Terça-feira à noite meu celular baixou o mais recente episódio do podcast Vergecast, que eu ouvi antes de dormir. Foi uma entrevista de 46 minutos com Neil Young e Phil Baker em que Neil Young praticamente falou por 90% do tempo. Foi uma conversa fascinante e cheia de meandros. Na manhã de quarta-feira, eu abro meu feed de notícias e sou inundado por uma avalanche de chamadas que não variavam muito de “Neil Young diz que Apple tem qualidade de brinquedos da Fisher Price”.

Em primeiro lugar, Fisher Price produz ótimos brinquedos; e, como os produtos da Apple, são os mais caros do mercado. Em segundo lugar, jornalismo morreu mesmo, né? De uma conversa de 46 minutos, tudo o que esses pressupostos “jornalistas” extraíram foi uma frase click bait que o Neil Young falou no meio de um monte de coisa como uma reação hiperbólica a um assunto muito mais extenso e complicado.

Mas eu não estou aqui pra defender o roqueiro. Ele falou umas merdas, mas o que me pegou foi que as chamadas das notícias não focaram nos enganos dele durante a entrevista, e sim numa frasezinha controversa só pra gerar cliques. Que povinho amador! Vamos ao contexto (fique à vontade para ouvir o episódio do Vergecast)

Foto por Dmitry Bayer via Unsplash

O argumento todo do Neil Young vai soar bem familiar se você for um audiófilo: ele diz que antigamente, na época do LP, todo mundo ouvia música de qualidade, porque era analógico, uma reprodução mais ou menos fiel ao que se gravava no estúdio. Se era de baixa qualidade, é porque foi masterizado porcamente. Hoje, na era digital, todo mundo escuta música pobre e de baixa qualidade. Por quê? Porque as empresas de streaming compactam as músicas, o que elimina os detalhes de uma boa gravação e porque tem gente fazendo música em seus MacBooks ao invés de usarem um estúdio profissional (e caro). E como todo mundo só escuta streaming, só escutamos música ruim. Quem cresceu ouvindo vinil ou 8-tracks identifica hoje a baixa qualidade de música digital, mas quem cresceu na era digital não sabe o que está perdendo. Ele culpa as empresas de streaming, como Apple, Google, Spotify, etc, por isso, porque mesmo numa era de 5G e Internet de gigabits, essas empresas ainda priorizam você pegar a música instantaneamente ao invés de esperar alguns segundos para baixar uma versão lossless da faixa que seja praticamente igual ao master. De acordo com Neil Young, empresas de tecnologia estão estragando nossas orelhas, porque insistem em nos vender laptops com péssimas caixinhas de som para cortar custos. Ele também criticou a predominância de fones de ouvido minúsculos e com Bluetooth.

Foto por Juja Han via Unsplash

Neil Young está errado? Sim e não. Ele tem razão no sentido de que ouvir música analógica é uma experiência mais rica. É o mais próximo que você pode chegar de ter estado no estúdio ouvindo a banda gravar. Só que ele exagera quando diz que todo mundo ouvia música de qualidade trinta, quarenta anos atrás. Pra você ter a experiência mais pura possível, você precisava de um toca discos de primeira linha, uma agulha novinha, receiver e caixas de som gigantes e de custar os olhos da cara, e um ambiente acusticamente tratado. Quem é que tinha esse setup em casa?! Minha família tinha um sistema Gradiente chiquetérrimo, mas que ficava no corredor que dava pros quartos, as caixas de som estavam enfiadas no meio dos livros que ocupavam a estante da parede e eu nunca vi meus pais limparem a agulha do toca-discos — ou os discos. E esse era o sistema mais caro que eu conhecia, porque nenhum dos meus amigos de infância tinha em casa mais que um toca-discos dos mais baratos, caixas de som pequenininhas e discos que eram guardados deitados ao invés de em pé. Hoje, com 40 anos de idade, orgulhoso dono de um toca-discos automático da Sony, com quartz lock, direct drive e braço tangencial, eu entendo muito mais de som, mas tudo isso me custou uma grana, incluindo a agulha que custou mais que o toca-discos e os dois pares de fones de ouvidos que eu já tinha para editar podcast. Quantas pessoas sabiam disso e tinham condições de montar um setup como esse, além do Neil Young, em 1980?

Taí a revolução digital: com o advento do CD, tudo o que você precisava era um par de fones de ouvido razoáveis para ouvir música com a melhor qualidade que você já ouviu na vida. CDs não chegam ao nível de detalhamento de um LP novo, bem prensado, vindo de um master cuidadoso e tocado num sistema todo sintonizado; só que ninguém tinha esse tipo de setup, então a música era cheia de wow e flutter, ruído era uma constante, etc. etc. etc. A qualidade média do CD era muito superior ao LP, não porque CDs e música digitais são melhores (não são), mas porque ninguém tinha equipamento ou ambiente pra ouvir um LP do jeito que ele foi feito pra ser ouvido.

E CDs ficaram pra trás. A música digital dos primeiros Compact Discs tinha uma amostra de 44.100 Hz e 16 bits (nem vou entrar na qualidade do SA CD porque quase ninguém o conhece no Brasil), uma limitação que sumiu no mundo digital de downloads e streaming, porque agora você pode ouvir, teoricamente, uma faixa a 96.000 Hz e 24 bits. Tem gravacão dos anos 70 que nem chega a tanta informação no master. A crítica do Neil Young aos serviços de streaming até tem algum mérito: esses serviços poderiam estar nos dando áudio lossless através da Internet, mas optam por compactar as faixas para você baixar depressa. Mas eu defendo que o Neil Young está olhando para o passado com uma visão saudosista e idealizada (aliás, como todos fazemos); ele está esquecendo que ele conseguia ouvir um disco com o melhor equipamento e num ambiente adequado porque é um roqueiro com conhecimento, contatos e dinheiro. A maior parte de nós não tinha condições, seja financeiras, seja de informação, pra isso.

Eu não tenho orelha de ouro, mas eu consigo diferenciar pequenas diferenças de qualidade. Eu consigo distinguir uma faixa de áudio de 96 kb/s, 128 kb/s e 192 kb/s, mas quando ela passa de 256 kb/s, eu já não diferencio. Uma transmissão lossless a 360 kb/s seria desperdiçada em minhas orelhas. Quando ouço um LP de qualidade, com uma agulha nova e um par de fones de ouvido nos quais que eu deveria ter ficado com vergonha de ter gasto tanto dinheiro, eu percebo uma melhor qualidade comparado com música digital. Melhor, não. A palavra que eu deveria usar aqui é riquesa. O som do LP é mais rico, mais… presente? Difícil descrever. Mas isso quando eu comparo com a mesma música de uns 256 kb/s. Acima disso, eu não percebo a diferença entre um áudio lossless e um LP com meu setup.

Outra coisa que temos que lembrar é que o Neil Young está velho e ranzinza. É natural que queiramos que as coisas sejam como imaginamos que eram quando éramos mais jovens — até porque elas não eram perfeitas como nossos cérebros de humanos super-falhos gostam de nos dizer que eram. Nos lembramos do pouco que foi bom e esquecemos convenientemente do muito que era péssimo. Então, ouça o que Neil Young tem a dizer, porque ele tem muito a dizer e vale a pena ouvi-lo, mas dê-lhe um desconto. A orelha dele é muito melhor que a minha.

A Sony tem um texto muito bom explicando as diferenças de qualidade de áudio digital. Dê uma lida!