Outro dia, após ler uma entrevista com George R.R. Martin, onde ele falava sobre as consequências inesperadas de se tornar um escritor celebridade em decorrência da fama que sua obra “Guerra dos Tronos” alcançou de uma hora para outra e de como isso é completamente diferente de ser um escritor famoso ou bem sucedido comecei a pensar em como nós nos deixamos levar pela cultura pop e as implicações boas e ruins disso.

© 2008 Maren

Não sou do tipo de pessoa que deixa de gostar de algo apenas porque caiu no gosto popular mas, sinceramente, me incomoda um pouco quando eu olho em volta no metrô e vejo que todas as pessoas estão lendo um determinado autor ou livro, explico o porquê: sempre que vejo esse fenômeno paro para me perguntar até onde isso traz boas consequências (as pessoas pelo menos estão lendo, mesmo que seja Crepúsculo, e deixando de lado os gadgets dos smartphones ou até mesmo o vício da televisão, tão comum ao brasileiro) e até onde não passa de um efeito colateral do hype momentâneo… Será que estas pessoas continuarão lendo quando a “onda passar”? Ou melhor, será que realmente vai instigar o hábito num povo que tem uma média baixíssima de leitura anual (o brasileiro lê, em média, apenas 4 livros anualmente e só metade da população pode ser considerada leitora, ou seja, possui o hábito da leitura regular), as pessoas que leram Dan Brown passaram a se interessar por outros autores no mesmo estilo? Será que os leitores de Guerra dos Tronos vão se tornar assíduos fãs de fantasia e buscarão outros autores como J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, Ed Greenwood, R. A. Salvatore e por aí vai?

Infelizmente eu duvido disso e creio que a melhor prova que posso mostrar é o nosso próprio mercado editorial. Neste momento, por exemplo, inundado de obras de Martin, mas até pouco mais de 2 anos não havia sequer uma publicação sua em português! E olha que ele já é um escritor de renome há muitos anos lá fora. Quantos anos demorou até que H. P. Lovecraft tivesse um tratamento decente no Brasil (e só por causa dos fãs dele)? E Robert E. Howard? E tantos outros escritores, sejam de ficção ou qualquer outro gênero, cujas obras ficam boiando num limbo até que, por algum desígnio do destino, ela ou alguma “parente” acabam caindo nas graças das grandes massas?

© 2009 Jane Mere

O maior problema disso na verdade se encontra nas conseqüências dessa tradição: grandes livros muitas vezes recebem apenas uma publicação e depois somem, ou recebem tratamentos ridículos (edições definitivas que custam fortunas ou versões simplificadas) ao invés de serem tratados como livros, ou seja, como coisas que devem ser lidas e relidas, e precisam estar ao alcance de todos. Não que eu ache que não possam existir edições especiais, de colecionador ou com tratamentos diferenciados, mas acho que falta a mesma consciência que os franceses ou ingleses têm e deveríamos ter também os pocket books que são acessíveis e baratos (na França até mesmo livros acadêmicos célebres recebem esse tipo de tratamento de forma que estão rapidamente disponíveis para a população). Por esse tipo de edição se pagaria poucos Reais e se teria uma ótima diversão à mão. E esse problema, o dos valores, é tão intrínseco à nossa noção de que os livros são coisas caras e inacessíveis que eu me lembro que há alguns anos saiu uma série de republicações de diversas obras importantes nesse formato — mais descartável — e que esses livros ficaram completamente encalhados porque, como o preço era baixo, muitas pessoas achavam que se tratavam de versões resumidas!

Por fim creio que cabe a nós, leitores assíduos, mostrarmos que nossos interesses vão além do que é publicado seguindo a moda, mostrando que nossas vontades não são regidas apenas pelo que os outros acham legal e devemos, sobretudo, pressionar o nosso mercado editorial de forma a termos uma volume mais constante de publicações decentes e, quem sabe assim, fazer com que o hábito da leitura realmente arraigue no brasileiro.

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