Vem circulando pelas internets que o evento Axis, que a Marvel agendou para o ano que vem, será a primeira vez na história em que a Marvel Comics irá fazer um reboot em seu universo principal (Earth-616). Se esta fosse uma conversa sobre a DC Comics, beleza (eles fazem uma Crise das Infinitas Crises a cada seis meses). Se fosse a Valiant, OK, é plausível, afinal é uma empresa relativamente nova, com um universo pequenininho e recente.

Mas a Marvel, véio, taí há décadas e décadas e nunca fez isso. Como diria o Silvio Santos e sua platéia, “eu só acredito… VENDOOOO!”

Meu argumento aqui, apesar de usar os gibis da Marvel como exemplo (são, afinal, os mais fáceis para eu me lembrar e fazer referência), é um argumento que vale para qualquer editora de histórias em quadrinhos.

Tentar dar veracidade cronológica para histórias em quadrinhos de personagens que são publicados mensalmente (às vezes, semanalmente) por décadas é amarrar os escritores e editores numa camisa de força tão forte que lhes quebram os ossos. Pense bem no que você está pedindo: como manter as histórias novas, relevantes e fresquinhas se o tempo todo a “cronologia” paira sobre o quadrinista como um miasma sufocante e ameaçador? Vamos a exemplos:

No final de 2010, havia três times de Vingadores, correspondendo a três revistas mensais: New Avengers (vol. 2), Avengers (vol. 4) e Secret Avengers. Tanto Avengers quando New Avengers eram escritos por Brian Michael Bendis e Secret Avengers, por Ed Brubaker. Nos dois títulos do Bendis, o primeiro arco, que correspondeu às seis primeiras edições de ambos, envolve aquele time de Vingadores, recém-formado e aclimatizando em suas respectivas bases, sendo atacados por forças capazes de destruir nossa dimensão (New Avengers) ou o espaçotempo (Avengers). Ambos os times estão em Nova Iorque e os eventos acontecem na mesma cidade. Ambos os times não recebem ajuda de outros heróis ou contatam sua contraparte na Mansão ou na Torre dos Vingadores para ajudar.

James "Multitarefa" Howlett. New Avengers (vol. 2) #1, p. 21. Arte de Stuart Immonen, Wade von Grawbadger e Laura Martin; texto de Brian Michael Bendis.

James “Multitarefa” Howlett. New Avengers (vol. 2) #1, p. 21. Arte de Stuart Immonen, Wade von Grawbadger e Laura Martin; texto de Brian Michael Bendis.

Então, o céu rasgando e pegando fogo de New Avengers aconteceu ao mesmo tempo que as diferentes realidades do multiverso vomitando dinossauros, monstros da Era do Apocalipse e robôs assassinos do futuro de Avengers? O problema começa na pergunta. É uma questão espúria, para começo de conversa. O fim do mundo dos New Avengers não tem nada a ver com o colapso do espaçotempo dos Avengers e não deveria ter! Neste caso, estamos falando de roteiros do mesmo autor, mas poderiam ter sido roteiristas completamente diferentes. O lance é que exigir dos roteiristas explicações a respeito dos eventos de outras revistas nas suas é um disparate e é desnecessário. O gibi dos New Avengers é dos Vingadores de Luke Cage. Os problemas dos Vingadores do Homem-de-Ferro do gibi Avengers são destes, não daqueles. Este é um universo compartilhado, e os autores precisam — absolutamente precisam — ter liberdade para contar suas histórias sem ter que gastar espaço nas preciosamente poucas vinte e duas páginas de cada número mensal tentando amarrar (e provavelmente atrapalhar) a história de outros títulos.

É claro que o autor pode fazer isso se ele quiser — quantas vezes vemos o Homem-Aranha dizendo “o Quarteto Fantástico não está atendendo o telefone!”? O fato é que não precisa; o quadrinista faz isso se quiser. Só que fazer isso toda vez irá limitar sua liberdade criativa (que já não deve ser muito grande com um editor respirando no cangote dele).

"Por que você não envelheceu em 23 anos?" Pergunta Gwen Stacy. Arte de Greg Horn e texto de Brian Michael Bendis.

“Por que você não envelheceu nadinha em 23 anos?”, pergunta Gwen Stacy. Dark Avengers (vol. 1) #11, p. 12. Arte de Greg Horn e texto de Brian Michael Bendis.

