas, não devem ficar nesse pedestal metafísico. Livros são veículos para informação como qualquer outro meio, e não é pecado destruir um livro velho, defasado ou com erros — é papel, a informação ainda existe em outro lugar. Os nazistas destruíram livros porque queriam destruir a informação, não seu veículo, e tentavam destruir informação através da queima de livros, porque naquela época não havia cópias digitais, servidores e CDs. Hoje, provavelmente usariam vírus de computador ao invés de fogueiras.

Não ache, por exemplo, que livros nunca saem da gráfica com erros de impressão. Se a editora detecta isso antes, irá devolvê-los, solicitar uma nova fornada e mandar destruir a edição falha. Deveriam guardar cópias do livro que saiu com a capa errada, ou as margens tortas, pelo simples propósito de guardar, porque é livro e livro é objeto sagrado? Não. Já viram aquelas peças de decoração, que se aproveitam de livros velhos? Veja aqui um exemplo, e aqui outro, e mais outro aqui, e aqui ainda mais outro — e tente não ter um infarto. Afinal, colar e furar livros também não é destruí-los? Ninguém parece revoltado, disposto a agredir e difamar decoradores e designers por conta disso. E estão destruindo livros, não estão?

A meu ver, a Devir não fez nada de mais, e não fez nada que qualquer editora não faria. O problema é a desinformação, que foi espalhada no formato de escândalo (que rende acessos e cliques) e sem a devida contextualização.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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