Esta semana houve uma pequena discussão numa lista local de RPG que participo. Um dos participantes estava desiludido com o RPG atualmente, porque não haviam mais novidades. Reclamava que empresas como a White Wolf, que havia reinventado a roda com jogos como Ars Magica e Vampiro: A Máscara agora eram apenas mais um na multidão, sem coragem de mudar, fazer coisas ousadas, RPG diferentes; que tudo era D&D, jogos comportados e sem nada demais.

Lendo a discussão de longe, dei-me conta de como as pessoas não conhecem outros jogos! É fato que o triunvirato D&D/WoD/GURPS não só domina grande mercado como faz escola, e toda editora que sonha em ser grande não pode se desviar muito da fórmula. Mas os participantes da discussão se limitaram a citar Warhammer, Dragon Age, Shadowrun e Savage Worlds— o que mostrou que eles, também, não conhecem os RPG realmente alternativos, aqueles que de fato tentam reinventar a roda.

Editoras «mainstream» (da WotC, White Wolf, Steve Jackson Games) não pode se desvidar demais do que eles mesmos estabeleceram porque elas não chegaram onde estão reinventando a roda a cada mês — elas reinventaram a roda uma vez, dominaram o mercado, e agora precisam manter seu público. A White Wolf virou o arreio para a barriga quando criou um novo World of Darkness? A Wizards of the Coast quebrou todos os paradigmas com a 4a edição do D&D? Se sim ou se não, é uma discussão de semântica e não pretendo começá-la.

O foco deste texto é este: para quem gosta de ter uma roda reinventada novinha em folha em suas mesas de jogo, há vida inteligente lá fora… e como! Justamente por não terem nada a perder, editoras realmente pequenas (ou mesmo produtores individuais) são uma alternativa perfeita. Jogos como Shotgun DiariesDon’t Rest Your HeadA Dirty WorldDogs in the VineyardPrimetime AdventuresAlpha OmegaUnhallowed MetropolisColonial GothicHouses of the BloodedBurning WheelMouse Guard RPGMontsegur 1244, Monsters and Other Childish Things (a lista é interminável) desenvolvem conceitos ousados, sistemas heterodoxos e mecânicas experimentais, cada um mais diferente e mais doido que o outro. Claro, eventualmente uma pequena empresa vira uma empresa média, e começa a produzir material para o grande público (ninguém inteligente quer ficar pequeno para sempre). Legends of the Five Rings começou como um RPG diferentão, mas hoje, em sua 4a. edição, é um jogo bem comportado, casado, católico e heterossexual. Seu criador, John Wick, partiu para fazer outras coisas, continuar reinventando a roda, mas a editora manteve L5R na linha mais «mainstream» (o mesmo aconteceu com 7th Sea, do mesmo autor e mesma editora, apesar de que este RPG teve poucas alterações em sua fórmula original se comparado com L5R).

Com a internet e as facilidades de gráficas rápidas e impressão sob demanda, criadores sem editora podem criar seus RPGs (eu discuto isso com Paul Tevis, criador do jogo A Penny for My Thought, nesta entrevista). Até mesmo para o D&D há cenários inteiros bem alternativos. Recentemente saiu um livro para D&D pela Goodman Games chamado Amethyst, que é essencialmente «Fuga de Nova Iorque» encontra «História Sem Fim».

Achar esses RPG «underground» (chamados de RPG indie — independentes), por causa da internet, nunca foi tão fácil. Só há duas barreiras para o entusiasta: 1. A língua; e 2. Cartão de crédito internacional. Todos os jogos que citei neste texto foram (e continuarão sendo) em Inglês; a maioria deles (se não todos) pode ser facilmente adquirida em formato PDF, na página da editora ou em portais como RPGNow e DriveThruRPG — o que não quer dizer que sejam baratos, apenas que o comprador não vai pagar frete. E são tantos que um jogador que queira se afastar da trilogia D&D/WoD/GURPS vai poder jogar um RPG novo por fim-de-semana e encerrar sua vida com uma lista de jogos não-jogados na mão.

Para cada WotC, há uma dúzia de Evil Hat Productions; para cada Shadowrun que se torna «mainstream», há dezenas de Ron Edwards criando jogos «indie» com mecânicas revolucionárias. Escolha o seu.

Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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