A morte anunciada da RPG Con 2012 finalmente aconteceu; algumas pessoas disseram “eu já sabia”, alguns grupos estão tentando se organizar e fazer mini-convenções na cidade de São Paulo para não perderem a passagem aérea que já compraram, eu fiz um vídeo de muito mal-gosto sobre o assunto e muita gente ainda anda chorando pelos cantos, lamentando o fim do RPG, a morte do RPG.

Que exagero. O fim do RPG? O RPG está morto? Qualé. Em primeiro lugar, era uma convenção que atraía duas, três mil pessoas, no máximo. Dificilmente todo mundo que joga RPG. Em segundo lugar, ela ocorreu por três anos, não trinta — se a GenCon um dia for cancelada, essas pessoas vão pular dos prédios, de desespero? Em terceiro lugar, o cancelamento é evidência de amadorismo por parte da administração, não sintoma de doença mais séria, sinal de que o passatempo anda moribundo — no país onde se produzem os RPGs que jogamos, a mesma GenCon vê um crescimento constante de público, entre 10 e 20%, há cinco anos. Em quarto lugar, e se for o fim do RPG? E se o RPG morrer? E daí?

© 2010 Sans Raison

Vamos comparar RPG com literatura, já que ambos são produzidos no formato de livro. Digamos que todas as editoras do planeta fechem as portas amanhã. De acordo com a UNESCO, foram publicados quase 330 mil livros nos EUA (e pouco mais de 18 mil títulos novos no Brasil) só em 2011. É muito, muito livro em um único ano. No romance «I Am Legend», de 1954, o autor Richard Matheson faz seu protagonista, Robert Neville, o último homem vivo na Terra, considerar brevemente a possibilidade de um dia ficar sem cigarros. Mas Neville logo se dá conta de que há dezenas de bancas de jornal, postos de gasolina e lojas de conveniência só no seu bairro, e talvez milhares delas em toda Los Angeles (onde se passa a história do livro), somando toneladas e toneladas de cigarros. Ou seja, ele poderia fumar dez maços por dia que não ficaria sem cigarros pelo resto da vida. O mesmo vale para livros: se nenhuma editora nunca mais publicasse livro algum a partir de amanhã, eu ainda teria mais livros para ler do que eu consigo contar sem enlouquecer, e isso só contando os livros que eu realmente quero ler.

Mas imaginemos que, nesse cenário de apocalipse literário, eu leia um livro por dia, obsessivamente, sete dias por semana, 52 semanas por ano, com ajuda de leitura dinâmica, que eu viva por muitos, muitos anos e que meu interesse seja realmente restrito (que eu leia, digamos, só livros de ficção científica espacial hardcore): um dia, é conceptível, mesmo que altamente improvável, que os livros acabem. Isso não aconteceria com RPG.

Vamos nos limitar agora só à minha prateleira. Eu tenho quinze ou vinte jogos, i.e., livros básicos, e algumas dúzias de suplementos (desculpem a falta de precisão nos números — mudei-me mês passado e meus livros ainda estão dentro das caixas de mudança, sendo necessário que eu procurasse o que tenho na minha estante virtual no goodreads.com, que é incompleta). Acho que tenho uns quatro de fantasia, quatro de ficção científica, dois de horror, um genérico de amplo escopo e alguns cross-gender, como steampunk de horror e fantasia científica, por aí. Se eu nunca mais comprar um livro básico ou suplemento enquanto viver, eu ainda assim teria material o suficiente para mestrar todo fim-de-semana, até morrer, passar esses livros para meus filhos e netos, e eles jogarem todos os fins-de-semana de suas vidas, até morrerem, passando esses mesmos livros (depois de umas reformas e restaurações, provavelmente) para as gerações seguintes, até a humanidade implantar chips wi-fi no cérebro e ninguém mais saber ler. Isso porque a graça do RPG não termina quando você acaba de ler o livro, muito pelo contrário: ela só está começando. Mesmo se eu tivesse somente o livro básico de Savage Worlds para chamar de meu, nenhum outro, nem sequer um cenariozinho, eu ainda teria mais RPG para jogar do que eu conseguiria listar aqui. O que eu realmente preciso para jogar Savage Worlds é meu cérebro, papel e lápis, um único conjunto de dados, alguns amigos (às vezes só mais um amigo) e algumas horas do dia. Papel, lápis, dados, amigos e horas eu tenho de sobra; o cérebro só melhora com o passar dos anos. O livro de Savage Worlds, basta que uma pessoa no grupo de jogo o possua — e mesmo assim até jogarmos por tempo o suficiente para nos acostumarmos com as regras que sempre usamos, porque depois disso só precisamos dele para montar personagem.

© 2011 Marcelo Dior

A Pinnacle pode fechar as portas. A Wizards of the Coast pode ser liqüidada pela Hasbro. Green Ronin pode falir. A White Wolf pode… bom, ninguém trabalha mais lá — eu não notaria a diferença. Me permitindo ser bem egoísta, só para reforçar meu argumento, digo que, desde que eu tenha meia-dúzia de amigos com quem jogar, todo o resto do planeta pode esquecer que o RPG existe — meus jogos não seriam minimamente afetados! E daí que o público não se renova? Eu não estou jogando e nem pretendo jogar com novatos, já ensinei minha cota nos três anos em que mestrei, quase todo fim-de-semana, num parque público local. Para deixar claro como água: eu e meus amigos podemos ser os últimos jogadores de RPG sobre a face da Terra, usando o último exemplar de Rolemaster existente no universo, que ainda assim viveríamos felizes pelo resto de nossas vidas.

O RPG está morto? Descanse em paz. Minha mesa de jogo está bem viva.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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