Poucas coisas são tão fortes na cultura humana quanto uma boa história; Nós não sabemos exatamente quando o homem dominou os princípios de uma linguagem complexa através de sons, e é provável que nunca saibamos, mas é certo que contar histórias está na raiz desta necessidade. Há 40 mil anos o homem já pintava nas paredes de cavernas imagens de animais, caçadas e até de partes de seu corpo (sobretudo as mãos) apesar do real motivo pelo qual isso era feito ainda nos ser desconhecido, não podemos negar que essa vontade de se expressar está na origem de querer contar uma história, quem sabe, talvez essas pinturas fossem as antepassadas das fotografias, marcando momentos importantes nas vidas dessas pessoas, que eram então usadas para recontarem fatos vezes e vezes sem fim?

Quando o homem aprendeu a falar e, em algum momento próximo, criou pensamentos abstratos suficientes para pensar no além vida (isso é bem claro, em dado momento o homem passa a se importar com os corpos de seus semelhantes, lhes conferindo enterros, coisa que, anteriormente, não acontecia) as primeiras grandes histórias devem ter sido contadas, afinal era preciso explicar o que acontecia com aqueles pessoas. Imagine quão difícil é explicar um conceito abstrato como “alma” ou “além” usando um repertório bem restrito de palavras, quantas voltas na história será preciso dar para que seu ouvinte seja capaz de entender do que está se falando?  Mitologia e religião foram por séculos a base das grandes histórias, Gil Gamesh, os Argonautas, a Guerra de Tróia, as lendas dos Tuatha de Dannan entre outras foram o substrato do pensamento do homem por séculos, eram essas pessoas especiais, esses seres mágicos e deuses que andavam pela Terra que explicavam coisas que não podíamos explicar de outro jeito, ou melhor, que não podíamos explicar de outro jeito dentro daquele mundo (é como o caso do avistamento de sereias por Colombo: não importa o que essas sereias seriam para nós hoje, se as víssemos, para Colombo elas eram sereias, pois era a única forma que ele podia compreender aquelas coisas). Contar histórias foi durante muito tempo a forma que o homem podia explicar seu lugar no universo; Mas não eram apenas histórias, eram uma autoafirmação de identidade, uma forma de criar laços entre si e ao mesmo tempo regular suas existências a níveis que eles não eram capazes de entender. Conceitos como bem e mal, certo e errado são puramente sociais e durante muito tempo foram as histórias que nos deram esse substrato (ainda deveriam dar, mas infelizmente cada vez mais perdemos o hábito de contar histórias para nossos filhos) e que nos fizeram entender que éramos parte de um grupo.

© 2008 Victor

© 2008 Victor

Existem, é claro, muitas outras formas de contar histórias, entre elas a literatura e o teatro, expressões artísticas que ainda hoje nos são caras (ou deveriam ser). Em resumo, quando pensamos em literatura, no teatro e, posteriormente, na ópera, elas são todas ferramentas que o homem inventou para contar uma história, para fazer com que essa história dure e atravesse o tempo, é uma evolução quase natural do ato de contar histórias ao redor do fogo, é o desejo de criar alguma coisa que dure de forma quase intacta. Nós hoje somos muito mais influenciados pela tv e pelo cinema, mídias diferentes que sempre voltam ao mesmo princípio: o desejo do homem de contar ou ouvir uma história, apesar da qualidade cada vez mais duvidosa…

Acho que muitos devem estar se perguntando “e o que isso tem a ver com RPG? Porque cargas d’água esse texto está num blog sobre um jogo inventado na década de 70 por dois malucos americanos?” Ora, pelo motivo mais básico o possível: o RPG se resume a contar histórias… Agora, antes de eu ser surrado até a morte por aqueles que são gamers e acham que sem crunch não existe RPG, eu acho que vale fazer um pequeno turning point aqui e explicar como eu conheci esse jogo estranho antes de voltar e explicar o que eu quis dizer com a frase acima.

A primeira vez que eu tive contato com RPG eu tinha uns 6 ou 7 anos, na época era muito comum os acampamentos de férias (quem tiver perto dos 30 e for de São Paulo deve se lembrar dessa onda) e num desses acampamentos que eu fui havia um grupo de garotos mais velhos (sinceramente não tenho nem ideia da idade deles, mas o que importa era que eles eram “os mais velhos”) que num dos dias propôs para os organizadores montar uma aventura de RPG. Eu lembro que os garotos passaram a tarde toda preparando a aventura (como se fosse uma super coisa complexa) e, à noite, com a ajuda de 3 dados (d6 mesmo, desconfio que era uma versão de GURPS para dummies) eles narraram duas mesas para o restante de nós. Infelizmente, como é natural no nosso hobby, a aventura não chegou ao final e no dia seguinte a programação era outra, o que me deixou com uma sensação de quero mais. É claro que eu já havia assistido muita Caverna do Dragão e quando eles falaram do tal RPG o dito desenho foi citado (mesmo que a gente tenha jogado uma aventura futurista) e eu fiquei por muito tempo depois dessas férias com a sensação de que aquele jogo deveria ser a coisa mais legal do mundo. A ideia de um mundo que era criado por nós e no qual tudo o que queríamos fazer era permitido, bastava rolar uns dados e pronto! Mas, infelizmente, no meu meio ninguém jogava, o que me privou por muito tempo de um novo contato. Eu só fui voltar a ter contato com o RPG no segundo colegial, quando por acaso um dos meus colegas de sala comentou que jogava e eu “me ofereci” para jogar junto e mesmo essa experiência foi bastante breve, pois me mudei de escola pouco tempo depois, só encontrando realmente um grupo para jogar no terceiro colegial. Durante todo esse tempo minha experiência com o RPG foi bastante truncada: primeiro um pseudo-sistema caseiro baseado em GURPS, depois Vampiro e o restante da linha White Wolf (que era a moda durante a geração xerox e muito depois dela); Acho que só fui jogar D&D muitos anos depois de começar a jogar regularmente, de forma que minha visão do que era RPG sempre esteve muito mais ligada a criar um personagem e contar uma história do que às regras e dungeon crawling…

© 2011 Randis Albion

© 2011 Randis Albion

Voltando à minha afirmação acima, eu acho que a essência do RPG está em contar histórias (rapidamente seguido de encontrar os amigos e se entupir de salgadinho e refrigerante), pois foi assim que eu o conheci, para mim as regras são apenas uma forma de ajudar a contar essa história e não um empecilho ou o coração do que é o RPG. O que torna o RPG poderoso aos meus olhos é que nele não somos simples espectadores ou ouvintes. Como os heróis daqueles mitos antigos, está em nossas mãos o poder de mudar o rumo de um mundo, pelo menos naquelas poucas horas em que dura uma sessão. A realidade que se constrói enquanto participamos de uma sessão de jogo reside justamente aí: por contarmos essa história ela será real em nossas mentes enquanto estivermos imersos nela e, às vezes, até mesmo depois (quem nunca se pegou pensando no que seu personagem fará na próxima sessão durante momentos cotidianos?).

Por esse motivo eu realmente não acredito que o RPG esteja morrendo (ou morto segundo os mais trágicos), pois enquanto o homem contar histórias, enquanto ele for ávido por transpor os limites que nossa realidade impõe com a ferramenta mais poderosa que ele possui – a mente- haverá espaço para o RPG, mesmo que este não seja igual ao que jogamos hoje. O RPG está ligado essencialmente ao ato de contar uma história e esta é uma característica nos define como humanos.

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