Felizmente o único contato que tive com o preconceito contra o RPG vem dos blogs de gente mais antenada que eu, e de histórias que leio neles. Eu mesmo, nem nunca enfrentei, nem sequer presenciei qualquer tipo de imagem ruim quanto ao meu passatempo favorito. Contato com o preconceito, só indireto, através de histórias sobre conhecidos que foram barrados em escolas, shoppings ou sobre notícias que saíram em jornais regionais — como o caso e Volta Redonda (ou seria Teresópolis?). Mas só porque fui poupado não significa que não possa fazer nada a respeito, se puder. E, inadvertidamente, descobri que posso: através do jogo público.

gameday1

© 2009 Marcelo Dior

Em Ribeirão Preto falta um lugar público em que se possa jogar RPG — a única loja de RPG, a ClicMix, precisa fechar à noite porque seus donos dão aula. Mas, estimulado pelo RPG Club RP, comecei um grupo nas manhãs de sábado no Parque Prefeito Luiz Roberto Jábali — conhecido como Parque do Curupira. O parque é gostoso porque é semi-coberto em sua área de alimentação, é fresco, tranqüilo e bonito. E fica perto do centro da cidade, a meio-caminho das residências de quase todos os jogadores que conheço. Definitivamente melhor que meu minúsculo apartamento para jogar!

Minha experiência jogando num local público se mostrou inadvertidamente benéfica para a imagem do RPG. Como jogamos Dungeons & Dragons, nossa mesa é repleta de Power Cards coloridos, grandes mapas, dados chamativos e muitas miniaturas. Isso acaba chamando atenção de adultos e crianças que freqüentam o parque. Eventualmente transeuntes curiosos tomam coragem e nos interpelam sobre o jogo. Então combinei com os outros jogadores que devemos sempre parar o jogo e amigavelmente explicar o que é aquilo. Deixamos as pessoas folhearem os livros, manipularem dados e miniaturas e já até refinamos uma sucinta e eficiente explicação sobre o jogo, que algo mais ou menos assim: “este é um jogo de fantasia, com uma história semelhante aos filmes ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘As Crônicas de Nárnia’. Cada jogador controla um herói (mostro uma miniatura) e eu controlo os adversários — sejam monstros (exibo uma miniatura bem imponente), sejam armadilhas (aponto para algum ‘tile’ com chamas ou um fosso). Os jogadores agem em turnos, como em qualquer outro jogo de tabuleiro, e usam estas cartas (mostro as Power Cards) com os poderes de seus heróis. Cada poder usa um dado diferente para saber se acertou (mostro alguns dados bem simples, para não desviar a atenção da pessoa com dados translúcidos ou perolados). Eles avançam pelo tabuleiro e eu coloco os desafios. Qualquer dúvida, temos estes livros de regras.”

© 2009 Marcelo Dior

© 2009 Marcelo Dior

Nesse momento, todo mundo se assusta com o tamanho dos livros, e explicamos que nada tem que ser decorado. Mostro que no Monster Manual há monstros para eu escolher, e por isso é um livro grande, tem muita variedade de criaturas, e mostramos que no Player’s Handbook há diferentes tipos de heróis, muitos poderes para cada um escolher, além de itens especiais que podem ser encontrados nas salas do tabuleiro, e as regras para quando estivermos na dúvida — e nesse ponto as versões em Português, por mais que eu não goste delas, vêm muito a calhar. Obviamente, as pessoas ainda saem de lá dizendo que parece ser um jogo complicado e que nós somos “inteligentes” por jogá-lo. Mas afastam-se com um olhar de admiração ou pedem para nos ver jogando por alguns minutos.

O segredo está na simplicidade das informações passadas aos transeuntes. Fiz isso todo sábado por quase um ano e, com tentativa e erro, refinei o método com alguns truques:

• Não uso termos de jogo. Note que escolhi as palavras “herói” e não “personagem”, por exemplo. Não toco em termos como “Dungeon Master”, “dungeon” ou sequer “masmorra”, e não digo “mapa”, mas “tabuleiro” e “sala” (quase todo jogo de tabuleiro tem salas). Não falo que há classes ou raças, e ignoro expressões como “d6” ou “d20”. Só digo que os dados têm quantidades diferentes de lados se a pessoa perguntar, e também não mostro nenhuma ficha de personagem, só os Power Cards (e, claro, ignorando completamente os termos “at-will”, “encounter” e “daily”).

• Se a pessoa perguntar do preço, falo que os livros não são mais caros que uma caixa de War ou de Jogo da Vida, e que é comum que nos juntemos para comprar o material — mesmo se for mentira. Sobre onde comprar, indico a loja mais próxima, assim como livrarias, e digo que há muitos outros jogos, com os mais variados temas: ficção científica, mistério e até horror. Sim, horror. Digo que assim com há quem goste de filmes de horror, há quem goste de jogos de horror, e livro a cara de vocês, jogadores de Vampiro: A Máscara (seus esquisitos).

© 2009 Marcelo Dior

© 2009 Marcelo Dior

• Geralmente contestam o jogo ser em inglês (é impressionante como quase toda gente comum que encontro fica assombrada por haver quem entenda outra língua). Eu respondo que o RPG já foi bem difícil de achar no Brasil, mas que agora muitos jogos podem ser encontrados em português, inclusive o que estamos jogando, em lojas especializadas ou livrarias.

Com esta conversa simples, 100% dos curiosos se afastam satisfeitos e com admiração nos olhos. Até mesmo um homem da Guarda Civil se interessou por nós, e saiu admirado, dizendo que iria procurar o jogo para jogar com uns seus colegas que adoram de jogos de estratégia.

Quão legal é isso?!

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

Facebook Twitter Google+ Flickr Vimeo Skype  

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE
%d blogueiros gostam disto: