Com todos os avanços nos direitos humanos e liberdades civis que o Ocidente exibe neste começo de século, é difícil acreditar quando me dou conta de que, há poucas décadas, mulheres não podiam votar ou possuir propriedade na maioria dos países ocidentais. Ainda há muito o que fazer, porém, como obter verdadeira igualdade no serviço militar ou nos salários mas, ao menos na fantasia (literatura, TV e jogos), as coisas são bem mais igualitárias.

De fato, a literatura de fantasia é sufragista faz tempo. Óbvio que ainda vemos as ocasionais princesas indefesas trancafiadas em torres solitárias, mas esse estereótipo hoje parece ser mais pitoresco que padrão. Nos anos 1960, Anne McCaffrey já colocava mulheres poderosas em posições proeminentes em seus maravilhosos romances e contos da série Dragonriders of Pern. Mas acho que o mais importante no conjunto da obra de McCaffrey é que sexismo é um não-problema por lá — as mulheres são líderes dos Weyrs (a fortaleza dos dragonriders) e cavalgam os dragões dourados que, além de serem também fêmeas, são os únicos dragões capazes de botar ovos (o outro tipo de fêmea, o dragão verde, se torna estéril por ingerir o mineral que os permite soltar fogo pelas ventas). Porém, o dragonrider do animal que conseguir pegar e cobrir o dragão dourado também ocupa uma posição de igual importância no Weyr — os sexos, portanto, são iguais em direitos e deveres. Além disso, McCaffrey alterna suas lindas histórias entre protagonistas mulheres e homens, sem que nenhum prevaleça ou que o fato de ser homem ou mulher sugira algum tipo de papel pré-definido. Quando a igualdade entre os sexos nem é mesmo discutida, atingimos verdadeira equidade.

© 2012 Peter Mohrbacher

© 2012 Peter Mohrbacher

Outra autora que tenho em meu coraçãozinho gelado é Ursula Le Guin. Seu mundo de Earthsea ignora completamente as questões sexuais (tratando heróis e heroínas com igualdade) para discutir o mito da raça entre seres humanos. Apesar de completamente ignorado por tentativas desastrosas (ou nem tanto) de transportar algumas das histórias do gigantesco arquipélago para a sétima arte, o povo de Earthsea possui tez escura, acobreada, não muito diferente dos povos polinésios de nosso mundo. Os bárbaros incultos das terras geladas do norte, esses sim, são branquelos e louros. O que mais gosto em Earthsea, no entanto, é como papéis da vida doméstica são ressaltados como construtores de caráter. Muitos dos personagens principais dos seis livros principais e das histórias seguintes têm algum tipo de trabalho atribuído a eles por uma questão de capacidade, e os padrões sociais são baseados nisso, não onde ficam suas gônadas.

Ah, sim. A obra de Le Guin é maravilhosa por quebrar outra regra da fantasia: o arquipélago de Earthsea está tecnologicamente na Idade do Ferro e não na Idade Média, onde 11 de cada 10 livros de fantasia costumam estabelecer sua tecnologia.

© 2010 Magnus Roth

© 2010 Magnus Roth

Tá certo que na verdadeira Idade da Pedra (ou Idade Média) homens e mulheres possuíam papéis muito bem definidos e o sexo feminino era geralmente mal-tratato (para dizer o mínimo) e não tinha nem um centésimo dos direitos dos sexo masculino. Mas quando jogamos RPG ou videogames ou lemos um bom livro de fantasia, precisamos nos atentar para as sensibilidades modernas. Tudo bem ter um pouco de verossimilhança, mas querer reproduzir com fidelidade como era a Idade Média européia é ridículo por vários motivos: primeiro porque, a não ser que você seja algum PhD em cultura medieval, você sempre vai relevar as partes que não conhece direito ou nem faz idéia que existem ou, pior, irá perpetuar mitos e preconceitos modernos. Segundo, não tem graça alguma jogar com gente feia, suja, rude e machista (especialmente machista). Terceiro, tentar ser realista demais vai gerar situações ridículas, como tentar xingar como um verdadeiro caubói fora-da-lei do oeste americano de 1870 — “curse you” era um xingamento tão feio quanto “motherfucker” é hoje — que, aliás, era um palavrão inexistente no Velho Oeste.

Então, da próxima vez que um jogador à sua mesa zoar você ou outro jogador porque o ele acha que algum PC ou NPC feminino é irreal, quebre o nariz dele e alegue que, se o imbecil quer realismo, era na porrada que se resolviam ofensas na Idade Média. E cuspa nele por mim.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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