Este texto começou numa das muitas conversas que tenho com meu querido amigo (e desenhista) Márcio Fiorito, via Messages (nós mutuamente nos apoquentamos a semana toda e ainda por cima gravamos podcast juntos!).

Cyberforce/Hunter-Killer #3 por Kenneth Rocafort

Cyberforce/Hunter-Killer #3 por Kenneth Rocafort

Lendo um gibi atrás do outro por conta do Marvel Unlimited, eu começo a notar exatamente o que me atrai em certos artistas em oposição a outros. Há qualidades que eu não discuto, coisas que acredito serem universalmente entendidas como qualidades em qualquer artista que queira se dizer profissional: habilidade de passar idéia de movimento, respeitar as regras de narrativa seqüencial (como não inverter o plano de uma vez fazendo parecer que os personagens trocaram de lugar), entender como sombras afetam objetos tridimensionais, ter uma noção precisa de perspectiva, etc. Eu me refiro aqui ao que eu procuro, ao que me agrada particularmente, além de tudo que já diz que um/a artista é bom/boa.

Eu gosto de gente que faz traço fininho e preciso. Por algum motivo, Valerio Schiti, David Marquez, Sophie Campbell, Stuart Immonen, Olivier Coipel, Amanda Conner, (talvez Ron Garney dependendo do arte-finalista) instantaneamente me enchem os olhos. Não que eu não seja doido pelos dois John Romitas e não queira me casar com o Chris Bachalo ou que eu não leia até logotipo de padaria se o Mike Mignola desenhar. Tem algo no traço fininho e certo, quase fotorrealista mas não muito (ou seja, com uma boa dose de cartum) desses caras e moças que instantaneamente me agradam. Esses mesmos artistas têm uma capacidade de desenhar pessoas e animais com um realismo e com uma variedade de corpos que monstros sagrados como o Jim Lee ou o Marc Silvestri parecem ser incapazes de fazer, o que é a segunda coisa que reparo: o corpos são variados ou eles saíram da fábrica da Barbie e do Ken?

Essas são características que eu geralmente vou notando à medita que leio um gibi. A primeira coisa que ativamente procuro, porém, é ver se o o/a artista faz caras e bocas. Eu imediatamente quero comprar um print de um/a artista que faz isto:

Journey into Mystery #648 por Valerio Schiti (arte) e Jordie Bellaire (cor)

Journey into Mystery #648 por Valerio Schiti (arte) e Jordie Bellaire (cor)

Caras e bocas! Expressões faciais além do típico comic/massavéio “ódio”, “raiva”, “gritando” e “gritando mais alto”. Se o/a artista tem a capacidade de fazer esse vasto escopo que vai de caretas a sutis expressões faciais, eu instantaneamente quero ler mais gibis que o cara ou a moça desenharam, não importa quem escreveu.

Não posso negar, no entanto, que existem aqueles detalhezinhos que desclassificam: o/a artista desenha mulheres descalças com o pé plantado no chão ou é um daqueles que faz a mulher usando salto-alto invisível? Se o cara faz isso, se eu vejo um salto-alto invisível se quer… argh! Me tira o tesão na hora.

Por extensão ao salto-alto invisível, eu procuro pelas “pontas”. Você deve se lembrar de um dos Cursos de Impacto que a revista Wizard publicava, feitos pelo Greg Capullo (no original em inglês, Krash Course, ponta é arch). No quarto Curso de Impacto, Capullo ensina a “lição” que mulheres têm que estar constantemente fazendo pontas: com os quadris, pescoço, mãos, pernas, pés, bunda… afff. Se o artista faz a mulher fazendo pontas, não importa a situação, brocho na hora:

X-Men vol. 3 #40 (arte de Jefte Palo e Guillermo Mogorron, cores de Andres Mossa)

X-Men vol. 3 #40 (arte de Jefte Palo e Guillermo Mogorron, cores de Andres Mossa)

Viu? A moça está envolvida num acidente automobilístico. Ela foi atirada pra fora do carro enquanto cai de uma ribanceira! E ela está fazendo pontas ao morrer? Puta que pariu, hein?! É esse tipo de coisa que, pra mim, fode na arte do Kenneth Rocafort, por exemplo: volte ao começo deste artigo e repare no painel de Cyberforce/Hunter-Killer. Por que a Ballistic está sendo atirada pra longe fazendo pose sexy?

Por anos, eu persegui roteiristas. Se ficava sabendo que fulano de quem eu curtia muito estava pra sair da Captain America e ir pra Iron Man, eu parava de ler aquela e começava a ler esta. De tanto interagir com artistas, especialmente o Márcio, no podcast, e por me cercar semanalmente de gente que sabe do que está falando, que esmiuça uma história em quadrinho, às vezes literalmente quadrinho por quadrinho, eu passei a não somente reparar, mas apreciar a gigantesca contribuição que o/a artista deixam numa história.

Hoje, ao mesmo tempo que respeito essa classe muito mais, também estou bem mais exigente com quem eu gasto meu suado dinheirinho.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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