Vou piorar a situação do fim do mundo nos gibis dos Avengers e dos New Avengers, que usei acima: ao mesmo tempo, as bancas estavam recebendo o cross-over (ou evento) do semestre, Chaos War. Que envolve… quem adivinha? Isso mesmo, o fim da realidade como a conhecemos. Greg Pak e Fred Van Lente estavam escrevendo sua saga dos heróis e deuses da Terra enfrentando Amatsu-Mikaboshi, o Chaos King. Já pensou que ridículo a conversa do editor, Mark Paniccia, com os roteiristas?:

— Mark, Mark! Temos uma ótima idéia para o número um de Chaos War!
— Greg, Fred, bem-vindos. Sentem-se, sentem-se. Querem água, café, chá?
— Não, ‘brigado.
— Okay, então. Eu vou tomar um café. Vão valando enquanto eu pego uma xícara. Chaos War número um, certo?
— Certo, certo. Olha só: Amadeus Cho deu poderes de Super-Deus para o Hércules no final de Prince of Power. Aí o Hércules previu que o Chaos King tava chegando. Então, e se… e se ele aparecesse em Nova Iorque e desse um pouco de seus poderes para TODOS OS HERÓIS DA TERRA para enfrentar o Chaos King?!
— Não dá.
— Por que não? — Dizem os escritores em uníssono.
— Porque os Vingadores estarão viajando no tempo quando lançarmos Chaos King #1…
— OK, então todos menos os Vingadores.
— …E os Novos Vingadores vão estar concentrando suas energias no Wolverine para ele enfrentar Agamoto na dimensão da luz.
— Nem o Steve Rogers?
— Estará em Marte numa missão com os Secret Avengers.
— X-Men?
— Os X-Men estão em São Francisco, não dá para usá-los. Não faria sentido, né?
— É, tá, okay. Mas você falou que o Wolverine ia enfrentar Seiláquem na dimensão seiláqual, né? Mas ele também não faz parte do time do Homem-de-Ferro?
— Sim…
— … e você não acabou de nos dizer que eles viajaram no tempo?
— É… eu ainda não conversei com o Bendis sobre isso.
— Pet Avengers?
— Enfrentando Fin Fang Foom.
Pak e Van Lente se entreolham. Pak levanta uma sobracelha e diz:
— O Dragão que descobrimos ser um alienígena em Iron Man vol. 1 #275 e que, ao pegar de volta os anéis do Mandarim, voltou para seu planeta?
— Er…
— O mesmo Fin Fang Foom — emenda Van Lente — que estava enterrado debaixo de uma cidade na Dakota do Norte e foi despertado por uma escavação da Beyond Corporation e derrotado pela Nextwave?
— Ahn…
— Falando nisso, o Wolverine não está ao mesmo tempo na X-Force literalmente do outro lado do país?
— Bem…
— … e tanto Gavião-Arqueiro como Homem-Aranha não está em ambos os times de Vingadores?!
— Ai, minha cabeça… — diz Paniccia, estendendo a mão para pegar o frasco de Aspirina que sempre fica na primeira gaveta de sua mesa, pela enésima vez se arrependendo de ter aceitado o cargo de editor na Marvel.

Deixe-me piorar um pouco as coisas. Com o fim do arco Siege, Asgard está em ruínas e nessas ruínas várias histórias dão a largada: o arco Stark Resilient em Invincible Iron Man vol. 5, a jornada de Thor pelo inferno para salvar as almas dos asgardianos caídos no arco The Fine Print, e uma minissérie muito boa chamada Avengers Prime, escrita pelo onipresente Brian Bendis e criada com maestria por Alan Davis, Mark Farmer e Javier Rodriguez. Em Avengers Prime, Thor, Homem de Ferro e Steve Rogers são transportados por acidente para uma dimensão que descobrem ser uma mistura dos nove reinos (Alfheim, Jotunheim, Niffleheim, etc.) que implodiram por conta de Asgard estar em Oklahoma. Hela está p— da vida com o Thor e enche ele de porrada usando uma espada mística chamada Twilight Sword.

Ao mesmo tempo, as bancas recebiam o gibi regular do Thor em que o Deus do Trovão viaja para o inferno de Mefisto para salvar a mesma Hela de um ataque das temíveis Disir, fantasmas devoradores de espíritos.

“Você é o roteirista. Você pode fazer o que quiser”. Captain America #611, p. 18. Arte de Daniel Acuña; texto de Ed Brubaker.

