Se você está na faculdade, mora com os pais ou vive sozinho, ignore este texto. Você provavelmente joga RPG de oito a dez horas por semana. Vá em frente e faça uma campanha de Savage Worlds que começa na Primeira Grande Guerra e termina, vinte e cinco sessões depois, com a crise dos mísseis em Cuba.

Agora, se você tem mais de trinta, trabalha oito horas por dia, tem mulher, filhos e cachorro — e, como eu, joga RPG de duas a três horas por mês, não perca seu tempo. Arcos de história que começavam no nível 1 do AD&D e terminavam no 20 são coisa do tempo da faculdade. Espero que você tenha feito alguns desses e curtido bastante porque, agora, nunca mais. Triste? Não, parte da vida. Ganha-se muitas coisas e perde-se outras ao envelhecer. Você tinha muito tempo nas mãos aos dezoito anos de idade, mas era quebrado, morava com os pais e o melhor sabor do mundo era a pizza do Habib’s. Aos trinta ou quarenta, provavelmente já conquistou um bocado de coisas — que você assume sempre estiveram lá, mas não estiveram: são conquistas que mais que compensam as coisas deixadas para trás ao fim do colégio. O problema é querermos tudo, pensarmos só nos ônus e nunca nos bônus.

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Comece direto na ação.
(Ilustr.: Geoffroy Thoorens)

Veja quantos jogos você provavelmente tem agora. Aos 18, sofreu para conseguir dois suplementos de World of Darkness — que conseguiu comprar, usados, no eBay usando o cartão de crédito da sua mãe — que se tornou permanentemente inacessível depois que ela descobriu. Hoje, o tempo está curto por conta do monte de coisas que você faz no dia, de academia a passear com o cachorro, de ir ao cinema com a mulher ao curso de inglês. O jogo é uma parte menor da sua vida porque sua vida hoje está cheia de coisas para fazer. Cada uma daquelas horas de jogo precisa valer a pena. Portanto, esqueça os longos arcos épicos. Pense pequeno, pense local. Pense nouvelle cuisine. X-Tudo com ovo ficou para trás. Agora você tem o dinheiro, o paladar e a companhia para apreciar comida de bistrô uma ou duas vezes por mês.

Sabe aquele monte de livro de RPG que você consegue comprar com seu salário, ou os Kickstarters que começaram a chegar pelo correio depois de um ano? Dá para jogar todos aqueles jogos, sim. Só precisa se concentrar em um de cada vez. Digamos que você só consiga emplacar uma noite de jogo por mês, no único dia em que calha da sua mulher estar no happy hour com as jararacas do trabalho dela, seu amigo psicólogo não ter pacientes à noite, seu primo médico estar de folga do plantão e os pais do seu amigo quarentão que está na terceira faculdade saíram de casa — deixando aquela enorme mesa de pôquer livre e desprevenida. Você sabe que só há um dia no mês para jogar, então use algumas horas de cada semana antes do jogo para ler e se preparar. Coloque o livrão de 400 páginas do Eclipse Phase na lista de leitura ou deixe na gaveta do escritório para ler na hora do almoço ou reserve uma hora da noite para ele ao invés de ver novela. Ouça actual plays dos vários podcasts que há por aí (recomendo RPPR e Fandible, e há muitos outros neste catálogo) para ir pegando as nuanças de regras e cenário e mande e-mails com suas impressões do que está lendo para seus jogadores.

Se o jogo vier com personagens prontos, tanto melhor. Se o publisher disponibilizar uma aventura pronta gratuitamente no site do jogo, perfeito! Caso contrário, crie os personagens para seus jogadores. Você leu direito: crie os PCs você mesmo. Vocês não têm tempo a perder, e uma noite gasta fazendo PCs é uma noite jogada… fora. Se vocês retornarem ao jogo no futuro, pode deixar seus jogadores fazerem os personagens — empreste o livro ou sugira para eles comprarem o PDF no DriveThruRPG. Mas não na primeira noite, nunca na primeira noite.

Ignore jogos cuja evolução de personagem acontece em níveis. É muito tentador querer jogar esse mesmo jogo por meses a fio, ou começar logo no nível 15. Esses jogos têm evolução em nível por um motivo: cada nível é mais complexo que o anterior, e você vai ter um monte de jogadores perdidos, sem saber o que fazer de tantos recursos. Prefira jogos cuja evolução é sutil, pois você pode fazer uma sessão com personagens mais avançados com facilidade; é muito pequena a diferença entre um personagem seasoned e um novice em Savage Worlds, e o mesmo vale para Shadowrun e muitos outros.

Ou faça exatamente o contrário. Pathfinder é seu jogo favorito? Seus jogadores adoram o sistema e o cenário? Vá em frente e comece num nível mais baixo (mas não no mais baixo) e jogue só ele, por um longo tempo — mas um tempo determinado. Só existirá frustração para você e seu grupo se você tentar alternar um jogo longo com vários curtos; pode ser que seu grupo adore aquele jogo novo que vocês experimentaram mês passado e agora só queiram jogá-lo; pronto, ferrou-se o seu arco de aventuras super-complexo no outro jogo. É preciso ignorar quaisquer outros jogos se você vai comprometer suas três horas mensais de RPG com um cenário/sistema só. Pense nisso: se você, como eu, só joga uma noite de três horas por mês, irá acumular a merreca de 12 sessões e 36 horas ao fim de um ano. Jogos curtos, aventuras únicas de qualquer jogo já vão comer duas ou três sessões aí, então não desperdice tempo com jogos paralelos se seu negócio é jogar Dragon Age do nível 1 ao 20. Por sinal, para acelerar um pouco as coisas sem deixar seus jogadores perdidos, suba-os sumariamente de nível a cada poucas sessões — a velocidade com que seus jogadores agüentarem (que é raramente com a velocidade com a qual eles gostariam de ganhar nível).

Experimente idéias estranhas. Ilustr.:  Hardy Fowler

Experimente idéias estranhas.
(Ilustr.: Hardy Fowler)

Por fim, determine um período de tempo para cada um desses jogos longos, que muitos sistemas chamam de “campanhas”. Estabeleça X sessões ou Y meses de jogo. Planeje a história conforme esse período de tempo e encerre o jogo quando chegar a hora, deixando seus jogadores à par: “semana que vem, galera, é a última sessão, o clímax, o fim”. Isso irá colocá-los no clima e você poderá ver muitas ações heróicas e inesperadas. Eu já vi personagem se sacrificar para salvar outro ou para levar o vilão junto porque o jogador sabia que ali tudo acabava. É muito legal. Você pode até voltar àquele jogo no futuro, mas realmente… com quantas continuações de ótimos filmes você já se decepcionou. Pense “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, “Alien: a Ressurreição” e “Matrix Reloaded/Revolutions”. Mesmo os jogos curtos se beneficiam de um período determinado para vocês experimentarem o sistema e partirem para o próximo item da sua lista de jogos que um dia queria jogar.

Os dias de muito jogo ficaram para trás. Hoje, seus dias são cheios, ricos e melhor apreciados. Use seu tempo com sabedoria e lembre-se que, com todo ônus por ter amadurecido, vem um bônus três vezes maior. Um deles é fazer de toda sessão de jogo a melhor que você já teve. É fácil, basta se lembrar que é o único jogo que você terá em semanas.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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