Tal qual um vilão de desenho animado, a guerra das edições sempre volta para nos atormentar. E a mais recente vítima é a carta-curinga chamada bom senso.


Este rant começou como parte da discussão sobre o episódio 3 do podcast Dimensão 7. Depois de escrevê-lo, me decidi por transformá-lo numa postagem aqui, já que faz muito tempo que não escrevo para o Notícias.

Locução “bom senso” de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa:

1 capacidade, poder ou aptidão de distinguir o verdadeiro do falso, o bom do mau, o bem do mal, em questões corriqueiras, que não careçam de soluções técnicas, científicas ou não exijam raciocínio elaborado.
1.1 julgamento correto e equilibrado, p.opos. aos estados perturbados de alma, por paixão, loucura, enlevo etc.
2 m.q. razão.

© 2003 Wizards of the Coast

Acho que as pessoas perdem perspectiva em qualquer discussão quando a intenção de esculhambar um sistema em favor de outro circula nos recessos da mente, consciente ou inconscientemente. A perspectiva em questão é a eterna reclamação contra GMs que se prendem a regras e jogadores que se aproveitam das regras. Isso não é de hoje: já era uma conversa velha quando eu comecei a jogar RPG, em 1994.

A cada geração, os mesmos mantras precisam ser repetidos, e até aí, tudo bem; o problema é misturar o velho adágio “as regras estão lá para ajudar o GM, não para atrapalhá-lo” com a necessidade mesquinha de agredir a nova edição de seu jogo favorito, ou um sistema ou editora que por motivo de gosto pessoal não lhe agrada. Eu joguei quatro ou cinco sessões de AD&D 2nd. ed. mestradas pelo Artur (do Vozes da Terceira Terra) que se mostraram completamente diferentes do jeito que eu mestrava o mesmo sistema, quando ele era atual. Já enfrentei jogadores que compravam suplementos e usavam itens e elementos de lá sem me consultar, e depois insistiam que deveriam funcionar à mesa de jogo, e já tive o prazer de jogar com jogadores (meu grupo atual, de fato) que me lembram de uma regra do jogo que claramente irá prejudicá-los, mas me lembram assim mesmo.

Ao fim e ao cabo, sempre se precisou lembrar GMs, DMs, Narradores, MJs, Keepers, Animadores, Ghostmasters, Árbitros, etc. de que a primeira regra do jogo, a regra zero, a regra de ouro, a máxima não-escrita de todos os RPGs (exceto «Burning Wheel») é que ele, o GM, sempre tem razão. Isso não é de hoje, não é de ontem, nem de anteontem. Nos primórdios do RPG, isso já precisava ser lembrado aos jogadores. Logo que comecei a jogar GURPS, em 1995, essa discussão já aparecia em chat-rooms e em revistas (ou melhor, no chat-room de RPG do UOL e na revista Dragão Brasil, porque a discussão é tão velha que naquele tempo só havia um de cada).

É atribuída a Gary Gygax a frase “o segredo que nunca devemos deixar qualquer mestre de jogo saber é que eles não precisam de regra alguma”. Mas não é uma máxima apenas do AD&D, não é uma descoberta monumental de um único RPG, de um único jogador, nem acabou de acontecer. É uma conversa velha, batida e que constantemente volta à tona. Hoje, ela voltou embrulhada na bala disparada contra os GMs que abraçaram sistemas recém-lançados (e não tão recém-lançados), como se fosse uma coisa que apenas Dungeon Masters de D&D 4e tivessem esquecido. Mas todo mundo esquece essa regra de tempos em tempos, e é por isso que ela sempre volta aos trend topics.

Aí, usa-se o bom senso, o que quer que isso signifique, como se fosse uma metralhadora rotativa, aniquiladora de todo argumento, capaz de perfurar qualquer armadura retórica. Qualquer um que quer encerrar um assunto, qualquer pessoa que não tem uma resposta a um dilema, usa a frase “para isso é preciso usar o bom senso” com a determinação de quem pôs um ponto final à conversa; Mas bom senso (o que quer que isso signifique) não é uma arma mágica, uma pílula milagrosa; ninguém discute o que significa usar o bom senso, como usar o bom senso na situação-problema em questão, ou o que é bom senso. E como saber se você é portador de bom senso, para começo de conversa? Como é uma frase de argumento circular (“usa-se bom senso quem tem bom senso, portanto se tem o bom senso de saber o que bom senso é”) ninguém explica o que é, ou o define pelo que não é, ninguém propõe como usá-lo — apenas que se deve usá-lo.

© 2003 Wizards of the Coast

Para Gagy Gygax, “o DM só rola dados pelo som que eles fazem”. Trata-se de um comentário bem-humorado, é claro, mas podemos usá-lo como um exemplo de como a ideia do bom senso é amorfa e aceita qualquer fôrma. Eu fui um DM tirano por um tempo, no começo de minha carreira. Rolava dados apenas pelo som que eles faziam, era o verdadeiro Mestre da Dungeon, antagonista dos personagens, o vilão da história. Enquanto meus jogadores gostavam disso, tudo ia bem, e quando eu fazia algo exagerado, antagônico ou caprichoso, PCs morriam, mas todos ficavam felizes porque se divertiam e estava tudo ótimo e se podia dizer que eu estava exercitando meu músculo do bom senso a cada decisão como Dungeon Master.

Até que um dia, decidiram que eu estava exagerando um pouco. Jogadores invariavelmente se interessam pelo «DM’s Guide» ou pela Sessão do GM no Livro Básico, e começam a ter suas próprias ideias de como uma aventura divertida deveria ser. Também começam a decorar regras, fazer combos, procurar as menores vantagens possíveis para aumentar o tempo de sobrevivência de seus personagens; e aí, de repente, tudo o que eu fazia (com bom senso, muito importante), passou a ser fruto das maquinações de um DM tirânico, malvado, que não tinha interesse na diversão de ninguém a não ser na própria — e isso significava, invariavelmente, estragar a diversão dos jogadores, porque o bom senso, todo mundo sabe (porque é bom senso, afinal), diz que um DM tirânico só consegue se divertir quando seus jogadores não se divertem.

O que era bom senso virou tirania. O que eram jogos desafiadores viraram produtos de uma mente egoísta. O que era diversão virou assassinato de PJ. E eu me vi tendo que mudar meu jeito de ser DM — ou, devo dizer mais precisamente, tive que usar o tal do bom senso, que antes tinha e estranhamente deixei de ter, para mudar meus métodos de mestrar.

Isso não aconteceu porque o sistema mudou, porque saiu uma nova edição ou porque compramos algum suplemento mais novo. Aconteceu porque, como qualquer coisa, depois de um tempo você quer mais. Experimente comer a mesma refeição todo dia. Experimente ver o mesmo episódio de Seinfeld toda semana. Experimente jogar o mesmo jogo todo Domingo.

Matutando sobre este elusivo assunto, a conclusão à qual cheguei é que o bom senso, o que quer que isso signifique, é a ração dos cães da guerra das edições.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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