Avengers Prime é uma excelente história de três amigos perdidos num mundo semi-medieval tentando levantar o moral de um deles e não seria possível se a editora se apegasse a preciosismos como cronologia ou coesão entre histórias. Pior: toda a premissa dos Nove Reinos convergindo num lugar só é oposta ao que o arco seguinte do gibi do Thor estabelece: que Asgard deixou um vácuo nos Nove Reinos, que por usa vez estão sendo sistematicamente invadidos por uma civilização que faria os Necromongers de The Chronicles of Riddick mijarem nas calças.

Se a Marvel tivesse alguma preocupação em ficar ressetando seu universo de super-heróis para honrar algum senso mal orientado de continuidade de um bendito universo compartilhado que já tem mais de cinqüenta (ou setenta e cinco) anos, não teríamos as ótimas tiradas da Jessica Jones, zoando o Luke Cage por ele já ter usado tiara, afro e camisa amarela, ou o ótimo momento em Captain America #611 em que Steve Rogers lembra o (atual) presidente Obama que ele já pediu demissão antes, uma referência à edição #332, de 1987, quando Ronald Reagan era presidente dos Estados Unidos. Uma referência distante 23 anos que pode muito bem ser ignorada por leitores novos mas que traz um sorriso ao rosto dos véios que como eu ainda lêem a revista e se lembram do arco “Captain America no More!”. F—-se se isso não faz sentido. A liberdade artísica dos quadrinistas é soberana e bate com facilidade qualquer necessidade imaginária e completamente irrelevante de fazer sentido em alguma linha de tempo desenhada num quadro negro em um porão de um nerd de trinta e sete anos, duzentos quilos, que não faz idéia de como usar uma lâmina de barbear e ainda vivendo com a mãe.

A DC Comics não consegue fazer essas referências em seus próprios gibis, porque sua “cronologia” volta apenas três anos, com os New 52. Exceto talvez por piadinhas visuais (os easter eggs), não é possível aos quadrinistas da DC fazerem referências a todo o peso da história de seus personagens como fez (sempre ele) Brian Michael Bendis em Dark Avengers vol. 1 #11, em que o Homem Molecular faz Norman Osborn alucinar com a morte de Gwen Stacy, que ele provocou em Amazing Spider-Man #121 de mil novecentos e frickin’ setenta três! Essa carga emocional, essa bagagem histórica só pode existir e só pode ser usada por escritores e desenhistas se tudo faz parte do mesmo mundo, da mesma continuidade, da mesma grande história, sem resets, sem reboots, sem Crises — e sem chilique de nerds sem nada melhor para fazer que ficar resmundando sobre malditas histórias em quadrinhos. Antes de eu te explicar como a Night Nurse é namorada do Doutor Estranho em 2009 se ela era uma personagem de fora da “Terra meia-um-meia” da Marvel em 1972, você precisa me explicar como o Superman voa. Que tal?

Essa referência velada ao clímax de Civil War, de 2006, não seria possível na DC, que ressetou seu universo em 2011. Arte de John Romita Jr, Klaus Janson e Dean White; texto de Brian Michael Bendis.

Essa referência velada ao clímax de Civil War, de 2006, não seria possível na DC, que ressetou seu universo em 2011. Avengers (vol. 4) #1, p. 9. Arte de John Romita Jr, Klaus Janson e Dean White; texto de Brian Michael Bendis.

À propósito, eu sei como o Superman voa: ele é um maldito personagem de histórias em quadrinhos. Ou, em outras palavras: fuck you, that’s why.

Em resumo, argumentar sobre a cronologia do universo Marvel, ou tentar fazer as contas de há quanto tempo certo herói ou vilão está na ativa ou quantos anos deveria ter ou como evento X se comporta na existência de evento Y, é rigorosamente o mesmo que tentar fazer igual para os gibis da Turma da Mônica. Você se preocupa com a coesão intra-universo da Turma da Mônica? Então porque diabos encana com a lógica interna do universo Marvel? Por isso não se precisa de um “rebute”. Se a Marvel o fizer, vai ser muito chato e por isso acho que não vai acontecer.

Até o fim de Axis, continuo devoto de São Tomé.


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Marcelo foi criança nos anos 80, então videogame pra ele é Sega, RPG é HeroQuest e calçado é All Star. Lê ficção especulativa sempre que pode, de preferência David & Leigh Eddings, Anne McCaffrey e John Scalzi. Evita TV como a peste — exceto se estiver passando Jornada nas Estrelas ou Supernatural. Gosta mais de cães do que de gente e abandonou a carreira de professor secundarista de História para pesquisar história da saúde pública na Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

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