Ressurreição através de magia sempre foi uma pedra no sapato de DMs e GMs em inúmeros jogos de RPG, particularmente no Dungeons & Dragons, em que esse tipo de recurso está disponível para os jogadores na forma de ‘raise dead’, ritual de nível 8 que tem o ridículo custo de 500 peças de ouro. Mas, ao invés de limitar ou proibir esse recurso, por que não usá-lo para compor uma ambientação que gira em torno da facilidade de voltar dos mortos?

Ilustrações: Wizards.com/DnD


Parece incrível, mas acho que encontrei a solução para o problema da ressurreição no Dungeons & Dragons.

Ah, mas era um problema? Antes, então, um pouco de contexto: o maior entrave para qualquer criação de fantasia especulativa (fantasia, horror e ficção-científica) são as soluções que o fantástico traz para os problemas do mundo real. Nos universos das histórias em quadrinhos da Marvel e da DC, com Vingadores, X-Men e Liga da Justiça andando por aí, como podem haver ditaduras no Irã, na Coréia do Norte e no Sudão? Por que o Superman não usa tecnologia kriptoniana para acabar com a fome no Chifre da África (ou nas regiões pobres dos próprios Estados Unidos)? Porque Hank Pym e Sr. Fantástico não encontraram a cura para a AIDS ainda? Por que Wolverine não mata todos os chefões do crime organizado que existem?

Nos mundos de fantasia em que jogamos, o problema é o mesmo. Como podem haver doenças e trabalho pesado em mundos entupidos de clérigos e magos? Em Forgotten Realms, a morte do Rei Azoun IV abalou a mais poderosa nação das Terras Centrais do Ocidente. Mas por que não ressuscitaram o cara? Elminster mesmo já morreu umas três vezes, e até ilustres desconhecidos como os PCs vivem morrendo e voltando.

Alguns criadores de mundo tentam, com variados graus de sucesso, resolver essas incongruências. Sean Preston tentou imaginar, em RunePunk, como seria uma cidade que existe num mundo em que magia e tecnologia eram conseqüências práticas de ciências acessíveis e muito pesquisadas; Keith Baker escreveu Eberron pensando em como seria uma sociedade que se desenvolveu com magia como apenas mais um recurso natural. Mas o próprio Keith Baker admitiu que a ressurreição foi um problema que ele não solucionou, pelo simples fato dela não ter nenhuma restrição mecânica que diz que apenas PCs têm acesso a ela e o resto da sociedade, não. Ao longo das décadas, alguns artigos de revistas, suplementos e cenários tentaram lidar com o problema mas, de modo geral, as «soluções» se limitavam a restringir, proibir ou fingir que a magia raise dead não existe. Para mim, essas nunca foram soluções boas o suficiente, porque seguiam o caminho de menor resistência: mudar as regras ao invés de mudar a ambientação. Minha solução é mudar a ambientação e deixar as regras em paz, e fazer isso foi incrivelmente simples:

Eu roubei ideia dos outros.

Mais especificamente, de um autor de ficção científica, Dan Simmons. Na história que se espalha pelos livros «Endymion» e «The Rise of Endymion» (parte da série «Hyperion»), a ressurreição foi alcançada através de um objeto orgânico (não é realmente um organismo vivo), batizado de «cruciforme», porque se parece com uma estrela do mar com quatro pernas. Em contato com o cropo humano, o cruciforme projeta tendrículos que se ligam a todas as células do corpo, de nervos a vasos sangüíneos. Quando alguém morre, e não importa quão pequena é a parte que sobra — mesmo uma única célula — a pessoa pode ser completamente regenerada num período de três dias, com todas as faculdades físicas e mentais intactas (e uma incrível sensação de júbilo, que dura várias horas).

(A explicação de como o cruciforme pode guardar tanta informação é parte integral da narrativa dos livros, que totalizam mais de 1 200 páginas juntos; basta dizer que tem algo a ver com a constante de Planck.)

A dádiva da ressurreição alterou profundamente a civilização humana: sendo virtualmente imortais (os primeiros a receber o cruciforme há 300 anos ainda estão vivos no tempo presente da história de Dan Simmons), as pessoas passaram a ter menos filhos e a trabalhar menos; acumulação de poder impalpável (não dinheiro, mas influência e rede de contatos) tornou-se uma obsessão, mas também um longo jogo de xadrez — os poderosos iniciam planos complexos que levam décadas para dar resultado. A vida, em geral, se desacelerou e pessoas passaram a apreciar pequenos prazeres com mais vigor, com viagens de férias durando anos ao invés de semanas; moda e tendências praticamente desapareceram, e viagens espaciais tornaram-se possíveis. De fato, o método de viagem é bem peculiar: as astronaves aceleram a velocidades relativísticas, matando a tripulação (mais precisamente, liquefazendo seus corpos, tamanha é a aceleração), que é depois ressuscitada no destino — tornando possível, em dias, viagens que levariam anos em suspensão criogênica. Imagine só: em acusações de assassinato, a vítima testemunha contra o suspeito no julgamento!

(A pegadinha da história é que a Igreja Católica controla o processo de ressurreição, e portanto ela tem o monopólio sobre a vida eterna e decide quem morre e quem vive entre os 900 bilhões de humanos espalhados pelos 250 planetas habitados. Se você ressuscita sem auxílio das técnicas misteriosas da Igreja, você volta com menor habilidade cognitiva e algumas memórias faltando. Com o tempo, se você se ressuscitar várias vezes assim, irá se tornar um tipo de mongolóide assexuado. Mas isso só é interessante para o enredo dos livros, não de nosso mundo de fantasia.)

Então é isso. Assim como uma sociedade de fantasia não desenvolve tecnologias além do equivalente à Europa Medieval porque não precisa — se a magia resolve seus problemas, você não precisa desenvolver tecnologia para melhorar sua vida além do estado em que química, medicina, engenharia, etc. estava quando a magia se popularizou — uma sociedade em que ressurreição está à disposição de todos também irá desacelerar. Talvez crimes sérios sejam punidos com a pena de morte — o criminoso passa pelo horror da execução, é trazido de volta à vida e está com a dívida para com a sociedade paga (ou precisa trabalhar depois para pagar pelos custos da ressurreição). Talvez crimes mais sérios tenham um custo de tempo entre a execução e a ressurreição, e crimes capitais podem ser punidos com a morte final, sem ressurreição, e algum método fora desenvolvido para prevenir que aliados do criminoso simplesmente o ressuscitem com dinheiro suficiente e um clérigo «clandestino».

Os jogadores podem se deparar com situações como chegar à uma cidade para tratar com um artesão e descobrir que a filha dele está tomando conta da loja «até ele ressuscitar. Deve levar um dia ou dois. Posso adiantar alguma coisa enquanto ele não volta?». Ou talvez seja o corpo, não a alma, o componente importante à ressurreição — há alguns meses, em meu jogo de Domingo, os jogadores precisaram descer a um vale sombrio e cheio de mortos-vivos para resgatar os corpos dos colegas mortos na batalha anterior.

Por fim, uma sociedade em que ressurreição é comum (ou ao menos não é raridade) não precisa ser necessariamente imortal como em «Endymion». As pessoas podem ainda morrer de causas naturais, velhice ou doenças terríveis que impedem a ressurreição; podem ter suas almas devoradas ou roubadas por diabos, o que em si seria um bom gancho para aventuras: «O prefeito foi morto e sua alma levada para os Nove Infernos. Bravos aventureiros, por favor resgatem a alma de nosso lorde para que possamos ressuscitá-lo! Pagamos bem.»


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Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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