Hoje em dia é difícil para nós imaginarmos um mundo sem o controle que nós exercemos e sofremos da passagem do tempo. Há calendários e relógios em toda a nossa volta, nós orientamos nossas vidas, pelo menos em certas instâncias, através das horas e dos dias da semana — podemos afirmar que nossa vida é controlada pelo tempo e, o mais engraçado, por um tempo criado pelo homem.

Foi a partir da revolução industrial que a vida passou a ser mais dependente do tempo artificial, esse dos calendários e das horas do relógio, quando o trabalho humano pôde praticamente se dissociar dos ritmos naturais, É claro que até hoje existem trabalhos que são menos atingidos pelas nossas noções de tempo, como a agricultura, a pesca (pelo menos a pesca artesanal) e outras atividades que estão mais ligadas à natureza, quando em suas versões em pequena escala (um grande frigorífico ou granja trabalham exatamente como qualquer outra fábrica). Os primeiros relógios mecânicos surgiram no final da idade média, instalados em campanários de igreja e torres nas praças dos burgos e, apesar de afetar em pequena escala a vida dos moradores, sua maior função estava ligada à religião: o relógio ajudava o clero a cumprir suas obrigações litúrgicas de modo mais eficiente — até então usavam-se outros métodos de se marcar o tempo, como o relógio de sol, a ampulheta, a clepsidra (relógio de água) e velas com marcações que representavam períodos de tempo. Não sei precisar qual a origem desta necessidade em especial de marcar o tempo de uma forma artificial, talvez seja um resquício das origens judaicas da religião, afinal para religiões surgidas em áreas desérticas, cujas mudanças naturais das estações e da duração dos dias são quase imperceptíveis para o homem, provavelmente os forçou a desenvolver outras formas de marcar a passagem do tempo, seja a astronomia/astrologia (mulçumanos), sejam outras formas da natureza se manifestar, como as enchentes de um rio (egípcios).

© 2012 Megan

Porém a maioria da população européia medieval (de onde parte a principal inspiração para os cenários de fantasia), era pouco afetada por tais mudanças, seu tempo era o tempo natural na maioria de seus afazeres, com exceção da vida religiosa, para uma população essencialmente agrária, o que contava era a passagem do ano, a mudança das estações, era isso que regulava o trabalho no campo, e até mesmo fora dele, pois afetava a vida da nobreza feudal, não só pelas taxações e cobranças, mas a guerra estava presa a diversas limitações que as estações impunham (costumeiramente não haviam guerras no inverno, pois não havia como sustentar animais e soldados sem a terra adjacente, também eram raras as batalhas no verão, quando a maior parte da força de trabalho estava ocupada preparando os campos para o plantio, nem no outono, quando essa mesma força de trabalho precisava fazer as colheitas e preparar-se para o inverno (logo sobrava basicamente a primavera para o combate) e que posteriormente a Igreja criou (trégua de Deus), para reduzir o número de dias aptos a serem usados em batalhas.

Não sei se vocês já pararam para observar como somos dependentes das formas de regular o tempo, criadas por nós mesmos, e como rapidamente, quando estamos fora do cotidiano, perdemos o controle desse tipo de tempo. Quem nunca pegou um feriadão prolongado e simplesmente esqueceu do relógio e do calendário, ou foi passar as férias num sitio, chácara ou fazenda? Rapidamente nós mudamos os ritmos da nossa vida cotidiana e não raro nos perdemos com horários (seja acordando muito cedo ou muito tarde, seja tendo sono em horários estranhos para o nosso dia-a-dia) e dias, claro que sempre podemos recorrer à folhinha na parede ou a um relógio. Agora imaginemos como seria não termos essa possibilidade (pois mesmo que a primeira coisa que Guttemberg tivesse imprimido fossem folhinhas, a maioria da população medieval era analfabeta), seria simples perder a conta de quantos anos se tem ou quanto tempo se passou desde um certo evento. Na cristandade medieval a liturgia ajudava os camponeses a manterem a noção geral da passagem do ano, seja marcando datas específicas, como a quaresma, a páscoa ou o dia do advento (o natal só vai se tornar importante lá pela metade da idade média, após terem finalmente fixado a data exata para coincidir com outras festividades pagãs) ou então semanalmente através das missas de Domingo. A nobreza e o clero eram bem menos afetados por esse tipo de problema, pois a marcação de tempo era bem mais precisa nestes círculos, porém eram estreitos demais e esse tipo de conhecimento ficava preso ali mesmo (e eu poderia apostar que qualquer rei do período de Eduardo III não deveria sempre saber exatamente que dia era).

Acho que muitos devem estar se perguntando a essa altura “e o que isso tem a ver com uma mesa de RPG?” Bem, se essa mesa de RPG se passar num mundo de fantasia medieval, especialmente se for uma mesa low magic ou low tech, muita coisa, imagine quantas dificuldades trariam para os personagens, especialmente para aqueles aventureiros que viajam com uma certa freqüência, não saber ao certo quanto tempo eles perderam em uma certa aventura. Imaginem esse mesmo grupo dentro de um complexo de cavernas, nas quais eles passem um tempo considerável, sem relógio, sem calendário: ao saírem eles provavelmente não saberiam realmente quanto tempo se passou e apesar de quando no mundo externo nos ser fácil perceber a mudança das estações pelos nossos outros sentidos, um grupo privado destas poderia muito bem se surpreender ao entrar num reino anão abandonado em pleno outono e ao sair se deparar com grandes quantidades de neve…

Outra coisa que podemos usar é a noção de tempo próprio que cada raça pode possuir sendo estas bem diferentes das noções humanas: para um grupo de anões que viva em cavernas ou no subterrâneo a passagem do dia para a noite nãos faz lá muita diferença, na verdade nem sequer as estações os afetariam diretamente, talvez apenas no tocante de suprimentos; existe a possibilidade de um grupo como esse desenvolver uma forma de passar o tempo muito diferente do que nós estamos acostumados. O mesmo vale para elfos, que com suas longuíssimas vidas provavelmente não seriam tão ligados à passagem dos dias, talvez medindo a passagem do tempo através das estações, afinal são um povo que vive na floresta. Muitas outras raças também podem ter formas diversas de lidar com o tempo, devido a própria fisiologia, pelos costumes, religião ou habitat, e são essas diferenças que podem ser usadas para criar aqueles estranhamento na sessão que depois fará os jogadores quererem saber mais, irem atrás de novas formas de explorar o jogo e seus próprios personagens.

© 2009 Momo Hunter

Num cenário high magic poderíamos fazer justamente o contrário, o controle do tempo poderia se tornar uma obsessão: imaginem uma ordem de magos que estudasse o tempo em todas as suas formas, de repente não apenas criando artefatos que o medissem (relógios mágicos dos mais diversos tipos poderia dar até uma ar de “steampunk medieval/mágico” semelhante ao cenário Eberron) mas tentando controlar e quantificar sua passagem de acordo com seus desígnios próprios, uma situação como essa poderia facialmente ser usada para criar um antagonista realmente perigoso para seus personagens. O tempo, portanto, pode ser usado de uma forma mais interessante do que marcar quantas horas o seus personagens dormiram ou simplesmente marcar a passagem das estações (outra ótima situação para pegar jogadores acostumados a terem recursos infinitos de alimentos e bens) ele pode ser um elemento que, em algumas situações, poderá efetivamente ser um antagonista mas, de uma forma geral, é legal nos lembrarmos de sua existência, pois garante aquela sensação de estranhamento do mundo fantástico e ao mesmo tempo uma similaridade com a nossa realidade, pois todos somos afetados pelo tempo.

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